| Lula Chegou
bem a tempo
Uma economia mundial titubeante, um movimento forte pela
justiça social e ampla aprovação popular
permitem que Lula vá a Davos de cabeça erguida
Por Emad Mekay
DAVOS, Suíça - O presidente do Brasil, Luiz
Inácio Lula da Silva, crítico de longa data
da globalização corporativa, ex-metalúrgico
e líder sindical de origem humilde, será a maior
estrela deste encontro elitista e voltado para o mercado entre
grandes executivos e líderes de governo que é
o Fórum Econômico Mundial, quando proferirá
seu discurso aqui no sábado. Horas antes de sua chegada
nesta estância de esqui nos Alpes na noite de ontem,
participantes da 33a. edição do Fórum
estavam ansiosos na espera do que este líder de esquerda
de 57 anos de idade teria para dizer. E os jornalistas corriam
em busca de passes para uma reunião fechada à
imprensa que ele terá aqui com outros líderes
da América Latina.
Bem a tempo
Em uma outra época, os participantes deste clube exclusivo,
em geral unilateralistas e elitistas, talvez não estivessem
tão inclinados a dar sequer um pouco de atenção
a este filho de agricultores que fugiu da escola. Porém,
com a economia mundial falindo, escândalos corporativos
ainda sacudindo a comunidade de negócios e dados vindo
de todas as direções dizendo que há mais
desconfiança do que nunca no modelo neoliberal corporativo,
as palavras de Lula poderiam de fato encontrar ouvidos muito
receptivos.
Todavia, autoridades que acompanham o presidente brasileiro,
buscando acalmar os temores de que seu líder possa
ser um rebelde esquerdista que virará a mesa da atual
política econômica brasileira, afirmam que sua
mensagem será moderada, que ele abrirá um diálogo,
porém manterá firmemente seu apelo por igualdade
social e responsabilidade corporativa. "Lula está
trazendo uma mensagem positiva para fazer avançar questões
referentes aos problemas sociais", disse Luiz Fernando
Furlan, ministro brasileiro do Desenvolvimento. "Ele
tentará transmitir uma boa mensagem à comunidade
econômica, de que não podemos ficar parados e
esperar pelo que poderá acontecer com a recessão
no Primeiro Mundo."
Com mais prioridade em sua agenda específica estão
planos para convencer alguns líderes de países
ricos e oficiais de primeira linha que estão na reunião
a abrir seus mercados aos produtos, especialmente agrícolas,
dos países do Hemisfério Sul. "Ele também
transmitirá uma mensagem de que, se pudermos ter acesso
aos mercados desenvolvidos, isto também poderia fazer
avançar as economias do primeiro mundo", afirmou
Furlan.
Diversos outros líderes latino-americanos, incluindo
o presidente peruano Alejandro Toledo e o presidente colombiano
Alvaro Uribe, já apelaram aos países industrializados
para que derrubassem suas barreiras comerciais. Este poderá
ser um bom momento para que Lula coloque algumas idéias
alternativas sobre a mesa, especialmente na ausência
de remédios econômicos viáveis dos improvisadores
de sempre, os EUA e a Europa.
Colocado em contraste aos outros participantes, em especial
o advogado geral dos EUA, John Ashcroft, e o secretário
de Estado, Colin Powell, claramente obcecados com a "guerra
contra o terror" norte-americana e em invadir o Iraque,
Lula poderá de fato ser a voz da moderação
- trabalhando pelo bem geral, abordagens pacíficas
e benefícios igualitários.
O caminho não é fácil
Porém nem tudo será tranqüilo para Lula
por aqui. Afinal de contas, o Fórum Econômico
Mundial é ainda um bastião do mercado livre
e dos princípios neoliberais. Entre os presentes aqui
estão alguns dos mais extremos defensores dos negócios,
executivos corporativos e intelectuais orientados para o mercado.
Para evitar o que poderia ser um confronto improdutivo aqui,
o presidente brasileiro deverá provar que ele, assim
como outros líderes europeus de esquerda, pode se mover
em direção ao centro, afirma Denize Bacoccina,
jornalista do serviço da BBC em português. "Ele
agirá como [o primeiro-ministro britânico] Tony
Blair, que começou na esquerda e passou para o centro,
e tem ampla aceitação", ela afirmou.
Ao nomear Henrique Meirelles, ex-presidente mundial do Banco
de Boston, como chefe do Banco Central do Brasil, e Furlan,
ex-homem de negócios e figurinha carimbada do Fórum
Econômico Mundial, Lula pode estar tentando passar a
imagem para o mundo, que ainda é largamente influenciado
pelo neoliberalismo, de que ele não é um rebelde.
Outras razões para que Lula seja bem ouvido é
que ele vem com um grande apoio de seu povo, além do
respaldo do movimento pela justiça social. Ele venceu
com três milhões de votos a mais do que George
W. Bush, em 2000. Ele também é presidente da
maior economia da América Latina e 12a. do mundo. A
Secretaria de Emergência Social de Lula, um plano para
erradicar a fome que afeta 20 milhões de brasileiros,
é no momento um dos programas mais ambiciosos e arrojados
do mundo em desenvolvimento.
Lula também encontra apoio em Davos
Lula, que ajudou a estabelecer o Fórum Social Mundial
em Porto Alegre, Brasil, em 2001, também tem apoio
por aqui. Há admiradores seus do movimento pela justiça
social, o movimento alternativo que busca uma redistribuição
mais eqüitativa da riqueza mundial e uma abordagem humana
para a pobreza e para o subdesenvolvimento. Ativistas da Public
Eye on Davos, uma coalizão da sociedade civil que monitora
o FEM, afirma que Lula confirmou que se dirigirá a
este pequeno fórum paralelo, sendo o segundo chefe
de Estado a fazê-lo após o presidente suíço
Pascal Couchepin, há dois anos. "Não tenho
certeza nem se ele deveria ter vindo até aqui",
afirma Miriam Behrens, ativista da Pro Natura - Friends of
the Earth da Suíça. "Ele não deveria
ter vindo ao Ocidente."
Outros, que vêem Lula como uma de suas histórias
de sucesso, afirmam que é melhor ele não se
misturar com os ricos e poderosos, acusados pela miséria
de muitos, especialmente nos países em desenvolvimento.
Eles afirmam, no entanto, que isto poderia ser benéfico
se ele pudesse reservar um lugar para o movimento pela justiça
em locais de influência e causar avanços em seus
propósitos. Ao vir aqui contra a vontade de parte de
seus simpatizantes do movimento pela justiça social,
Lula não está esquecendo suas raízes.
Ele também está agindo como o presidente de
175 milhões de brasileiros, muitos deles que ainda
não fazem parte do movimento. Lula tem agora a chance
de provar que o Brasil pode produzir muito mais do bom que
futebol e café.
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