| Sebastião Salgado:
imagens de uma vida
Por Adalberto Marcondes
Aos 30 anos de carreira, o fotógrafo Sebastião
Salgado segue retratando a miséria humana provocada
pelos efeitos nefastos da globalização.
Sebastião Salgado recebeu do público no Fórum
Social Mundial o tratamento de pop star. Quase duas mil pessoas,
em sua maioria jovens, se espremeram em todos os espaços
do auditório da PUC. Salgado, de 59 anos, derramou
sobre a platéia milhões de palavras na forma
de imagens. Cenas dramáticas dos efeitos da globalização
sobre as populações pobres da América
Latina, Ásia e África. Sua lente revela o sofrimento
calado de milhões de anônimos. Suas fotos gritam
por justiça.
O público jovem, que olha para suas fotos como documentos
históricos, se surpreendeu com a quantidade de miséria
que a Humanidade é capaz de espalhar. As fotos apresentadas
por Salgado são parte de um trabalho feito nos anos
90, denominado Exodus. Mostram a degradação
da família, a fuga da guerra e o abandono do campo.
Representam o absurdo maior de populações que
têm nas favelas urbanas vida melhor, ou menos indigna
do que em seus lares de origem.
"O agribusiness não é um negócio
sustentável, é apenas mais uma forma de concentrar
renda", diz o fotógrafo, indignado. "Eu vi,
eu estive nestes lugares", confirma. Salgado, em seu
testemunho, aponta que a grande monocultura é coisa
que existe apenas nos países do Terceiro Mundo e nos
EUA, pais do modelo."A França, Itália e
Alemanha, por exemplo, são países com grande
e diversificada produção agrícola, eles
barraram este modelo monocultor em suas terras", afirmou.
Ele é um defensor intransigente da agricultura familiar
e da produção de alimentos de maneira diversificada
e em pequenas propriedades, como é feito em muitas
regiões do Sul do Brasil.
Salgado, com suas imagens intensas, agarra pelo colarinho
a consciência de seu público. "O homem do
campo recebe preço negativo por seu trabalho. Ele subsidia
quem compra sua produção com sua dignidade,
sua educação e sua saúde", denuncia.
Para ele, o modelo de produção imposto pelas
grandes corporações, baseado no agribusiness,
somente serve para gerar divisas que sustentam um modelo econômico
deteriorado.
Quando fala sobre isto, ouvimos não somente a voz
do fotojornalista, mas também a do economista, doutorado
na França, que por muitos anos visitou fazendas de
plantação de café ao redor do mundo,
principalmente na África. Sua visão crítica
é embasada em um sólido conhecimento formal
e pessoal.
A respeito da África, Salgado diz emocionado que a
Humanidade não tem o direito de abandonar aquele continente
explorado à sua própria sorte. "É
mentira dizer que as guerras africanas são tribais.
Elas são econômicas, pelo controle de recursos
minerais estratégicos e muito valiosos", diz.
Ao final de seu depoimento, as pessoas deixam a sala silenciadas
pela indignação e, talvez, mais dispostas a
repartir, distribuir e preservar. Se uma imagem vale mais
do que mil palavras, Sebastião Salgado nos deu uma
imensa biblioteca sobre a infinita capacidade humana de criar
miséria, destruição e dor.
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