| JOVENS
A língua da rebelião toma forma sob as árvores
Por Marwaan Macan-Markar
Se você quiser sentir a vibração dos
ativistas de amanhã, dê um passeio pelas margens
do rio Guaíba. Lá, jovens do mundo inteiro proclamam
contra a injustiça e aprendem sobre rebelião
sob as árvores. Você irá encontrar jovens
como Wendel Vieira e Juninho Silva, brasileiros que têm
um inimigo claramente identificado: os manda-chuvas do capitalismo
que provocam o caos na Argentina e o governo norte-americano
por suas hostilidades contra o Iraque.
Ou mulheres como Maria José, estudante universitária
do Uruguai, que veio a Porto Alegre para somar sua voz em
apoio às causas que a tocam, como ecologia, ambiente,
as vítimas da terra provocadas pelo avanço da
globalização. O futuro da educação
é um ponto que também provoca ira, com muitos
na América Latina denunciando os planos do Banco Mundial
para privatizar universidades.
E estes jovens não buscam o conforto dos locais onde
se desenrola o FSM para sorver gotas de sabedoria dos colegas
viajantes. Ao invés disso, eles se reúnem sob
as árvores, sentam-se no chão do parque Harmonia
para refinar seus argumentos. "Este ambiente é
ideal para que possamos trocar idéias, conversar, discutir,
debater o que precisamos", afirma Augostin Vanella, 24,
presidente da federação de estudantes universitários
de Buenos Aires. "O que temos aqui é um espaço
aberto para jovens de muitos países desenvolverem formas
de organização para conseguirem mudanças",
completa Silva, 20, vice-presidente da União Brasileira
de Estudantes (UBE).
Há jovens de mais de 20 países atraídos
para os espaços abertos e as frondosas árvores
do parque, para seus gramados e caminhos, onde compartilham
esta visão. Alguns vieram de países longínquos
como o Japão ou as Filipinas, Argélia ou África
do Sul, Suécia e Alemanha. Este espírito de
engajamento se espalhou de outras formas, também, como
as faixas com mensagens de protesto estendidas entre centenas
de barracas, a música que alguns tocam, e as camisetas
que vestem, a favorita mostrando a figura de Che Guevara,
um ícone de rebeliões passadas.
É um mundo que atraiu até mesmo mulheres mais
velhas que têm a paixão da juventude em seus
corações. Garca Carpes, uma brasileira de 47
anos, é típica deste grupo. Em sua barraca,
Carpes ajuda pintando placas para o próximo protesto
que os jovens estão planejando. "Não a
todas as guerras", diz um cartaz em tinta vermelha. "Há
uma energia muito positiva aqui entre estas pessoas, que deveriam
desempenhar um papel ao dar uma nova forma ao mundo",
ela diz. "Eu vim do Rio de Janeiro para fazer parte disto
aqui."
Ainda assim, Vieira, de 24 anos, fala em nome de muitos de
seus compatriotas ao dizer o que os jovens querem desta festa
política: que do FSM surja um curso de ação.
E, para isto, eles farão lobbies para os ativistas
adultos saturados dos debates do dia na PUC e no Gigantinho.
"Nós buscamos mudanças através de
planos concretos", afirma. "Não basta, como
eles estão fazendo no FSM, apenas discutir política.
É preciso que se construa uma nova ordem mundial",
encerra Vieira.
|