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World Social Forum - Porto Alegre , January 26, 2003



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Terra Viva is an independent publication of IPS - Inter Press Service.

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IPS gratefully acknowledges the financial support received for this publication from: Novib Oxfam Netherlands and the Charles Stewart Mott Foundation.

The Commonwealth Foundation generously funded the participation of the following journalists:

Debra Anthony
Zarina Geloo
Marwaan Macan-Markar
Sanjay Suri
Kalinga Seneviratne


 

 


 

Eveline Hertkens
Guerra não torpedeará combate a pobreza

Por Marwaan Macan-Markar

Eveline Hertkens está determinada a provar seu valor como coordenadora executiva da secretaria geral das Nações Unidas para a campanha pelas metas de desenvolvimento do milênio (MDGs). Para começar, ela está avançando contra os pessimistas do mundo, que dizem que uma guerra no Iraque fará sucumbirem as promessas mantidas pelas MDGs de retirar os pobres do mundo da miséria. Não é bem assim, diz ela. Todavia, Hertkens concorda que o caminho até lá é repleto de obstáculos.

Você disse a uma platéia do FSM que as MDGs da ONU somente poderão ser atingidas através de uma abordagem multilateral, porém o atual governo dos EUA está forçando o mundo desenvolvido a jogar esta idéia fora em favor do bilateralismo e do unilateralismo. Você não estaria fora da realidade?

Não é bem assim. Nós mostramos que podemos fazer as coisas mesmo não envolvendo os EUA, como por exemplo o Tribunal Criminal Internacional (em Haia). Ele se tornará uma realidade, não se pode parar isto. Há muita coisa que podemos fazer na situação atual se você puser outros países para fazer campanha a favor. Por exemplo, os países ricos podem abrir seus mercados para os produtos feitos pelos pobres dos países menos desenvolvidos. Há também muito mais espaço nos países pobres para utilizar melhor os gastos públicos na luta contra a pobreza.
Quem são as pessoas a quem você se dirigirá para traduzir estas palavras em realidade?

Minha presença aqui é uma parte deste esforço. Eu também espero trabalhar com parlamentaristas, com a expansão das democracias, pois são eles que têm a chave do cofre. Os oficiais eleitos também devem ser parte desta agenda de tomada das ações certas e do estabelecimento das prioridades orçamentárias para que se possa atingir as MDGs. É preciso vontade política, ao relacionar estas questões com o eleitorado. Para mim, o programa do (presidente brasileiro) Lula constitui as MDGs – acabar com a fome, fazer alguma coisa sobre os serviços sociais, a saúde e a educação. Talvez seu movimento, e ele próprio, nem saibam que são parte de um consenso internacional pelo qual temos lutado tanto.

Porém, você levou em conta como uma possível guerra no Iraque liderada pelos EUA poderá afetar negativamente sua missão?

Há um perigo de que os US$ 5 bilhões adicionais pleiteados pelos EUA em Monterrey (em 2002, na conferência da ONU sobre o financiamento ao desenvolvimento) não virão. Ainda assim, eu não vejo este perigo acontecendo na Europa. Há muitas boas notícias na Europa. Durante 25 anos, eram apenas quatro países, Suécia, Dinamarca, Holanda e Noruega, que cumpriam seus compromissos de ajuda, porém agora este clube está aumentando. Minha principal preocupação, no entanto, é se os países irão honrar suas promessas. É por isso que eu faço um apelo a todos que vêm até aqui da Itália, Espanha e França, para que monitorem seus governos e vejam se eles estão fazendo o que prometeram.

Então você está otimista que, apesar da guerra no Iraque, os fundos fluirão aos países em desenvolvimento para que as MDGs sejam atingidas?

Sim, absolutamente, pois grande parte dos fundos não são transferências internacionais. E, os países em desenvolvimento prometeram estabelecer prioridades melhores, e em muitos países não se trata apenas da questão de expandir os gastos públicos, mas de parar os subsídios aos ricos às custas dos pobres. Ou de começar a taxar onde nunca se taxou antes. Portanto, há um potencial nos países para utilizar o espaço local para fazer um trabalho melhor na redução da pobreza.

No entanto, foram estabelecidos prazos para que as MDGs fossem atingidas. Você está dizendo que uma guerra traria impacto sobre estes prazos?

Eu odeio o fato de as pessoas sentirem que uma guerra no Iraque poderia afetar nossas energias de continuar a trabalhar nas questões da pobreza. Por favor, vamos continuar a trabalhar na luta contra a pobreza no restante do mundo. O preço real seria a energia das pessoas aqui ficando desiludidas e olhando para a guerra no Iraque, ao invés de continuar a lutar uma batalha que é menos “sexy” e menos fácil, e que realmente é difícil, pois ela começa nos lares de todos nós, e precisamos gerar a vontade política para fazer alguma coisa sobre a pobreza. Esta é a guerra das guerras que precisamos vencer, e não devemos deixar que nossa atenção seja desviada para outra crise.

Contudo, tenho certeza de que você irá querer convencer países como os EUA, Canadá e Austrália, que ficaram muito aquém de seu compromisso de colocar os 0,7% de seu PIB anual para ajuda ao desenvolvimento, a serem mais generosos.

Uma forma é destacar os bons exemplos. Estou convencida de que o anúncio da União Européia (UE) antes da reunião de Monterrey envergonhou os EUA. Foi um compromisso forte da UE para vencer a batalha das relações públicas (sobre a ajuda) em Monterrey que levaram os EUA a oferecerem US$ 5 bilhões a mais. Porém, em termos do tamanho de sua economia, isto são migalhas.

Isto significa que você irá continuar acusando e dando nomes para obter financiamento para o desenvolvimento?

É claro que sim, como os relatórios de desenvolvimento humano para o PNUD. Sempre há debates públicos quando sai um relatório. Agora teremos os relatórios do Desenvolvimento no Milênio. Ele fará com que as pessoas num país A comecem a pensar por que o país B, meu vizinho, está melhor; eles odeiam esse tipo de coisa, você sabe. Todos têm um sentimento de nacionalismo. Também precisamos trabalhar com a sociedade civil e com grupos de pensamento para obter listas de como os países (ricos) estão se saindo em termos de ajuda, alívio da dívida, acesso a mercados, de acabar com os subsídios à agricultura que destroem os mercados para os países pobres. Se pudermos obter indicadores e listas que nomeiem e causem vergonha aos países, isto provocará debates nestes países.

Se você tivesse uma chance de se encontrar com o presidente norte-americano George Bush amanhã, o que diria a ele?

Diria que seu povo é generoso e gostaria que ele ajudasse mais em termos da luta contra a pobreza, e que seu povo gosta de cooperar internacionalmente. Também, que formas multilaterais de trabalhar e colocar a pobreza do mundo no topo de sua agenda é em última análise do interesse do povo norte-americano. Porque é da pobreza que vem o terrorismo.

Metas de Desenvolvimento das Nações Unidas para o Milênio
* Erradicar a pobreza extrema e a fome, incluindo diminuir pela metade até 2005 a população do mundo que vive com menos de US$ 1 por dia.
* Atingir a educação primária universal até 2015.
* Promover a igualdade de gênero e dar mais poder às mulheres, incluindo a eliminação das disparidades entre os gêneros em todos os níveis escolares até 2015.
* Reduzir a mortalidade infantil.
* Aumentar a saúde materna.
* Combater a aids, a malária e outras doenças.
* Garantir a sustentabilidade ambiental.
* Desenvolver parcerias globais para o desenvolvimento.

 



 

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