| Uma “dura luta”
pela frente, diz Lula em Davos
Por Emad Mekay
DAVOS, Suíça - O presidente brasileiro Luiz
Inácio Lula da Silva falou duro aqui, porém
observou que havia espaço para comunicação
entre os guardiães da globalização corporativa
e seus adversários do movimento pela justiça
social. Lula, que parecia tranqüilo e confiante em sua
primeira visita ao exclusivo Fórum Econômico
Mundial, em Davos, jurou travar uma “dura luta”
contra as barreiras comerciais e políticas protecionistas
das nações ricas e industrializadas.
“Queremos o livre comércio, porém um
livre comércio caracterizado pela reciprocidade”,
disse, por intermédio de um tradutor. “Não
fará sentido as exportações que pretendemos
realizar se os países ricos continuarem pregando o
livre comércio e praticando o protecionismo.”
Lula, que veio do Fórum Social Mundial, de Porto Alegre,
declarou: “não devemos fazer concessões
a eles e iremos lutar.” O presidente brasileiro disse
ainda que outros países latino-americanos compartilham
seu ponto de vista, e que estão prontos para enfrentar
o poder das nações industrializadas na questão
do livre comércio.
“Não iremos aceitar a idéia de que o
livre comércio deva beneficiar apenas os países
desenvolvidos... não queremos ser tratados como cidadãos
de segunda classe, mas como iguais”, disse Lula aos
ricos e poderosos líderes de países desenvolvidos
e corporações multinacionais. “Se os países
ricos são duros negociadores, nós também
não podemos desistir.”
Não à guerra
O novo presidente brasileiro, cuja presença era ansiosamente
aguardada por aqui, abordou o assunto da guerra iminente dos
EUA com o Iraque. Os países ricos, observou, teriam
coisa melhor a fazer investindo dinheiro no desenvolvimento
e na luta contra a fome ao invés de desperdiçarem
dinheiro em conflitos militares. “Os conflitos devem
ser solucionados politicamente e no âmbito das Nações
Unidas. A paz não é apenas um objetivo moral,
é também racional. Os países estão
gastando bilhões e bilhões de dólares
em uma corrida armamentista e... em outras coisas que não
são prioritárias. Olhamos para os países
do Terceiro Mundo e vemos milhões e milhões
de mulheres e crianças morrendo porque não conseguem
ingerir as calorias de que precisam.”
Ele propôs em lugar disso um fundo internacional contra
a fome para os países em desenvolvimento, chamado “Acordo
Mundial pela Paz e Contra a Fome”. O propósito
seria o de dar aos famintos do mundo um “café-da-manhã,
almoço e jantar”, conforme suas palavras. Lula
também apelou por uma maior distribuição
das informações científicas e da tecnologia
entre os países industrializados e os que estão
em desenvolvimento.
No entanto, o presidente, de 57 anos, deu um tom conciliatório
perante os representantes dos negócios internacionais,
a quem por diversas vezes no passado acusou de empobrecerem
milhões de pessoas no mundo inteiro. Ele disse que
o Brasil receberia de braços abertos seus projetos
de investimentos em infra-estrutura. O ex-metalúrgico
e líder sindical brincou que estava voltando ileso
para casa depois de seu encontro com os representantes de
Davos, e apelou para um maior diálogo entre os ativistas
pela justiça social em Porto Alegre e os poderosos
líderes políticos e empresariais de Davos.
“A coisa mais fantástica é que eu estou
voltando para o Fórum Social Mundial e meus companheiros
notarão que vocês não me morderam e que
eu não mordi vocês”, disse ele à
platéia lotada. “Eu acredito que haja espaço
para que nós possamos conversar. Eu acredito que as
pessoas em Davos devem conversar com as pessoas em Porto Alegre...
Isto é como uma simples negociação entre
patrões e sindicatos que estão muito distantes
em termos de conversas sobre contratos. Mas, quando sentam
para conversar, a distância não parece tão
grande.”
Aplausos
A presença do presidente Lula em Davos foi criticada
por seus apoiadores no movimento pela justiça social.
Para estes, sua ida não enviaria qualquer mensagem
forte o suficiente de que ele rejeitava sua visão de
mundo. Porém, o presidente brasileiro foi calorosamente
recebido em Davos, e foi aplaudido diversas vezes durante
seu discurso. “Foi muito importante que ele tenha vindo
de Porto Alegre”, disse Philippe Petit, da Organização
Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO) à IPS. “Isto
certamente abre um diálogo que todos desejam ver ocorrendo
entre os dois fóruns. Os objetivos são os mesmos,
porém as receitas são diferentes, e é
por isso que precisamos discutir as receitas.”
Fritz R. Stehelin, presidente da Fundação Suíça
pela Paz, afirmou que Lula era a pessoa certa para trabalhar
por uma melhor comunicação entre os ativistas
pela justiça social e os líderes corporativos.
“Acredito que é muito importante que ele tente
criar uma ponte entre Porto Alegre e Davos”, disse Stehelin.
“Há possibilidades de interação
entre eles. Lula é um homem muito inteligente. Ele
sabe que mensagem precisa dar em casa e qual necessida dar
aqui.” Antes de sua partida, Lula deixou aos participantes
de Davos uma mensagem muito importante. “Vocês
irão ouvir falar muito de um presidente brigão",
disse.
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