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World Social Forum - Porto Alegre , January 24, 2003



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Fórum Social Mundial: a construção de uma utopia

Por Cândido Grzybowski (*)

Rio de Janeiro, janeiro/2003 - Para entender como se forja o Fórum Social Mundial (FSM) e sua especificidade é preciso ter em mente as condições econômicas, políticas e culturais deste início de século XXI. Para nós, brasileiros, a conjuntura permitiu gestar o governo de Lula e seu projeto de esperança para este país. Sem ir muito longe, podemos ver que para muitos seres humanos a situação se resume no mais profundo desespero por estarem submersos na profunda crise de um capitalismo globalizado, ainda mais selvagem e destrutivo sob o manto neoliberal. Para outros povos ainda é pior, porque enfrentam as bombas e a morte, frutos de uma lógica de terror e de guerra. Ainda não está claro como sairemos dessa crise, mas é o momento de intervir.

É importante compreender o papel central ocupado pelo neoliberalismo e sua fundamentalista concepção do mercado. Em nome do mercado são mercantilizadas todas as relações humanas, até a própria vida, a biodiversidade, a água, o saber, a fé. À lei do mercado livre devem submeter-se todos os direitos humanos, civis e políticos, econômicos, sociais e culturais. Mercado livre quer dizer mercado para os mais fortes, as grandes corporações econômico-financeiras. O mundo, com todos nós dentro, parece estar à venda. E, para agravar tudo isto, uma potência - os Estados Unidos - se arroga o direito de decidir sozinha o que é bom para os povos, dessa maneira colocando em crise o já desgarrado sistema multilateral existente e nos afundando em uma nova era de imperialismo belicoso.

Neste contexto, uma primeira condição para o surgimento do FSM é um sentimento difuso de rejeição que coloca em sintonia as pessoas de todas as partes do mundo. A globalização neoliberal gerou e está alimentando uma poderosa reação antiglobalização. Extrair desta oposição as potencialidades para criar outro mundo, com base em novos sonhos e utopias de liberdade, parece ser o primeiro desafio do Fórum. Até agora está conseguindo.

Nossa globalização, personificada por atores civis que afirmam que “outro mundo é possível”, se articula de várias formas. Primeiro, estão os movimentos que nasceram globais, como o ambientalista, o de mulheres e feministas, e dos que atuam na esfera dos direitos humanos. Todos eles abraçaram causas universais que os levam a ações globais que são a própria razão de existir desses movimentos. Outra forma tem sido a das redes e campanhas internacionais. Embora dedicadas a temas específicos e segmentados (dívida externa, comércio, solidariedade em situações de emergência, contra a guerra, etc.) confrontaram-se com as estruturas e os processos da globalização e acumularam um saber global extremamente importante.

Outra forma, particularmente fecunda nos anos 90, foi a organização de reuniões paralelas às grandes conferências internacionais, tanto as patrocinadas pelas Nações Unidas quanto as ligadas a instituições como o FMI, Organização Mundial do Comércio, o G-7/8, a União Européia, a Alca e outras mais. Nestes processos reagíamos diante de iniciativas “dos outros” e o que vemos nas últimas conferências (Durban, Monterrey e Johannesburgo) mostra o esgotamento desta estratégia. Mas aprendemos a nos conhecer. A forma mais recente de nos globalizarmos consiste em voltar às ruas com megamanifestações, somando os movimentos sociais tradicionais aos novos e com presença de diferentes países, o que dá colorido multicultural, multinacional - enfim, global - às nossas marchas. Esta modalidade vem aumentando desde Seattle, no final de 1999, até a mais recente manifestação contra a guerra, realizada em Florença, em novembro de 2002.

OFSM deve ser visto como uma iniciativa para superar a globalização neoliberal e recriar a globalização sobre bases mais solidárias, democráticas e sustentáveis, como canal para a inclusão de todas e todos através de sua ativa participação, para dar acesso e uso sustentável aos recursos que são um bem comum de toda a humanidade. Esta universalidade de cidadania planetária se inspira nos conceitos éticos expressos na Carta de Princípios do FSM, único parâmetro do novo modo de pensar, que nega o princípio do mercado como fundamento das sociedades e rejeita a violência como forma de ação política; diz não ao pensamento único e sim à igualdade na diversidade. Estabelece que a ação política é responsabilidade de cada sujeito coletivo e de coalizões entre eles, e não uma atribuição do Fórum.

O FSM é uma iniciativa da sociedade civil para determinar conjuntamente sua própria agenda. Trata-se, naturalmente, da parte da sociedade civil que adere à sua Carta de Princípios. Na prática, enfrentamos, primeiramente, os segmentos da sociedade civil que, batendo de frente com a globalização neoliberal, tem outras perspectivas. Assim, o Fórum acontece através da criação de um poderoso e planetário movimento de opinião, portador de sonhos e projetos sociais, de análise e diagnóstico, de alternativas e estratégias para “aqui e agora”.

O FSM se expande rapidamente pelo mundo, se globaliza. Com base na Carta de Princípios, multiplicam-se as iniciativas de fóruns temáticos, regionais e nacionais. O “outro mundo é possível” irradia-se em muitos mundos e cada um de nós pensa que sua localidade, seu país ou sua região podem ser diferentes. (IPS)

(*) Cândido Grzybowski é sociólogo, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas (Ibase) e um dos membros do comitê organizador do Fórum Social Mundial (FSM).


 

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