| A Ofensiva do Imperio
e a Reação dos Povos
Por João Pedro Stedile (*)
Das três edições do FSM, esta talvez
seja a mais importante. Se realiza num momento de crescente
de militarização, de ofensiva econômico-militar
do governo dos Estados Unidos sobre o mundo, de aumento de
sua prepotência, da inocuidade e subserviência
dos organismos internacionais e da eminência de uma
nova guerra, agora contra o Iraque. Tudo isso com conseqüências
trágicas para a humanidade.
O FSM tem sido um grande espaço de debates, de reflexões
e de protestos, aonde se encontram milhares de intelectuais,
militantes, dirigentes, jovens e idosos, com suas idéias
contra o neoliberalismo e todas as formas de opressão.
Há muitas idéias, diferenças e pluralidade
de pensamento. Mas talvez o ponto que unifica a todos é
a unidade contra a ofensiva do império Estadunidense.
Bush-Sharon conseguiram uma façanha: nos unir a todos,
contra eles!
Os objetivos do Governo dos Estados Unidos e de suas empresas
são claros.
Basta ler os jornais e ouvir os depoimentos de seus dirigentes.
Eles querem manter a qualquer custo o seu poder imperial.
Querem sair da crise capitalista, jogando seus custos sobre
os povos do terceiro mundo. Querem manter o acesso às
fontes de energia , monopolizando-os em proveito apenas do
seu padrão de vida. Querem recuperar rapidamente suas
taxas de lucro.
Toda vez que o capitalismo teve crises prolongadas, sempre
apelou para a guerra e para a indústria bélica
como forma de recuperar seu processo de acumulação
de capital. Afinal, os capitalistas descobriram rápido
que a indústria bélica é a única
que produz uma mercadoria especial. Uma mercadoria que é
feita para se auto-destruir e assim destrói trabalhoacumulado
e abre espaço para novas mercadorias.
Desde os lamentáveis episódios de setembro
de 2001, o Governo dos Estados Unidos aplicou mais de 400
bilhões de dólares na indústria bélica.
E aumentou sua ofensiva, no Oriente médio, impondo
a guerra contra o povo Do Afeganistão, alimentando
a guerra da Palestina, e agora exigindo a guerra contra o
Iraque.
Já na América Latina, sua política imperial
se aplica em várias frentes.
Primeiro, alimenta com suas armas e financia a interminável
guerra da Colômbia, que só tem uma saída
política. Está implementando um cerco militar,
impondo várias bases em toda América do Sul.
Já colocou suas botas no Equador, na Bolívia,
e agora tenta na Argentina e Paraguay. No Brasil, fez um acordo
de uso da base aérea de Alcântara, mas por ferir
a soberania nacional brasileira teve sua legalidade contestada
no Parlamento. Impôs ao governo Fernando Henrique Cardoso
a instalação de um sistema de vigilância
da Amazônia, por satélites, radares e potentes
computadores (SIVAM) construídos por suas empresas,
com total acesso a informações e dados sobre
toda Amazônia.
Não satisfeito com isso, querem agora, impor o Acordo
de Livre comercio das Américas, ALCA. Que de livre
não tem nada, e não se restringe ao comércio.
Trata-se na verdade de um plano estratégico arquitetado
pelo Governo Estadunidense, que visa submeter o território,
as riquezas, a economia, os investimentos, agricultura, as
sementes, a cultura, a moeda, os bancos centrais, os serviços
públicos e até gastos públicos , dos
países da América Latina em proveito das empresas
Estadunidenses. E assim obterem vantagens comparativas e saírem
mais rápido da crise e enfrentarem em melhores condições
as empresas competidoras da Europa e da Asia. O que os Estados
Unidos não conseguiram com o Acordo Multilateral de
Investimentos -AMI e com a OMC, agora buscam impor com a ALCA.
Por outro lado, por trás da militarização
do continente, da imposição da ALCA, se esconde
os objetivos de garantir acesso ilimitado ao petróleo
Equatoriano, Colombiano e Venezuelano. De garantir acesso
ilimitado aos bens da biodiversidade amazônica e da
água potável. Por isso, os Estados Unidos querem
impor com na ALCA leis que garantam a propriedade privada
de seres vivos da biodiversidade, o controle das patentes
de sementes transgênicas. Querem impor um processo de
propriedade privada, não apenas da terra e dos recursos
minerais, mas agora também da água. Que se transformaria
em fonte inesgotável de lucro para suas empresas monopólicas.
Todas essas medidas afetam diretamente a agricultura familiar,
os camponeses, a produção de alimentos, a soberania
alimentar, o acesso aos bens da natureza e colocam em risco
o futuro dos camponeses, enquanto classe social, e enquanto
cidadãos, que querem viver no meio rural. Por isso
a ofensiva do governo dos Estados Unidos, com sua ALCA, OMC,
bases militares, controle da água, está politizando
e unificando todo movimento camponês na América
latina. Os movimentos camponeses estão cada vez mais
unidos e articulados em torno da Via Campesina, e dispostos
a travar todas as batalhas possíveis para impedir a
imposição da ALCA, impedir que a OMC regule
nossos produtos agrícolas. Impedir novas bases militares
Estadunidenses e desalojar as atuais.
Felizmente, o povo latino-americano está despertando.
Está surgindo um poderoso movimento unitário,
popular, de campanha continental contra a ALCA. E nos recentes
processos eleitorais , o povo tem votado decisivamente contra
o neoliberalismo e os prepostos dos Estados Unidos. Assim
foi no Equador, no Brasil, na Bolívia.. E nesse ano
certamente se repetirá na Argentina e no Uruguai.
Esperamos que o FSM seja um espaço privilegiado para
trocar idéias e intercambio com os demais movimentos
sociais, com os intelectuais e acadêmicos, para criarmos
uma grande unidade continental e mundial contra a ofensiva
do Império. Nenhum império foi eterno e tampouco
este o será.!
(*) João Pedro Stedile, dirigente do MST, da Via Campesina-Brasil
e membro do Comitê organizador do FSM.
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