Online version of TerraViva, the independent daily journal of the
World Social Forum

Versión online de TerraViva, el diario independiente del Foro Social Mundial

Inter Press Service - Home Page
World Social Forum - Porto Alegre , January 24, 2003



24/01/2003


25/01/2003


26/01/2003


27/01/2003


28/01/2003

Background


Terra Viva is an independent publication of IPS - Inter Press Service.

The opinions expressed in Terra Viva do not necessarily reflect the editorial views of IPS nor the official position of any of its sponsors.

IPS gratefully acknowledges the financial support received for this publication from: Novib Oxfam Netherlands and the Charles Stewart Mott Foundation.

The Commonwealth Foundation generously funded the participation of the following journalists:

Debra Anthony
Zarina Geloo
Marwaan Macan-Markar
Sanjay Suri
Kalinga Seneviratne


 

 


 

Susan George
Lula: Não há nenhum ganho em Davos

por Alejandro Kirk

Susan George está desapontada em ver que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai esta semana para o Fórum Econômico Mundial, em Davos, em sua primeira viagem de longa distância, ostensivamente para 'construir pontes'. Contudo, no encontro, seus apoiadores - os manifestantes - serão mantidos à distância.

Para George, diretora associada do Instituto Transnacional de Amsterdã, uma irmandade de intelectuais de todo o mundo que busca contribuir para a justiça social. o mundo, que não é dominado por corporações transnacionais, é 'um avião sem piloto' caminhando para o desastre. Susan também vê um grande projeto no círculo em torno do presidente norte-americano George W. Bush, uma estratégia que levará o mundo de volta à era dos Neanderthais. Assim, a guerra "muito provável" no Iraque, segundo ela, não trata apenas de petróleo.

Susan, também vice-presidente da Associação para a Taxação de Transações Financeiras em Auxílio aos Cidadãos (ATTAC-France), passa boa parte do tempo em congressos, quando não está escrevendo e pesquisando. Ela não fala em primeiro lugar, e também procura não ser a última a falar. Os debates se estendem por horas até que, em um dado momento, que ela sente ser propício, levanta sua mão e em geral recebe espaço na primeira tentativa. Aparentemente tímida no início, ela se apresenta como 'Susan George, da ATTAC-France' e em seguida solta uma torrente de dados embalados numa lógica imbatível, com um toque mais do que suficiente de ironia, porém nunca insultuoso. Tudo isto dura cinco, dez minutos. Às vezes ela fala duas vezes. Ou faz uma pergunta curta. Sem fúria, sem gritaria, nem rompantes emotivos, porém também sem meias palavras quando se trata do que ela pensa ser certo (ou errado). É por isso que ela é um dos símbolos do Fórum Social Mundial.

Lula, a Estrela do Ano no FSM, também vai a Davos. Isto é significativo?

Sim, temo que seja. Se Davos fosse uma organização oficial, ele sem dúvida teria uma boa razão para ir, porém este encontro dos governantes do universo é a criação de uma dupla de bons organizadores, do tipo combatentes de alta classe, que aprenderam como transformar este evento em um evento de relacionamentos ("Eu vou porque você está indo" numa escala grandiosa). Temo que muitas pessoas ficarão desapontadas com o fato do seu primeiro ato como presidente ser uma viagem tão longa para integrar-se a este grupo. A polícia não deixará que os relacionamentos "reais" de Lula, "suas" pessoas, os manifestantes, cheguem sequer a 500 metros da conferência. Estive lá no primeiro ano em que houve uma manifestação, quando cerca de 100 de nós fomos espremidos em um espaço exíguo por carros da polícia com grades móveis na frente. As grades tinham cerca de 2 metros de altura, e você ficava ali, cercado. Nunca passei tanto frio em minha vida. Pelo menos, Lula estará quentinho!

Mario Vargas Llosa, o escritor peruano, pediu a Lula que se tornasse um Tony Blair e não um Hugo Chávez. O que você diria a ele?

É claro que Vargas Llosa diria isto. O que mais você esperaria? Tony Blair é tão socialista quanto meu cão labrador. Não creio que ele também se tornaria um Chávez. Ele deve ser Lula. São 20 anos de organização do Partido dos Trabalhadores (PT) por trás dele, ele tem uma base real, um enorme respeito internacional, ele não é o líder populista tradicional da América Latina. Ele não deve ser outra pessoa senão ele próprio, e deveria dizer a Vargas Llosa para voltar para casa e escrever livros.

Até o momento Lula tem o apoio de todos, dos Estados Unidos, de Cuba, da União Européia, do FMI, do Banco Mundial etc. Sua meta econômica é chegar ao crescimento com a expansão dos mercados internacionais através de um pacto social na nação mais desigual do mundo. O que você acha deste tipo de estratégia?

Se ainda há algo que se pode chamar de "burguesia nacional" no Brasil, e não conheço o país bem o suficiente para afirmar isso, então, sim, pode funcionar. Se ele puder generalizar tipos de programas tais como pagar as famílias para manter seus filhos na escola, o sistema de aprovação de orçamentos de Porto Alegre, os sucessos ambientais de Curitiba, e der o poder à maioria, então ele estará bem. Para mim, a questão é se os ricos jogarão este jogo ou se eles levarão seu capital para outro lugar, como fizeram os argentinos. Espero que não.

