| Susan George
Lula: Não há nenhum ganho em Davos
por Alejandro Kirk
Susan George está desapontada em ver que o presidente
Luiz Inácio Lula da Silva vai esta semana para o Fórum
Econômico Mundial, em Davos, em sua primeira viagem
de longa distância, ostensivamente para 'construir pontes'.
Contudo, no encontro, seus apoiadores - os manifestantes -
serão mantidos à distância.
Para George, diretora associada do Instituto Transnacional
de Amsterdã, uma irmandade de intelectuais de todo
o mundo que busca contribuir para a justiça social.
o mundo, que não é dominado por corporações
transnacionais, é 'um avião sem piloto' caminhando
para o desastre. Susan também vê um grande projeto
no círculo em torno do presidente norte-americano George
W. Bush, uma estratégia que levará o mundo de
volta à era dos Neanderthais. Assim, a guerra "muito
provável" no Iraque, segundo ela, não trata
apenas de petróleo.
Susan, também vice-presidente da Associação
para a Taxação de Transações Financeiras
em Auxílio aos Cidadãos (ATTAC-France), passa
boa parte do tempo em congressos, quando não está
escrevendo e pesquisando. Ela não fala em primeiro
lugar, e também procura não ser a última
a falar. Os debates se estendem por horas até que,
em um dado momento, que ela sente ser propício, levanta
sua mão e em geral recebe espaço na primeira
tentativa. Aparentemente tímida no início, ela
se apresenta como 'Susan George, da ATTAC-France' e em seguida
solta uma torrente de dados embalados numa lógica imbatível,
com um toque mais do que suficiente de ironia, porém
nunca insultuoso. Tudo isto dura cinco, dez minutos. Às
vezes ela fala duas vezes. Ou faz uma pergunta curta. Sem
fúria, sem gritaria, nem rompantes emotivos, porém
também sem meias palavras quando se trata do que ela
pensa ser certo (ou errado). É por isso que ela é
um dos símbolos do Fórum Social Mundial.
Lula, a Estrela do Ano no FSM, também vai a Davos.
Isto é significativo?
Sim, temo que seja. Se Davos fosse uma organização
oficial, ele sem dúvida teria uma boa razão
para ir, porém este encontro dos governantes do universo
é a criação de uma dupla de bons organizadores,
do tipo combatentes de alta classe, que aprenderam como transformar
este evento em um evento de relacionamentos ("Eu vou
porque você está indo" numa escala grandiosa).
Temo que muitas pessoas ficarão desapontadas com o
fato do seu primeiro ato como presidente ser uma viagem tão
longa para integrar-se a este grupo. A polícia não
deixará que os relacionamentos "reais" de
Lula, "suas" pessoas, os manifestantes, cheguem
sequer a 500 metros da conferência. Estive lá
no primeiro ano em que houve uma manifestação,
quando cerca de 100 de nós fomos espremidos em um espaço
exíguo por carros da polícia com grades móveis
na frente. As grades tinham cerca de 2 metros de altura, e
você ficava ali, cercado. Nunca passei tanto frio em
minha vida. Pelo menos, Lula estará quentinho!
Mario Vargas Llosa, o escritor peruano, pediu a Lula que
se tornasse um Tony Blair e não um Hugo Chávez.
O que você diria a ele?
É claro que Vargas Llosa diria isto. O que mais você
esperaria? Tony Blair é tão socialista quanto
meu cão labrador. Não creio que ele também
se tornaria um Chávez. Ele deve ser Lula. São
20 anos de organização do Partido dos Trabalhadores
(PT) por trás dele, ele tem uma base real, um enorme
respeito internacional, ele não é o líder
populista tradicional da América Latina. Ele não
deve ser outra pessoa senão ele próprio, e deveria
dizer a Vargas Llosa para voltar para casa e escrever livros.
Até o momento Lula tem o apoio de todos, dos Estados
Unidos, de Cuba, da União Européia, do FMI,
do Banco Mundial etc. Sua meta econômica é chegar
ao crescimento com a expansão dos mercados internacionais
através de um pacto social na nação mais
desigual do mundo. O que você acha deste tipo de estratégia?
Se ainda há algo que se pode chamar de "burguesia
nacional" no Brasil, e não conheço o país
bem o suficiente para afirmar isso, então, sim, pode
funcionar. Se ele puder generalizar tipos de programas tais
como pagar as famílias para manter seus filhos na escola,
o sistema de aprovação de orçamentos
de Porto Alegre, os sucessos ambientais de Curitiba, e der
o poder à maioria, então ele estará bem.
Para mim, a questão é se os ricos jogarão
este jogo ou se eles levarão seu capital para outro
lugar, como fizeram os argentinos. Espero que não.
Diversos países e políticos da Europa estão
tentando estabelecer mecanismos de diálogo que envolvam
a sociedade civil, agências de financiamento internacionais,
empresas, as Nações Unidas. As Corporações
não estão presentes. Este processo atende a
algum propósito que tenha significado?
