| Mário Soares
A guerra pode precipitar a grande crise do capitalismo
Por Mário Osava
O mundo está diante do abismo por duas razões,
a guerra que Washington ameaça levar ao Iraque e a
recessão econômica que prenuncia uma crise do
capitalismo, advertiu o eurodeputado e ex-presidente português
Mário Soares. Diante disso é hora de discutir
um novo contrato social mundial, preservando a ONU e partindo
dos direitos consagrados nas convenções internacionais
já aprovadas, defende o presidente honorário
da Internacional Socialista, que presidiu Portugal de 1986
a 1996, cumprindo dois mandatos, e chefiou o governo, como
primeiro ministro, por três vezes entre 1976 e 1985.
Convidado pelo Fórum Social Mundial, expôs suas
idéias numa Mesa de Diálogo e Controvérsia
e trouxe um manifesto pela paz, assinado por personalidades
portuguesas de diferentes atividades e correntes políticas.
O crescimento do Fórum Social Mundial reflete uma crise
dos partidos políticos ?
Sim. O colapso do mundo comunista fez com que os partidos
socialistas e social-democratas interiorizassem a derrota,
embora não tenha sido uma derrota do socialismo. Começaram
a aproximar-se do neoliberalismo e adotaram certas expressões
e idéias neoliberais. Isso foi visível principalmente
com (Tony) Blair e sua terceira via, em que nunca acreditei.
O povo de esquerda não mais se sentiu representado
pelos socialistas, ou se sentiram insuficientemente representados
pelos partidos políticos, o que estimulou novas formas
de expressão e de participação. Daí
o sucesso do Fórum Social Mundial, que acompanho desde
o inicio com muita simpatia. Acho que os partidos socialistas
devem estar presentes nesse campo das lutas sociais e ambientais.
Mas o FSM é uma instancia do movimento social, em
que partidos não participam.
Os movimentos sociais não podem substituir os partidos
políticos, que são essenciais à democracia.
A representação política só pode
ser obtida pelo voto, não por ativismo. Lula é
o principal exemplo disso, é como líder do PT
que chegou à presidência e o disse bem claro
no discurso de sexta-feira. Não há democracia
sem partidos, mas os partidos não esgotam a democracia.
Há outras formas de participação cidadã,
particularmente as organizações não governamentais.
O Fórum Social Mundial não pode passar de poder
social a político, isso exige a legitimação
do voto popular. O Fórum também reflete sobre
a política, é o que fizemos na mesa de sexta-feira
(Mário Soares participou da Mesa de diálogo
e controvérsia sobre “Que globalização
e como o mundo deve ser governado ?”). Pode alimentar
com idéias novas os partidos políticos, por
isso os socialistas devem ter presença no movimento
sindical, social e ecológico, que são os que
mobilizam as massas populares hoje.
E como ficam as instituições, o Estado, não
estão também sofrendo um processo de esvaziamento
?
Quem mais ataca o Estado são as grandes empresas multinacionais,
que não têm mais vínculos nacionais nem
rosto. Não se sabe quem as dirige, são anônimos
que têm como objetivo apenas lucro e mais lucro. O Estado
garante a segurança, o bem estar e o desenvolvimento
dos cidadãos, portanto não podemos alinhar na
luta contra ele. São os neoliberais que querem menos
Estado. Sempre achei que há setores econômicos
que não podem ser privatizados, que são estratégicos
para o Estado, como a saúde, a educação,
a justiça e a seguridade social, assim também
a energia e a água, que é um bem comum e um
direito humano.
Mas o Estado não deve ser tudo, nem abafar a vida social.
Foi o erro dos comunistas, a estatização exagerada
da economia representa a estagnação. Num país
de funcionários não há liberdade e morre
a criatividade. Mas sou a favor dos blocos regionais e da
partilha da soberania num Estado europeu, no conjunto da Europa.
Defendo um exército europeu, a moeda comum e também
uma política externa comum. Isso implica limitações
à soberania dos Estados nacionais, mas permite outra
dimensão e posição no mundo. Trata-se
de uma partilha voluntária. Isso vale para a América
do Sul.
Valeria também para o conjunto da América, para
a Área de Livre Comercio das Américas (ALCA)
?
Não, a ALCA é uma maneira dos estados Unidos
dominarem a América Latina mais do que já dominam.
Por isso sou um crítico feroz do fato da União
Européia não ter apoiado o Mercosul por razões
mesquinhas, como a Política Agrícola Comum (política
de proteção e subsídios que prejudica
as exportações de outros países, reduzindo
mercados e preços).
Considera positiva a ida de Lula a Davos ?
É um golpe de gênio, de grande talento. Ele
foi convidado, aceitou e vai levar a Davos a mensagem de Porto
Alegre. Vai dizer não à guerra, defender programas
contra a pobreza, atenção à vida no Terceiro
Mundo, às crianças, aos problemas sociais, e
não às taxas de juros e os lucros do capital.
Essa tentativa de diálogo internacional de Lula é
oportuna, responde à necessidade de se negociar um
novo contrato mundial ?
É hora sim de falar de um contrato mundial. O momento
no mundo é grave por duas grandes urgências:
o perigo da guerra que deve ser evitada e a recessão
econômica que pode se transformar na grande crise do
capitalismo e a guerra apressaria.
Perante essa emergência, há que definir prioridades.
Uma é não atacar as Nações Unidas.
A ONU é imperfeita, seu Conselho de Segurança
não representa o mundo e sim os vencedores da segunda
Guerra Mundial, faltam ali Japão, Alemanha, Brasil,
Índia e talvez a África do Sul. Mas ela representa
o direito internacional, que não podemos por em risco.
Não se pode fazer tábula rasa de tudo de bom
que foi construído no século XX, milhares de
convenções que defendem os direitos humanos,
das mulheres, das crianças, dos trabalhadores, da saúde,
numa súmula de toda a atividade de ONU, que deve ser
valorizada e não destruída. Contrato social
sim, mas a partir do que já se conquistou e que está
em risco. Os Estados Unidos querem marginalizar a ONU, faz
parte disso a criação do G-8 (grupo dos oito
países mais ricos), que carece de legitimidade.
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