Diversos países e políticos da Europa estão tentando estabelecer mecanismos de diálogo que envolvam a sociedade civil, agências de financiamento internacionais, empresas, as Nações Unidas. As Corporações não estão presentes. Este processo atende a algum propósito que tenha significado?

Algumas corporações estão presentes, porque estão tentando entender como funciona o mundo moderno. Às vezes me pedem para lhes tentar explicar o "momento", e eu falo com eles, como estarei fazendo na Austrália na próxima semana. A estratégia corporativa transnacional global, no entanto, é claramente o que eles chamam de "CSR", ou "responsabilidade social corporativa", o que para mim significa "auto-regulação corporativa". Eles iniciaram isto no Rio em 1992 e têm tido sucesso em sua promoção. Na verdade, esta estratégia foi encampada pela ONU no chamado "compacto global", e na Conferência de Desenvolvimento Sustentável de Johannesburgo, onde as corporações surgiram como "parceiras" oficiais do Desenvolvimento. No dia em que disserem que a taxação internacional sobre seus lucros [mesmo a níveis muito baixos] for uma boa idéia, eu as considerarei mais sinceras. Dito isto, às vezes estas reuniões de "diálogo" são válidas, como o resultado de uma delas das quais participei, que levou o Banco Mundial a falar em subsídios agrícolas com a Via Campesina, que agrupa cerca de 70 organizações de pequenos agricultores do mundo inteiro. Isto pode não dar em nada. Se não der, então teremos mais munição contra o Banco Mundial, e se der, os pequenos produtores terão um aliado extremamente poderoso.

A quem representam as ONGs? A classe média intelectual global - principalmente do Hemisfério Norte? Estariam os realmente carentes, aqueles que não podem se dar ao luxo de vir até aqui ou que nem conhecem o FSM, representados em Porto Alegre? Como estas pessoas serão incluídas?

É claro que há intelectuais no movimento, e isto é bom. É claro que há pessoas do Hemisfério Norte, graças a Deus, porque é lá que está a maior parte do poder, e algumas pessoas do Hemisfério Norte realmente se importam com o que acontece com o restante (80%) da humanidade. Porém eu creio que Porto Alegre está fincando suas raízes cada vez mais profundamente. Estou tremendamente impressionada com a maior parte disto aqui, e há outras organizações de base envolvidas. Às vezes as pessoas muito pobres podem se organizar, porém nem sempre. E, em qualquer caso, isto toma tempo. Há cinco anos, este movimento nem sequer existia. Em termos históricos, isto não é nada. Creio que estamos no caminho certo, pelo menos me recuso a ser pessimista. Estamos lutando por um contrato melhor pelos carentes dos quais você pergunta, e em geral, é quando não se está preocupado o tempo todo com a simples sobrevivência que você pode se envolver mais, se tornar mais politizado. Vamos tentar garantir esta sobrevivência e abrir espaços para que a política possa acontecer.

O 'movimento' irá substituir os partidos políticos e sindicatos? Como esta questão de poder é tratada? A vitória de Lula e seu programa político representam os ideais do FSM?

Não, o movimento definitivamente não deve substituir partidos e sindicatos, que devem desempenhar seus papéis específicos e indispensáveis. Devemos nos aliar a alguns sindicatos [ou eles conosco], e isto tem acontecido cada vez mais. Devemos tentar influenciar os partidos e governos. Porém não devemos buscar o poder político propriamente dito, porque este é o lugar do compromisso. Isto não é um insulto, é um fato da vida. O movimento deve permanecer do lado de fora e continuar incitando, pressionando por melhorias. Deus sabe que estamos apenas começando. Porém, sim, a vitória de Lula certamente representa um passo adiante, e incorpora os ideais do FSM.

A inminente guerra no Golfo e pelo petróleo, ou, como na Roma de Augusto, os Estados Unidos necessitam de um estado permanente de guerra para evitar o declínio no auge de sua supremacia?

Isto precisaria de uma resposta muito longa, porém, basicamente não, não é "apenas" por petróleo, nem principalmente pelo petróleo. As pessoas em torno de Bush realmente têm um "grande projeto", pela primeira vez em mais de cinqüenta anos, o que quebra completamente o modelo de "detenção-contenção", e quebra até mesmo o sistema Westphaliano de 350 anos de idade. Esta é uma razão para que o (muito provável) ataque ao Iraque deva ser travado com toda a nossa força, pois simplesmente reintroduz o sistema Neanderthal: aquele que tem a maior clava ganha, e não há nenhuma daquelas regras estúpidas do século 17 ou 19. A maioria das vítimas é civil. Não é necessário estar de acordo com nada a respeito de Saddam (a quem não aprovo) para tomar esta posição de absoluta oposição a esta guerra iminente. O pessoal de Bush também manipulou o ocorrido em 11 de setembro com maestria, reduzindo as liberdades civis e de algum modo manobrando a massa da população, não todos, mas a maioria. A guerra, se não custar demais nem durar tempo demais, nem matar muitos dos "nossos rapazes", pode ser um passo político interno muito bom. O Iraque ocupa uma posição geopolítica estratégica. Todas estas coisas têm importância. Quanto a Tony Blair, ele medirá os custos políticos. Se o movimento britânico pela paz puder fazer com que seja caro demais que ele continue sendo o cãozinho de Bush, ele irá parar. Se não, ele continuará.


 

Published Stories