| Nasce a Lulalogia
Por Sanjay Suri
O debate de abertura sobre a globalização no
Gigantinho deixou claro que tudo no FSM realmente começou
ao final de outubro com a eleição de Luiz Inácio
Lula da Silva como presidente do Brasil. Lula não esteve
presente no debate de abertura sobre a globalização,
o que estabeleceu as bases do fórum. E não precisava,
se considerarmos o encantamento que ele provocou no Gigantinho.
A platéia aplaudia a cada vez que seu nome era mencionado,
o que era freqüente. O sentimento era de que seu sucesso
nas eleições sublinhava e amplificava tudo aquilo
que era dito no Fórum, transformando o desejável
no possível.
O ex-líder sindical venceu com o slogan "Quero
um Brasil decente", segundo afirmou Juan Somavia, diretor
da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
"E um Brasil decente significa emprego decente para seu
povo." "Quero congratular o povo brasileiro por
sua coragem democrática", completou Somavia. "Os
mercados financeiros têm tentado intimidar os brasileiros,
porém as pessoas conseguiram demonstrar sua vontade.
O que o povo brasileiro fez deve ser feito agora pelos povos
de outros países do mundo."
A vitória de Lula "mostra o tipo de tensões
que temos neste sistema de capitalismo globalizado",
afirmou Nicola Bullard, chefe da Focus on the Global South.
"Ela mostra as demandas democráticas de pessoas
em conflito com a pressão não democrática
dos mercados e instituições financeiras."
O que em geral recebe o nome de globalização
"falhou na geração de emprego", continuou
Somavia. Cerca de 80% das pessoas em idade de trabalho não
têm segurança de renda. "Este modelo de
globalização não responde às necessidades
das famílias e comunidades", ele afirmou. "Devemos
mudá-lo", acrescentou. Esta mudança é
possível em toda parte, ele completou. "Mudamos
a ditadura no Chile, e mudaremos este tipo de globalização",
afirmou. "É isto o que resulta de uma reunião
como esta."
A palavra-chave para Somavia é multiplicação.
"É aqui onde as pessoas se reúnem para
a multiplicação das idéias", disse.
"As pessoas aqui devem organizar forças sociais
para mudança dentro de suas regiões e em todas
as regiões. Precisamos de um grande sindicato mundial
contra a globalização. Isto não é
fácil. Porém, se ficarmos apenas fazendo grandes
debates estratégicos em nosso canto, então o
resultado será o mesmo que o resultado contra as ditaduras,
pois elas duraram muito mais tempo do que deveriam."
O FSM está buscando dar uma forma concreta a este
sentimento. "Precisamos desconstruir e reduzir o poder
das instituições internacionais como o FMI,
o Banco Mundial e a OMC, e construir uma nova democracia ao
nível internacional", afirmou Bullard. "O
mais importante que estamos fazendo aqui neste debate no FSM
e nos próximos anos é a construção
de uma linguagem comum para a democracia ao nível internacional,
para que possamos encontrar espaço, consenso e uma
perspectiva comum para reduzir o poder destas instituições
não democráticas."
Nicola Bullard não se contenta em apenas falar sobre
elas. "Precisamos atacar estas instituições,
desmantelá-las, dissolver seu poder", afirmou.
"Devemos desafiar as suposições de que
a única forma de obter crescimento é abrir os
mercados aos investidores estrangeiros. Precisamos usar os
recursos de nosso povo para restabelecer a soberania do povo
sobre decisões econômicas importantes."
A mensagem implícita, palestra após palestra,
era a de que, se Lula pôde fazer isso, então
todos podem.
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