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World Social Forum - Porto Alegre , January 26, 2003



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Lula Chegou bem a tempo

Uma economia mundial titubeante, um movimento forte pela justiça social e ampla aprovação popular permitem que Lula vá a Davos de cabeça erguida

Por Emad Mekay

DAVOS, Suíça - O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, crítico de longa data da globalização corporativa, ex-metalúrgico e líder sindical de origem humilde, será a maior estrela deste encontro elitista e voltado para o mercado entre grandes executivos e líderes de governo que é o Fórum Econômico Mundial, quando proferirá seu discurso aqui no sábado. Horas antes de sua chegada nesta estância de esqui nos Alpes na noite de ontem, participantes da 33a. edição do Fórum estavam ansiosos na espera do que este líder de esquerda de 57 anos de idade teria para dizer. E os jornalistas corriam em busca de passes para uma reunião fechada à imprensa que ele terá aqui com outros líderes da América Latina.

Bem a tempo

Em uma outra época, os participantes deste clube exclusivo, em geral unilateralistas e elitistas, talvez não estivessem tão inclinados a dar sequer um pouco de atenção a este filho de agricultores que fugiu da escola. Porém, com a economia mundial falindo, escândalos corporativos ainda sacudindo a comunidade de negócios e dados vindo de todas as direções dizendo que há mais desconfiança do que nunca no modelo neoliberal corporativo, as palavras de Lula poderiam de fato encontrar ouvidos muito receptivos.

Todavia, autoridades que acompanham o presidente brasileiro, buscando acalmar os temores de que seu líder possa ser um rebelde esquerdista que virará a mesa da atual política econômica brasileira, afirmam que sua mensagem será moderada, que ele abrirá um diálogo, porém manterá firmemente seu apelo por igualdade social e responsabilidade corporativa. "Lula está trazendo uma mensagem positiva para fazer avançar questões referentes aos problemas sociais", disse Luiz Fernando Furlan, ministro brasileiro do Desenvolvimento. "Ele tentará transmitir uma boa mensagem à comunidade econômica, de que não podemos ficar parados e esperar pelo que poderá acontecer com a recessão no Primeiro Mundo."

Com mais prioridade em sua agenda específica estão planos para convencer alguns líderes de países ricos e oficiais de primeira linha que estão na reunião a abrir seus mercados aos produtos, especialmente agrícolas, dos países do Hemisfério Sul. "Ele também transmitirá uma mensagem de que, se pudermos ter acesso aos mercados desenvolvidos, isto também poderia fazer avançar as economias do primeiro mundo", afirmou Furlan.

Diversos outros líderes latino-americanos, incluindo o presidente peruano Alejandro Toledo e o presidente colombiano Alvaro Uribe, já apelaram aos países industrializados para que derrubassem suas barreiras comerciais. Este poderá ser um bom momento para que Lula coloque algumas idéias alternativas sobre a mesa, especialmente na ausência de remédios econômicos viáveis dos improvisadores de sempre, os EUA e a Europa.

Colocado em contraste aos outros participantes, em especial o advogado geral dos EUA, John Ashcroft, e o secretário de Estado, Colin Powell, claramente obcecados com a "guerra contra o terror" norte-americana e em invadir o Iraque, Lula poderá de fato ser a voz da moderação - trabalhando pelo bem geral, abordagens pacíficas e benefícios igualitários.

O caminho não é fácil

Porém nem tudo será tranqüilo para Lula por aqui. Afinal de contas, o Fórum Econômico Mundial é ainda um bastião do mercado livre e dos princípios neoliberais. Entre os presentes aqui estão alguns dos mais extremos defensores dos negócios, executivos corporativos e intelectuais orientados para o mercado. Para evitar o que poderia ser um confronto improdutivo aqui, o presidente brasileiro deverá provar que ele, assim como outros líderes europeus de esquerda, pode se mover em direção ao centro, afirma Denize Bacoccina, jornalista do serviço da BBC em português. "Ele agirá como [o primeiro-ministro britânico] Tony Blair, que começou na esquerda e passou para o centro, e tem ampla aceitação", ela afirmou.

Ao nomear Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Banco de Boston, como chefe do Banco Central do Brasil, e Furlan, ex-homem de negócios e figurinha carimbada do Fórum Econômico Mundial, Lula pode estar tentando passar a imagem para o mundo, que ainda é largamente influenciado pelo neoliberalismo, de que ele não é um rebelde. Outras razões para que Lula seja bem ouvido é que ele vem com um grande apoio de seu povo, além do respaldo do movimento pela justiça social. Ele venceu com três milhões de votos a mais do que George W. Bush, em 2000. Ele também é presidente da maior economia da América Latina e 12a. do mundo. A Secretaria de Emergência Social de Lula, um plano para erradicar a fome que afeta 20 milhões de brasileiros, é no momento um dos programas mais ambiciosos e arrojados do mundo em desenvolvimento.

Lula também encontra apoio em Davos

Lula, que ajudou a estabelecer o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, Brasil, em 2001, também tem apoio por aqui. Há admiradores seus do movimento pela justiça social, o movimento alternativo que busca uma redistribuição mais eqüitativa da riqueza mundial e uma abordagem humana para a pobreza e para o subdesenvolvimento. Ativistas da Public Eye on Davos, uma coalizão da sociedade civil que monitora o FEM, afirma que Lula confirmou que se dirigirá a este pequeno fórum paralelo, sendo o segundo chefe de Estado a fazê-lo após o presidente suíço Pascal Couchepin, há dois anos. "Não tenho certeza nem se ele deveria ter vindo até aqui", afirma Miriam Behrens, ativista da Pro Natura - Friends of the Earth da Suíça. "Ele não deveria ter vindo ao Ocidente."

Outros, que vêem Lula como uma de suas histórias de sucesso, afirmam que é melhor ele não se misturar com os ricos e poderosos, acusados pela miséria de muitos, especialmente nos países em desenvolvimento. Eles afirmam, no entanto, que isto poderia ser benéfico se ele pudesse reservar um lugar para o movimento pela justiça em locais de influência e causar avanços em seus propósitos. Ao vir aqui contra a vontade de parte de seus simpatizantes do movimento pela justiça social, Lula não está esquecendo suas raízes. Ele também está agindo como o presidente de 175 milhões de brasileiros, muitos deles que ainda não fazem parte do movimento. Lula tem agora a chance de provar que o Brasil pode produzir muito mais do bom que futebol e café.


 

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