Algumas corporações estão presentes,
porque estão tentando entender como funciona o mundo
moderno. Às vezes me pedem para lhes tentar explicar
o "momento", e eu falo com eles, como estarei fazendo
na Austrália na próxima semana. A estratégia
corporativa transnacional global, no entanto, é claramente
o que eles chamam de "CSR", ou "responsabilidade
social corporativa", o que para mim significa "auto-regulação
corporativa". Eles iniciaram isto no Rio em 1992 e têm
tido sucesso em sua promoção. Na verdade, esta
estratégia foi encampada pela ONU no chamado "compacto
global", e na Conferência de Desenvolvimento Sustentável
de Johannesburgo, onde as corporações surgiram
como "parceiras" oficiais do Desenvolvimento. No
dia em que disserem que a taxação internacional
sobre seus lucros [mesmo a níveis muito baixos] for
uma boa idéia, eu as considerarei mais sinceras. Dito
isto, às vezes estas reuniões de "diálogo"
são válidas, como o resultado de uma delas das
quais participei, que levou o Banco Mundial a falar em subsídios
agrícolas com a Via Campesina, que agrupa cerca de
70 organizações de pequenos agricultores do
mundo inteiro. Isto pode não dar em nada. Se não
der, então teremos mais munição contra
o Banco Mundial, e se der, os pequenos produtores terão
um aliado extremamente poderoso.
A quem representam as ONGs? A classe média intelectual
global - principalmente do Hemisfério Norte? Estariam
os realmente carentes, aqueles que não podem se dar
ao luxo de vir até aqui ou que nem conhecem o FSM,
representados em Porto Alegre? Como estas pessoas serão
incluídas?
É claro que há intelectuais no movimento, e
isto é bom. É claro que há pessoas do
Hemisfério Norte, graças a Deus, porque é
lá que está a maior parte do poder, e algumas
pessoas do Hemisfério Norte realmente se importam com
o que acontece com o restante (80%) da humanidade. Porém
eu creio que Porto Alegre está fincando suas raízes
cada vez mais profundamente. Estou tremendamente impressionada
com a maior parte disto aqui, e há outras organizações
de base envolvidas. Às vezes as pessoas muito pobres
podem se organizar, porém nem sempre. E, em qualquer
caso, isto toma tempo. Há cinco anos, este movimento
nem sequer existia. Em termos históricos, isto não
é nada. Creio que estamos no caminho certo, pelo menos
me recuso a ser pessimista. Estamos lutando por um contrato
melhor pelos carentes dos quais você pergunta, e em
geral, é quando não se está preocupado
o tempo todo com a simples sobrevivência que você
pode se envolver mais, se tornar mais politizado. Vamos tentar
garantir esta sobrevivência e abrir espaços para
que a política possa acontecer.
O 'movimento' irá substituir os partidos políticos
e sindicatos? Como esta questão de poder é tratada?
A vitória de Lula e seu programa político representam
os ideais do FSM?
Não, o movimento definitivamente não deve substituir
partidos e sindicatos, que devem desempenhar seus papéis
específicos e indispensáveis. Devemos nos aliar
a alguns sindicatos [ou eles conosco], e isto tem acontecido
cada vez mais. Devemos tentar influenciar os partidos e governos.
Porém não devemos buscar o poder político
propriamente dito, porque este é o lugar do compromisso.
Isto não é um insulto, é um fato da vida.
O movimento deve permanecer do lado de fora e continuar incitando,
pressionando por melhorias. Deus sabe que estamos apenas começando.
Porém, sim, a vitória de Lula certamente representa
um passo adiante, e incorpora os ideais do FSM.
A inminente guerra no Golfo e pelo petróleo, ou, como
na Roma de Augusto, os Estados Unidos necessitam de um estado
permanente de guerra para evitar o declínio no auge
de sua supremacia?
Isto precisaria de uma resposta muito longa, porém,
basicamente não, não é "apenas"
por petróleo, nem principalmente pelo petróleo.
As pessoas em torno de Bush realmente têm um "grande
projeto", pela primeira vez em mais de cinqüenta
anos, o que quebra completamente o modelo de "detenção-contenção",
e quebra até mesmo o sistema Westphaliano de 350 anos
de idade. Esta é uma razão para que o (muito
provável) ataque ao Iraque deva ser travado com toda
a nossa força, pois simplesmente reintroduz o sistema
Neanderthal: aquele que tem a maior clava ganha, e não
há nenhuma daquelas regras estúpidas do século
17 ou 19. A maioria das vítimas é civil. Não
é necessário estar de acordo com nada a respeito
de Saddam (a quem não aprovo) para tomar esta posição
de absoluta oposição a esta guerra iminente.
O pessoal de Bush também manipulou o ocorrido em 11
de setembro com maestria, reduzindo as liberdades civis e
de algum modo manobrando a massa da população,
não todos, mas a maioria. A guerra, se não custar
demais nem durar tempo demais, nem matar muitos dos "nossos
rapazes", pode ser um passo político interno muito
bom. O Iraque ocupa uma posição geopolítica
estratégica. Todas estas coisas têm importância.
Quanto a Tony Blair, ele medirá os custos políticos.
Se o movimento britânico pela paz puder fazer com que
seja caro demais que ele continue sendo o cãozinho
de Bush, ele irá parar. Se não, ele continuará.
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