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World Social Forum - Porto Alegre , January 24, 2003



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Dia de Cão em Davos

Temperaturas gélidas e a presença maciça de soldados reforçam o ar de exclusividade do Fórum de Davos, que deixou os manifestantes com poucas opções para serem ouvidos - embora Lula, o presidente brasileiro de esquerda, vá estar ali em uma tentativa de atuar como seu porta-voz - o que faz os moradores repensarem seu apoio a este evento anual.

Por Emad Mekay

DAVOS, Suíça - Segurando o capacete numa mão e seu cassetete na outra, um policial anti-distúrbios suíço designado para manter a calma nas proximidades de onde ocorre o Fórum Econômico Mundial aqui nesta estância alpina parece nervoso quando expressa seu desejo de que o fim-de-semana chegue logo.

"Espero que o frio seja tanto, que seja abaixo de zero", diz ele, "pois assim os manifestantes não virão. Mas, se fizerem barulho, usaremos mangueiras d'água neles. E a água molhada pode doer num frio desses. Isto os manterá afastados." O policial, que pediu sigilo de identidade, está entre os milhares de homens da polícia, militares e de segurança privada que formam o sinal mais visível de que o muitas vezes controverso Fórum Econômico Mundial (FEM), um evento de cinco dias que congrega líderes empresariais, economistas e políticos do mundo inteiro, está acontecendo.

Os críticos destas reuniões, que as têm como parte das congregações não democráticas para líderes corporativos e oficiais de governo que estabelecem de forma unilateral a direção econômica da economia global, tiveram permissão para fazerem manifestações na estância durante o sábado.

O FEM deste ano, de 23 a 28 de janeiro, acontece tendo como pano de fundo uma possível guerra dos EUA contra o Iraque, uma economia mundial estagnada e, evidentemente, porém mais importante, uma desconfiança crescente na forma com a qual a economia global está sendo administrada por instituições como o próprio fórum.

Ironicamente, o tema oficial da reunião é a "construção da confiança". "Queremos discutir a questão da confiança", afirma Justin Blake, oficial de mídia do FEM. "Queremos reconstruir a confiança na economia mundial".

Mais de 2.300 participantes, incluindo diversos chefes de estado, bem como líderes empresariais e representantes de organizações internacionais, estão presentes na 33a. reunião anual.

Dentre os participantes estão o novo presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, o secretário de estado dos EUA, Colin Powell, o Rei Abdullah II, da Jordânia, e o ex-primeiro-ministro de Israel, Shimon Perez.

Para proteger estes dignatários, as mangueiras nos dias frios de Davos não são as únicas opções disponíveis. Os soldados têm ordem de derrubar aviões suspeitos. Foi estabelecida uma zona de exclusão aérea sobre este vilarejo nas montanhas. Helicópteros militares sobrevoam o céu quebrando o silêncio dos Alpes. A cada hora surge uma nova barreira nas ruas estreitas. Oficiais de segurança, alguns deles trazidos da Alemanha - o que responde pelos diferentes uniformes presentes - já estão fazendo pentes-finos nas ruas, analisando os rostos das pessoas e ocasionalmente parando os transeuntes para verificação de suas carteiras de identidade.

Como cães em busca de explosivos

"Os manifestantes vêm aqui lutar com a polícia de propósito", afirmou o oficial, ainda tentando esconder a tensão e desejando que os manifestantes desapareçam. "Eles virão de toda a Europa sabendo que a polícia suíça é educada, e irão usar isso. Eles querem sair nas fotos dos jornais."

Porém o pequeno sonho deste policial, que admite que a maioria das suas idéias sobre os manifestantes veio de seu "chefe", bem como a forte presença militar aqui podem ser interpretadas como tentativas reveladoras do "establishment" do FEM de distrair a atenção de seu papel na atual situação volátil da economia global.

Pode também ser em parte uma tentativa de demonizar o movimento de globalização anti-corporativa como sendo violento, de silenciar suas acusações de um capitalismo em falência e de uma democracia Ocidental sem rumos, e espantar suas idéias sobre alternativas econômicas. Embora alguns dos nomes de alta visibilidade justifiquem a ampla segurança, também provoca uma sensação de que a auto-confiança dos organizadores e líderes empresariais foi abalada, como um ego que precisa de proteção.

Aqueles que seriam os manifestantes do movimento de globalização anti-corporativa, já culparam muitos destes líderes empresariais, executivos corporativos e oficiais de organizações internacionais por práticas similares que levaram à queda da Enron e da Worldcom nos EUA, ao declínio dos mercados acionários, à crise desestruturante da América Latina e à tragédia humana que se desenrola em muitas partes do mundo em desenvolvimento.

O tema de que o Fórum de Davos está provavelmente ficando velho e precisa agarrar-se com força à sua imagem glamourosa agora é discutido entre os mais antigos. Lance Knobel, fundador do popular website Davos Newbies, afirma que outros veteranos de Davos confirmam esta idéia cada vez mais a ele. E as próprias pessoas por trás do fórum podem estar se sentindo da mesma forma.

Klaus Schwab, presidente do Fórum, disse na terça-feira ao Financial Times que o FEM deste ano espera chegar a "um melhor entendimento" da economia mundial - um passo importantíssimo da missão usual de "encontrar soluções". "Há sete ou oito anos atrás se podia propor soluções. Mas hoje muito menos é possível. Se pudermos contribuir para um melhor entendimento, já estaremos conseguindo muito", afirmou Schwab.

Moradores preocupados com o 'nome sujo'

Até os moradores locais estão afirmando que a alta segurança e reuniões a portas fechadas não são bem vistas num mundo que cada vez mais se impacienta com o evento anual. Um proprietário de restaurante no centro de Davos afirma que mudou de lado, e agora simpatiza com o movimento anti-globalização. Segundo ele, ficou claro que o FEM não se comporta de forma democrática. "Eles falam muito sobre democracia e liberalização", disse ele sobre os oficiais do fórum, relembrando como há dois anos as autoridades pararam os trens que levavam os manifestantes antes que chegassem a Davos. "Quando fizeram aquilo, soube imediatamente que havia algo de errado. Se não, por que eles iriam tirar o direito de manifestação e debate, e assustar a todos com esta multidão de militares?"

Margret Hofstetter, mãe de dois filhos e proprietária de um hotel no vilarejo, diz que está começando a sentir que o FEM pode na verdade sair muito caro. "O FEM começou como algo muito pequeno, porém agora estas cenas com militares, com a polícia, com possíveis lutas e até mortes, faz com que todos nós fiquemos preocupados", diz ela. "Não quero que meus filhos vejam o vilarejo transformado numa base militar. Davos não precisa deste tipo de publicidade. O fórum pode deixar nosso nome sujo."


 

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