| Dia de Cão em
Davos
Temperaturas gélidas e a presença maciça
de soldados reforçam o ar de exclusividade do Fórum
de Davos, que deixou os manifestantes com poucas opções
para serem ouvidos - embora Lula, o presidente brasileiro
de esquerda, vá estar ali em uma tentativa de atuar
como seu porta-voz - o que faz os moradores repensarem seu
apoio a este evento anual.
Por Emad Mekay
DAVOS, Suíça - Segurando o capacete numa mão
e seu cassetete na outra, um policial anti-distúrbios
suíço designado para manter a calma nas proximidades
de onde ocorre o Fórum Econômico Mundial aqui
nesta estância alpina parece nervoso quando expressa
seu desejo de que o fim-de-semana chegue logo.
"Espero que o frio seja tanto, que seja abaixo de zero",
diz ele, "pois assim os manifestantes não virão.
Mas, se fizerem barulho, usaremos mangueiras d'água
neles. E a água molhada pode doer num frio desses.
Isto os manterá afastados." O policial, que pediu
sigilo de identidade, está entre os milhares de homens
da polícia, militares e de segurança privada
que formam o sinal mais visível de que o muitas vezes
controverso Fórum Econômico Mundial (FEM), um
evento de cinco dias que congrega líderes empresariais,
economistas e políticos do mundo inteiro, está
acontecendo.
Os críticos destas reuniões, que as têm
como parte das congregações não democráticas
para líderes corporativos e oficiais de governo que
estabelecem de forma unilateral a direção econômica
da economia global, tiveram permissão para fazerem
manifestações na estância durante o sábado.
O FEM deste ano, de 23 a 28 de janeiro, acontece tendo como
pano de fundo uma possível guerra dos EUA contra o
Iraque, uma economia mundial estagnada e, evidentemente, porém
mais importante, uma desconfiança crescente na forma
com a qual a economia global está sendo administrada
por instituições como o próprio fórum.
Ironicamente, o tema oficial da reunião é a
"construção da confiança".
"Queremos discutir a questão da confiança",
afirma Justin Blake, oficial de mídia do FEM. "Queremos
reconstruir a confiança na economia mundial".
Mais de 2.300 participantes, incluindo diversos chefes de
estado, bem como líderes empresariais e representantes
de organizações internacionais, estão
presentes na 33a. reunião anual.
Dentre os participantes estão o novo presidente do
Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o secretário
de estado dos EUA, Colin Powell, o Rei Abdullah II, da Jordânia,
e o ex-primeiro-ministro de Israel, Shimon Perez.
Para proteger estes dignatários, as mangueiras nos
dias frios de Davos não são as únicas
opções disponíveis. Os soldados têm
ordem de derrubar aviões suspeitos. Foi estabelecida
uma zona de exclusão aérea sobre este vilarejo
nas montanhas. Helicópteros militares sobrevoam o céu
quebrando o silêncio dos Alpes. A cada hora surge uma
nova barreira nas ruas estreitas. Oficiais de segurança,
alguns deles trazidos da Alemanha - o que responde pelos diferentes
uniformes presentes - já estão fazendo pentes-finos
nas ruas, analisando os rostos das pessoas e ocasionalmente
parando os transeuntes para verificação de suas
carteiras de identidade.
Como cães em busca de explosivos
"Os manifestantes vêm aqui lutar com a polícia
de propósito", afirmou o oficial, ainda tentando
esconder a tensão e desejando que os manifestantes
desapareçam. "Eles virão de toda a Europa
sabendo que a polícia suíça é
educada, e irão usar isso. Eles querem sair nas fotos
dos jornais."
Porém o pequeno sonho deste policial, que admite que
a maioria das suas idéias sobre os manifestantes veio
de seu "chefe", bem como a forte presença
militar aqui podem ser interpretadas como tentativas reveladoras
do "establishment" do FEM de distrair a atenção
de seu papel na atual situação volátil
da economia global.
Pode também ser em parte uma tentativa de demonizar
o movimento de globalização anti-corporativa
como sendo violento, de silenciar suas acusações
de um capitalismo em falência e de uma democracia Ocidental
sem rumos, e espantar suas idéias sobre alternativas
econômicas. Embora alguns dos nomes de alta visibilidade
justifiquem a ampla segurança, também provoca
uma sensação de que a auto-confiança
dos organizadores e líderes empresariais foi abalada,
como um ego que precisa de proteção.
Aqueles que seriam os manifestantes do movimento de globalização
anti-corporativa, já culparam muitos destes líderes
empresariais, executivos corporativos e oficiais de organizações
internacionais por práticas similares que levaram à
queda da Enron e da Worldcom nos EUA, ao declínio dos
mercados acionários, à crise desestruturante
da América Latina e à tragédia humana
que se desenrola em muitas partes do mundo em desenvolvimento.
O tema de que o Fórum de Davos está provavelmente
ficando velho e precisa agarrar-se com força à
sua imagem glamourosa agora é discutido entre os mais
antigos. Lance Knobel, fundador do popular website Davos Newbies,
afirma que outros veteranos de Davos confirmam esta idéia
cada vez mais a ele. E as próprias pessoas por trás
do fórum podem estar se sentindo da mesma forma.
Klaus Schwab, presidente do Fórum, disse na terça-feira
ao Financial Times que o FEM deste ano espera chegar a "um
melhor entendimento" da economia mundial - um passo importantíssimo
da missão usual de "encontrar soluções".
"Há sete ou oito anos atrás se podia propor
soluções. Mas hoje muito menos é possível.
Se pudermos contribuir para um melhor entendimento, já
estaremos conseguindo muito", afirmou Schwab.
Moradores preocupados com o 'nome sujo'
Até os moradores locais estão afirmando que
a alta segurança e reuniões a portas fechadas
não são bem vistas num mundo que cada vez mais
se impacienta com o evento anual. Um proprietário de
restaurante no centro de Davos afirma que mudou de lado, e
agora simpatiza com o movimento anti-globalização.
Segundo ele, ficou claro que o FEM não se comporta
de forma democrática. "Eles falam muito sobre
democracia e liberalização", disse ele
sobre os oficiais do fórum, relembrando como há
dois anos as autoridades pararam os trens que levavam os manifestantes
antes que chegassem a Davos. "Quando fizeram aquilo,
soube imediatamente que havia algo de errado. Se não,
por que eles iriam tirar o direito de manifestação
e debate, e assustar a todos com esta multidão de militares?"
Margret Hofstetter, mãe de dois filhos e proprietária
de um hotel no vilarejo, diz que está começando
a sentir que o FEM pode na verdade sair muito caro. "O
FEM começou como algo muito pequeno, porém agora
estas cenas com militares, com a polícia, com possíveis
lutas e até mortes, faz com que todos nós fiquemos
preocupados", diz ela. "Não quero que meus
filhos vejam o vilarejo transformado numa base militar. Davos
não precisa deste tipo de publicidade. O fórum
pode deixar nosso nome sujo."
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