| O Homem que mordeu
uma empresa, ou pelo menos tentou
Por Zarina Geloo
Um fazendeiro tradicional está lutando contra uma
empresa multimilionária. Uma história típica
de Davi contra Golias, só que desta vez sem o final
bíblico triunfante. Pelo menos, não por enquanto.
Percy Schmeiser, fazendeiro de Saskatchewan, Canadá,
foi processado pela gigante química das sementes, a
Monsanto, por infração da patente sobre sua
canola resistente a herbicidas. A canola é uma planta
da qual se extrai óleo. O fazendeiro afirma que nunca
usou sementes da Monsanto, o que poderia ter contaminado seus
campos a partir das fazendas vizinhas, e que na verdade ele
desenvolveu seu próprio tipo de semente há mais
de 50 anos.
O primeiro "round" foi para a Monsanto, quando
o Tribunal Federal de Apelações considerou Schmeiser
culpado e ordenou o pagamento de US$ 19 mil em danos por uso
indevido da semente e outros US$ 153 mil para cobrir as custas
processuais da Monsanto. No segundo "round", Schmeiser
está contra-atacando com um processo contra o conglomerado,
dizendo que sua Canola Round-Up Ready, projetada geneticamente,
provocou danos ambientais no oeste do Canadá e contaminou
seu plantio de canola tradicional.
Em uma entrevista, Schmeiser acusou a Monsanto de enganar
os agricultores, fazendo-os acreditar que suas sementes geneticamente
modificadas (GM) produziriam colheitas maiores e mais saudáveis.
Porém ocorreu o oposto, segundo ele. Schmeiser afirmou
que a empresa de sementes fez com que os fazendeiros assinassem
contratos técnicos complicados com termos ambíguos,
que basicamente os reduziram a servos em sua própria
terra.
Segundo o fazendeiro, os contratos também estipulam
que, caso as coisas dêem errado, a empresa não
pode ser processada, além de haver uma cláusula
de confidencialidade que tira o direito do fazendeiro de falar
e se expressar. Ele diz que nunca assinou um contrato destes.
E mais: que o processo movido contra ele é a forma
com que a Monsanto o está punindo por não ter
assinado. "Estou levando esta causa para além
do que ocorreu comigo, que foi apenas punitivo, para um panorama
global, que é o da contaminação das sementes
convencionais pela GM e sua contribuição para
a morte do pequeno agricultor, e para o fato de que coloca
a segurança alimentar em risco", ele afirmou.
Schmeiser afirma que o agricultor orgânico canadense
foi varrido do mapa porque estas sementes foram contaminadas.
Os mercados europeus não aceitam produtos agrícolas
canadenses. O fazendeiro de 72 anos, afirma, contrariamente
aos lobistas do GM, que não há o que se pode
chamar de "coexistência" com as sementes convencionais,
porque os genes mutantes são sempre dominantes. As
plantações de GM não podem ser "contidas"
devido à natureza do processo de polinização.
"Não vim para dizer às pessoas o que fazer",
diz Schmeiser. "Tudo o que posso fazer é pedir
que elas aprendam com nossa experiência no Canadá.
Não tivemos aviso de que iríamos perder nossa
biodiversidade e nossas sementes puras. Não temos mais
sementes orgânicas, e estamos destruídos."
Schmeiser fez uma segunda hipoteca em sua fazenda para poder
pagar as custas processuais, bem como as de outros fazendeiros
que, como ele, desafiaram as multinacionais.
Fontes da Monsanto afirmam que existem cerca de 22 processos
semelhantes nos tribunais dos EUA, embora a corporação
busque solucionar as alegadas infrações patentárias
sem litígio. A proteção das patentes
da corporação é uma tentativa de assegurar
que ela pode recuperar seus investimentos em pesquisa para
trazer novos produtos inovadores para o mercado. Enquanto
isso, o enérgico Schmeiser se tornou um herói
folclórico entre os ativistas anti-transgênicos
e os fazendeiros afetados por empresas como a Monsanto, e
fazem contribuições para seu "fundo para
a luta contra o alimento geneticamente modificado". Ele
ganhou o prêmio Mahatma Ghandi, em outubro de 2000 na
Índia, por trabalhar para a melhoria e o bem da Humanidade.
"Estou levando esta batalha há cinco anos, e vou
continuar lutando, pois a pedra que estou atirando será
uma dentre milhões que cairão sobre eles até
que sejam derrotados."
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