| Fórum Social
Mundial: a construção de uma utopia
Por Cândido Grzybowski (*)
Rio de Janeiro, janeiro/2003 - Para entender como se forja
o Fórum Social Mundial (FSM) e sua especificidade é
preciso ter em mente as condições econômicas,
políticas e culturais deste início de século
XXI. Para nós, brasileiros, a conjuntura permitiu gestar
o governo de Lula e seu projeto de esperança para este
país. Sem ir muito longe, podemos ver que para muitos
seres humanos a situação se resume no mais profundo
desespero por estarem submersos na profunda crise de um capitalismo
globalizado, ainda mais selvagem e destrutivo sob o manto
neoliberal. Para outros povos ainda é pior, porque
enfrentam as bombas e a morte, frutos de uma lógica
de terror e de guerra. Ainda não está claro
como sairemos dessa crise, mas é o momento de intervir.
É importante compreender o papel central ocupado pelo
neoliberalismo e sua fundamentalista concepção
do mercado. Em nome do mercado são mercantilizadas
todas as relações humanas, até a própria
vida, a biodiversidade, a água, o saber, a fé.
À lei do mercado livre devem submeter-se todos os direitos
humanos, civis e políticos, econômicos, sociais
e culturais. Mercado livre quer dizer mercado para os mais
fortes, as grandes corporações econômico-financeiras.
O mundo, com todos nós dentro, parece estar à
venda. E, para agravar tudo isto, uma potência - os
Estados Unidos - se arroga o direito de decidir sozinha o
que é bom para os povos, dessa maneira colocando em
crise o já desgarrado sistema multilateral existente
e nos afundando em uma nova era de imperialismo belicoso.
Neste contexto, uma primeira condição para
o surgimento do FSM é um sentimento difuso de rejeição
que coloca em sintonia as pessoas de todas as partes do mundo.
A globalização neoliberal gerou e está
alimentando uma poderosa reação antiglobalização.
Extrair desta oposição as potencialidades para
criar outro mundo, com base em novos sonhos e utopias de liberdade,
parece ser o primeiro desafio do Fórum. Até
agora está conseguindo.
Nossa globalização, personificada por atores
civis que afirmam que “outro mundo é possível”,
se articula de várias formas. Primeiro, estão
os movimentos que nasceram globais, como o ambientalista,
o de mulheres e feministas, e dos que atuam na esfera dos
direitos humanos. Todos eles abraçaram causas universais
que os levam a ações globais que são
a própria razão de existir desses movimentos.
Outra forma tem sido a das redes e campanhas internacionais.
Embora dedicadas a temas específicos e segmentados
(dívida externa, comércio, solidariedade em
situações de emergência, contra a guerra,
etc.) confrontaram-se com as estruturas e os processos da
globalização e acumularam um saber global extremamente
importante.
Outra forma, particularmente fecunda nos anos 90, foi a organização
de reuniões paralelas às grandes conferências
internacionais, tanto as patrocinadas pelas Nações
Unidas quanto as ligadas a instituições como
o FMI, Organização Mundial do Comércio,
o G-7/8, a União Européia, a Alca e outras mais.
Nestes processos reagíamos diante de iniciativas “dos
outros” e o que vemos nas últimas conferências
(Durban, Monterrey e Johannesburgo) mostra o esgotamento desta
estratégia. Mas aprendemos a nos conhecer. A forma
mais recente de nos globalizarmos consiste em voltar às
ruas com megamanifestações, somando os movimentos
sociais tradicionais aos novos e com presença de diferentes
países, o que dá colorido multicultural, multinacional
- enfim, global - às nossas marchas. Esta modalidade
vem aumentando desde Seattle, no final de 1999, até
a mais recente manifestação contra a guerra,
realizada em Florença, em novembro de 2002.
OFSM deve ser visto como uma iniciativa para superar a globalização
neoliberal e recriar a globalização sobre bases
mais solidárias, democráticas e sustentáveis,
como canal para a inclusão de todas e todos através
de sua ativa participação, para dar acesso e
uso sustentável aos recursos que são um bem
comum de toda a humanidade. Esta universalidade de cidadania
planetária se inspira nos conceitos éticos expressos
na Carta de Princípios do FSM, único parâmetro
do novo modo de pensar, que nega o princípio do mercado
como fundamento das sociedades e rejeita a violência
como forma de ação política; diz não
ao pensamento único e sim à igualdade na diversidade.
Estabelece que a ação política é
responsabilidade de cada sujeito coletivo e de coalizões
entre eles, e não uma atribuição do Fórum.
O FSM é uma iniciativa da sociedade civil para determinar
conjuntamente sua própria agenda. Trata-se, naturalmente,
da parte da sociedade civil que adere à sua Carta de
Princípios. Na prática, enfrentamos, primeiramente,
os segmentos da sociedade civil que, batendo de frente com
a globalização neoliberal, tem outras perspectivas.
Assim, o Fórum acontece através da criação
de um poderoso e planetário movimento de opinião,
portador de sonhos e projetos sociais, de análise e
diagnóstico, de alternativas e estratégias para
“aqui e agora”.
O FSM se expande rapidamente pelo mundo, se globaliza. Com
base na Carta de Princípios, multiplicam-se as iniciativas
de fóruns temáticos, regionais e nacionais.
O “outro mundo é possível” irradia-se
em muitos mundos e cada um de nós pensa que sua localidade,
seu país ou sua região podem ser diferentes.
(IPS)
(*) Cândido Grzybowski é sociólogo, diretor
do Instituto Brasileiro de Análises Socioeconômicas
(Ibase) e um dos membros do comitê organizador do Fórum
Social Mundial (FSM).
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