| Eveline Hertkens
Guerra não torpedeará combate a pobreza
Por Marwaan Macan-Markar
Eveline Hertkens está determinada a provar seu valor
como coordenadora executiva da secretaria geral das Nações
Unidas para a campanha pelas metas de desenvolvimento do milênio
(MDGs). Para começar, ela está avançando
contra os pessimistas do mundo, que dizem que uma guerra no
Iraque fará sucumbirem as promessas mantidas pelas
MDGs de retirar os pobres do mundo da miséria. Não
é bem assim, diz ela. Todavia, Hertkens concorda que
o caminho até lá é repleto de obstáculos.
Você disse a uma platéia do FSM que as MDGs
da ONU somente poderão ser atingidas através
de uma abordagem multilateral, porém o atual governo
dos EUA está forçando o mundo desenvolvido a
jogar esta idéia fora em favor do bilateralismo e do
unilateralismo. Você não estaria fora da realidade?
Não é bem assim. Nós mostramos que podemos
fazer as coisas mesmo não envolvendo os EUA, como por
exemplo o Tribunal Criminal Internacional (em Haia). Ele se
tornará uma realidade, não se pode parar isto.
Há muita coisa que podemos fazer na situação
atual se você puser outros países para fazer
campanha a favor. Por exemplo, os países ricos podem
abrir seus mercados para os produtos feitos pelos pobres dos
países menos desenvolvidos. Há também
muito mais espaço nos países pobres para utilizar
melhor os gastos públicos na luta contra a pobreza.
Quem são as pessoas a quem você se dirigirá
para traduzir estas palavras em realidade?
Minha presença aqui é uma parte deste esforço.
Eu também espero trabalhar com parlamentaristas, com
a expansão das democracias, pois são eles que
têm a chave do cofre. Os oficiais eleitos também
devem ser parte desta agenda de tomada das ações
certas e do estabelecimento das prioridades orçamentárias
para que se possa atingir as MDGs. É preciso vontade
política, ao relacionar estas questões com o
eleitorado. Para mim, o programa do (presidente brasileiro)
Lula constitui as MDGs – acabar com a fome, fazer alguma
coisa sobre os serviços sociais, a saúde e a
educação. Talvez seu movimento, e ele próprio,
nem saibam que são parte de um consenso internacional
pelo qual temos lutado tanto.
Porém, você levou em conta como uma possível
guerra no Iraque liderada pelos EUA poderá afetar negativamente
sua missão?
Há um perigo de que os US$ 5 bilhões adicionais
pleiteados pelos EUA em Monterrey (em 2002, na conferência
da ONU sobre o financiamento ao desenvolvimento) não
virão. Ainda assim, eu não vejo este perigo
acontecendo na Europa. Há muitas boas notícias
na Europa. Durante 25 anos, eram apenas quatro países,
Suécia, Dinamarca, Holanda e Noruega, que cumpriam
seus compromissos de ajuda, porém agora este clube
está aumentando. Minha principal preocupação,
no entanto, é se os países irão honrar
suas promessas. É por isso que eu faço um apelo
a todos que vêm até aqui da Itália, Espanha
e França, para que monitorem seus governos e vejam
se eles estão fazendo o que prometeram.
Então você está otimista que, apesar
da guerra no Iraque, os fundos fluirão aos países
em desenvolvimento para que as MDGs sejam atingidas?
Sim, absolutamente, pois grande parte dos fundos não
são transferências internacionais. E, os países
em desenvolvimento prometeram estabelecer prioridades melhores,
e em muitos países não se trata apenas da questão
de expandir os gastos públicos, mas de parar os subsídios
aos ricos às custas dos pobres. Ou de começar
a taxar onde nunca se taxou antes. Portanto, há um
potencial nos países para utilizar o espaço
local para fazer um trabalho melhor na redução
da pobreza.
No entanto, foram estabelecidos prazos para que as MDGs fossem
atingidas. Você está dizendo que uma guerra traria
impacto sobre estes prazos?
Eu odeio o fato de as pessoas sentirem que uma guerra no
Iraque poderia afetar nossas energias de continuar a trabalhar
nas questões da pobreza. Por favor, vamos continuar
a trabalhar na luta contra a pobreza no restante do mundo.
O preço real seria a energia das pessoas aqui ficando
desiludidas e olhando para a guerra no Iraque, ao invés
de continuar a lutar uma batalha que é menos “sexy”
e menos fácil, e que realmente é difícil,
pois ela começa nos lares de todos nós, e precisamos
gerar a vontade política para fazer alguma coisa sobre
a pobreza. Esta é a guerra das guerras que precisamos
vencer, e não devemos deixar que nossa atenção
seja desviada para outra crise.
Contudo, tenho certeza de que você irá querer
convencer países como os EUA, Canadá e Austrália,
que ficaram muito aquém de seu compromisso de colocar
os 0,7% de seu PIB anual para ajuda ao desenvolvimento, a
serem mais generosos.
Uma forma é destacar os bons exemplos. Estou convencida
de que o anúncio da União Européia (UE)
antes da reunião de Monterrey envergonhou os EUA. Foi
um compromisso forte da UE para vencer a batalha das relações
públicas (sobre a ajuda) em Monterrey que levaram os
EUA a oferecerem US$ 5 bilhões a mais. Porém,
em termos do tamanho de sua economia, isto são migalhas.
Isto significa que você irá continuar acusando
e dando nomes para obter financiamento para o desenvolvimento?
É claro que sim, como os relatórios de desenvolvimento
humano para o PNUD. Sempre há debates públicos
quando sai um relatório. Agora teremos os relatórios
do Desenvolvimento no Milênio. Ele fará com que
as pessoas num país A comecem a pensar por que o país
B, meu vizinho, está melhor; eles odeiam esse tipo
de coisa, você sabe. Todos têm um sentimento de
nacionalismo. Também precisamos trabalhar com a sociedade
civil e com grupos de pensamento para obter listas de como
os países (ricos) estão se saindo em termos
de ajuda, alívio da dívida, acesso a mercados,
de acabar com os subsídios à agricultura que
destroem os mercados para os países pobres. Se pudermos
obter indicadores e listas que nomeiem e causem vergonha aos
países, isto provocará debates nestes países.
Se você tivesse uma chance de se encontrar com o presidente
norte-americano George Bush amanhã, o que diria a ele?
Diria que seu povo é generoso e gostaria que ele ajudasse
mais em termos da luta contra a pobreza, e que seu povo gosta
de cooperar internacionalmente. Também, que formas
multilaterais de trabalhar e colocar a pobreza do mundo no
topo de sua agenda é em última análise
do interesse do povo norte-americano. Porque é da pobreza
que vem o terrorismo.
Metas de Desenvolvimento das Nações
Unidas para o Milênio
* Erradicar a pobreza extrema e a fome, incluindo diminuir
pela metade até 2005 a população
do mundo que vive com menos de US$ 1 por dia.
* Atingir a educação primária universal
até 2015.
* Promover a igualdade de gênero e dar mais poder
às mulheres, incluindo a eliminação
das disparidades entre os gêneros em todos os níveis
escolares até 2015.
* Reduzir a mortalidade infantil.
* Aumentar a saúde materna.
* Combater a aids, a malária e outras doenças.
* Garantir a sustentabilidade ambiental.
* Desenvolver parcerias globais para o desenvolvimento. |
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