| Uma esperança
contra a Aids
Por Emad Mekay
DAVOS, Suíça - As pessoas com Aids nos países
mais pobres do mundo em breve terão acesso a um remédio
barato de acordo com uma nova iniciativa lançada aqui
por uma empresa farmacêutica americana, que concede
aos fabricantes de medicamentos genéricos internacionais
o direito de produzir e vender seu remédio anti-Aids.
Segundo o programa, a Pharmacia Corporation, uma das mais
importantes empresas farmacêuticas do mundo, concederá
uma licença voluntária para a delavirdina, um
medicamento de combate ao Aids, para a International Dispensary
Association Foundation (IDA), uma organização
sem fins lucrativos holandesa que promove o acesso de baixo
custo aos medicamentos, que por sua vez emitirá licenças
para fabricantes de medicamentos genéricos nos países
em desenvolvimento.
A delavirdina, tratada com o nome de Rescriptor, foi aprovada
e lançada nos EUA em 1997 como terapia anti-retroviral
recomendada pelo Departamento de Saúde americano. A
iniciativa da Pharmacia poderá beneficiar milhões
de pacientes com Aids em 78 países em desenvolvimento.
Para se qualificar para o programa, estes países devem
possuir uma renda per-cápita anual não superior
a US$ 1.200 e uma taxa de infecção por HIV de
pelo menos 1% da população. No entanto, embora
os especialistas e ativistas tenham ficado satisfeitos com
esta iniciativa, eles observam que o Rescriptor não
é o medicamento mais popular para o tratamento da Aids,
e apelam para que os concorrentes da Pharmacia sigam o seu
exemplo.
A população destes países, que inclui
países da África Subsaariana, que é a
região mais duramente atingida pela pandemia da Aids,
é de aproximadamente 3,8 bilhões de pessoas.
"Esta é uma abordagem inovadora para a questão
complexa do acesso, e acreditamos que mereça ser testada
em condições reais", afirma Fred Hassan,
presidente da diretoria da Pharmacia.
A iniciativa é a primeira manifestação
concreta advinda de uma proposta da Universidade de Harvard,
recomendando que os detentores de patentes de medicamentos
concedam licenças voluntárias para fabricantes
de genéricos que concordem em fabricar medicamentos
para pessoas nos países em desenvolvimento.
A iniciativa, de co-autoria de Amir Attaran, pesquisador
da Universidade de Harvard, e de Michael Friedman, vice-presidente
da Pharmacia, ainda daria às empresas farmacêuticas
o direito de patentear proteções em países
considerados não como pobres ou que tenham uma baixa
taxa de Aids.
Países como o México ou o Brasil, por exemplo,
podem não ser áreas para a distribuição
do medicamento, porém empresas de genéricos
sediadas nestes países poderão manufaturar a
delavirdina e vendê-la no mercado internacional, uma
iniciativa que fortaleceria ainda mais o mercado mundial de
genéricos, segundo afirmou Attaran aos jornalistas
na sexta-feira. Segundo o modelo, os fabricantes de medicamentos
genéricos, no entanto, também não receberiam
o direito de aumentar os preços, pois haverão
muitos detentores de licenças em diversos países,
propiciando uma competição ilimitada e constantemente
empurrando o preço para baixo, ou porque a IDA poderá
colocar um teto de preço sobre o medicamento.
A IDA cobrará uma taxa de royalties de 5%, que, segundo
afirmam os oficiais aqui, será empregada para prestar
assistência aos licenciados, cobrir custos administrativos
e de pesquisa, e para manter o programa em andamento. Oficiais
da IDA e da Pharmacia não deram um prazo para quando
o medicamento estará realmente disponível ao
preço baixo estimado. Porém, afirmaram que haviam
"três ou quatro" empresas de genéricos
que já haveriam expressado seu interesse em obter uma
licença.
Quando estiver implementado, o programa deverá irritar
muitos fabricantes de medicamentos patenteados nos países
industrializados, que há tempos resistem o licenciamento
dos medicamentos essenciais para epidemias como as da Aids
e da tuberculose, citando riscos financeiros sobre o lucro
e ao financiamento de outros programas de pesquisa. Eles também
temem que uma iniciativa como esta, que tem sido demandada
por organizações humanitárias e por grupos
da sociedade civil, estabeleceria um precedente e em última
análise fecharia seus mercados em países em
desenvolvimento, levando à quebra de patentes sobre
outros medicamentos.
Sob pressão de grupos da sociedade civil, algumas
destas empresas, como a GlaxoSmithKline PLC e a Bristol-Myers
Squibb Co., ofereceram ostensivamente medicamentos a preços
com desconto. Ainda assim, este esforço não
muito animado não fez com que os preços dos
medicamentos caísse para os milhões de pessoas
empobrecidas e doentes nas nações do Hemisfério
Sul.
No entanto, Friedman, da Pharmacia, afirmou que estas empresas
não precisam se preocupar com suas patentes nos países
ricos, pois a empresa não pretende causar distúrbios
no sistema de patentes. A Pharmacia afirma que pedirá
que as empresas de genéricos vendam o medicamento em
formato e cor diferentes do medicamento original, para dificultar
seu contrabando para dentro dos EUA ou sua venda em outros
países ricos.
Existe uma necessidade desesperadora de medicamentos anti-retrovirais
nos países em desenvolvimento onde as taxas de Aids
são elevadas, com cerca de 40 milhões de pessoas
infectadas e milhares de mortes a cada dia. Um grupo de debatedores
que se reunia aqui no Fórum Econômico Mundial
para discutir as patentes sobre medicamentos aplaudiu a iniciativa,
porém afirmou que a batalha para acabar com a doença
está longe de ser ganha.
Eles pediram para que outros fabricantes de medicamentos
em países ricos sigam o exemplo da Pharmacia, e apelaram
para que doadores internacionais ajudem a financiar o plano
fornecendo dinheiro para que os países pobres adquiram
o medicamento. "O que é importante é reconhecer
que este esforço é apenas a metade do que se
precisa. O problema no momento é que não há
demanda porque não há dinheiro para comprar
nem mesmo os genéricos", observou Attaran. "Estes
países são mortalmente pobres. Eles estão
morrendo aos milhões."
O Fundo Global para o Combate à Aids, Tuberculose
e Malária, que originalmente foi criado e fundado pelas
nações do G7, afirma que apenas este ano US$
6 bilhões serão urgentemente necessários
para ajudar a financiar a luta contra a doença. "E
estamos pedindo outros seis bilhões de dólares
em 2003-2004", afirma Richard Fechem, do Fundo. "Este
esforço é a última chance para parar
a maior epidemia que já afetou a espécie humana.
Países estão sendo varridos do mapa por causa
do vírus."
Os debatedores também culparam os países ricos
por não terem se adiantado e oferecido o dinheiro necessário,
uma quantia pequena em relação às dimensões
da epidemia de Aids, e, por exemplo, à guerra no Iraque,
que poderá custar algo em torno de dois bilhões
de dólares. "Se eu fosse um doador sentado em
Washington, no Canadá ou no Japão, estaria dando
risadas, porque estaria vendo quanta ansiedade existe no setor
das organizações sem fins lucrativos e humanitárias
a respeito do tratamento da Aids e eu mesmo não estaria
fazendo nada, pois ninguém veio me desafiar e continuo
não me envolvendo", comentou Attaran.
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