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World Social Forum - Porto Alegre , January 27, 2003



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Uma “dura luta” pela frente, diz Lula em Davos

Por Emad Mekay

DAVOS, Suíça - O presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva falou duro aqui, porém observou que havia espaço para comunicação entre os guardiães da globalização corporativa e seus adversários do movimento pela justiça social. Lula, que parecia tranqüilo e confiante em sua primeira visita ao exclusivo Fórum Econômico Mundial, em Davos, jurou travar uma “dura luta” contra as barreiras comerciais e políticas protecionistas das nações ricas e industrializadas.

“Queremos o livre comércio, porém um livre comércio caracterizado pela reciprocidade”, disse, por intermédio de um tradutor. “Não fará sentido as exportações que pretendemos realizar se os países ricos continuarem pregando o livre comércio e praticando o protecionismo.” Lula, que veio do Fórum Social Mundial, de Porto Alegre, declarou: “não devemos fazer concessões a eles e iremos lutar.” O presidente brasileiro disse ainda que outros países latino-americanos compartilham seu ponto de vista, e que estão prontos para enfrentar o poder das nações industrializadas na questão do livre comércio.

“Não iremos aceitar a idéia de que o livre comércio deva beneficiar apenas os países desenvolvidos... não queremos ser tratados como cidadãos de segunda classe, mas como iguais”, disse Lula aos ricos e poderosos líderes de países desenvolvidos e corporações multinacionais. “Se os países ricos são duros negociadores, nós também não podemos desistir.”

Não à guerra

O novo presidente brasileiro, cuja presença era ansiosamente aguardada por aqui, abordou o assunto da guerra iminente dos EUA com o Iraque. Os países ricos, observou, teriam coisa melhor a fazer investindo dinheiro no desenvolvimento e na luta contra a fome ao invés de desperdiçarem dinheiro em conflitos militares. “Os conflitos devem ser solucionados politicamente e no âmbito das Nações Unidas. A paz não é apenas um objetivo moral, é também racional. Os países estão gastando bilhões e bilhões de dólares em uma corrida armamentista e... em outras coisas que não são prioritárias. Olhamos para os países do Terceiro Mundo e vemos milhões e milhões de mulheres e crianças morrendo porque não conseguem ingerir as calorias de que precisam.”

Ele propôs em lugar disso um fundo internacional contra a fome para os países em desenvolvimento, chamado “Acordo Mundial pela Paz e Contra a Fome”. O propósito seria o de dar aos famintos do mundo um “café-da-manhã, almoço e jantar”, conforme suas palavras. Lula também apelou por uma maior distribuição das informações científicas e da tecnologia entre os países industrializados e os que estão em desenvolvimento.

No entanto, o presidente, de 57 anos, deu um tom conciliatório perante os representantes dos negócios internacionais, a quem por diversas vezes no passado acusou de empobrecerem milhões de pessoas no mundo inteiro. Ele disse que o Brasil receberia de braços abertos seus projetos de investimentos em infra-estrutura. O ex-metalúrgico e líder sindical brincou que estava voltando ileso para casa depois de seu encontro com os representantes de Davos, e apelou para um maior diálogo entre os ativistas pela justiça social em Porto Alegre e os poderosos líderes políticos e empresariais de Davos.

“A coisa mais fantástica é que eu estou voltando para o Fórum Social Mundial e meus companheiros notarão que vocês não me morderam e que eu não mordi vocês”, disse ele à platéia lotada. “Eu acredito que haja espaço para que nós possamos conversar. Eu acredito que as pessoas em Davos devem conversar com as pessoas em Porto Alegre... Isto é como uma simples negociação entre patrões e sindicatos que estão muito distantes em termos de conversas sobre contratos. Mas, quando sentam para conversar, a distância não parece tão grande.”

Aplausos

A presença do presidente Lula em Davos foi criticada por seus apoiadores no movimento pela justiça social. Para estes, sua ida não enviaria qualquer mensagem forte o suficiente de que ele rejeitava sua visão de mundo. Porém, o presidente brasileiro foi calorosamente recebido em Davos, e foi aplaudido diversas vezes durante seu discurso. “Foi muito importante que ele tenha vindo de Porto Alegre”, disse Philippe Petit, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO) à IPS. “Isto certamente abre um diálogo que todos desejam ver ocorrendo entre os dois fóruns. Os objetivos são os mesmos, porém as receitas são diferentes, e é por isso que precisamos discutir as receitas.”

Fritz R. Stehelin, presidente da Fundação Suíça pela Paz, afirmou que Lula era a pessoa certa para trabalhar por uma melhor comunicação entre os ativistas pela justiça social e os líderes corporativos. “Acredito que é muito importante que ele tente criar uma ponte entre Porto Alegre e Davos”, disse Stehelin. “Há possibilidades de interação entre eles. Lula é um homem muito inteligente. Ele sabe que mensagem precisa dar em casa e qual necessida dar aqui.” Antes de sua partida, Lula deixou aos participantes de Davos uma mensagem muito importante. “Vocês irão ouvir falar muito de um presidente brigão", disse.


 

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