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World Social Forum - Porto Alegre , January 28, 2003



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Marina Silva: A exceção que quer ser regra

Por Mario Osava

A ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, reconhece ser uma exceção. Mas acha que chegou onde está pelas oportunidades que teve, não apenas pela capacidade. Há milhões de Marinas, de Lulas e Chico Mendes entre os brasileiros, de vocações que não se realizam porque as condições vigentes não lhes permite desenvolver suas potencialidades, disse Marina no seu testemunho, num salão da PUC abarrotado de gente, na segunda-feira. Seu sonho é que o governo de Lula torne regra essas exceções, ampliando as oportunidades a todos e contrapondo-se ao “discurso reacionário, conservador, que prega a exceção” e condena os pobres dizendo que “são pobres porque não se esforçaram como a Marina”.

A atual ministra, eleita senadora duas vezes pelo Acre, trabalhou desde menina, “cortando seringa” para ajudar o pai pobre e seringueiro a criar uma família de oito filhos. Caminhava 14 kilômetros por dia, “sete para cortar e sete para colher” o látex com que se faz a borracha natural. Com a morte precoce da mãe, Marina assumiu as tarefas da casa. Não havia escola no seringal a 170 kilômetros de Rio Branco, capital do Acre. Mas aprendeu aritmética para não ser enganada pelos patrões. Só foi se alfabetizar aos 17 anos, depois que mudou-se para Rio Branco, em busca de tratamento para uma hepatite que foi tratada como malaria e de escola. Um curso de alfabetização do Mobral, estudos de madrugada enquanto trabalhava como doméstica e cursos supletivos lhe permitiram entrar na faculdade e formar-se em História. Pelo meio do caminho, abandonou o sonho de ser freira, seduzida pela luta sindical e política, pela teologia da libertação dos irmãos Leonardo e Clodovis Boff, que naquela época frequentavam muito o Acre.

O convivio com Chico Mendes, o líder seringueiro e idealizador das reservas extrativistas, mudou sua vida e lhe deixou o que ela considera principios fundamentais: ouvir muito a todos, inclusive os do outro lado, dar oportunidade a todos, em “relações horizontais” e compartilhar a autoria de tudo que se faz. Esse é o desafio do governo de Lula: “se fizermos mudanças COM o povo, seremos vitoriosos”, mas será um fracasso se as conquistas não se fizerem junto a população ou ocorrerem sem a percepção dessa partilha, sentenciou.

Sua vocação de ambientalista, ou melhor, de socioambientalista, que combina preocupações ecológicas e sociais, surgiu dessa infancia en meio à floresta, em meio ao conhecimento tradicional dos povos da floresta e na luta em sua defesa.

Antes e depois do testemunho, a ministra respondeu a algumas prerguntas de Terra Viva.

Como vê as propostas de inclusão de cláusulas ambientais nos acordos comerciais internacionais ?

Temos que ter cuidado com barreiras não tarifarias, mas existem questões que são avanços da legislação de cada país, que não podem ser rebaixados em função dos interesses de mercado. No caso brasileiro, estamos sempre atentos para evitar que as questões ambientais possam ser utilizados como barreiras não tarifárias, para evitar o protecionismo. Mas ao mesmo tempo temos consciência que somos um país rico em recursos naturais e precisamos nos firmar sobretudo pelo exempla com relação à proteção do meio ambiente e o cuidado com os nossos produtos, para que possam ter qualidade ambiental. Esse é um esforço que o país deve fazer a partir de si mesmo.

A globalização é negativa para o meio ambiente ?

Seria muito apressado resumir em negativo ou positivo. Vejo a globalização como um grande espaço de troca entre as diferentes culturas, entre os diferentes povos. Se for visto como troca, como cooperação, como possibilidade de construção mútua é positivo. Se for visto como sinônimo de homogeneização, de assimilação, isso é muito ruim, sobretudo se tiver um forte viés de dominação, seja econômica, cultural ou até mesmo bélica. A globalização em si não é boa nem má. Ruim podem ser os resultados que poderemos extrair dela, a partir de interesses que nem sempre possam estar alinhados a propositos de consolidação de valores, de ética, de equidade, sobretudo de valorização da vida.

Mas a maior competição comercial, forçando a redução dos custos de produção, não leva a uma exploração predatória dos recursos naturais ?

Na medida em que tem esse efeito, com certeza, não tenho dúvida. Mas na medida em que disponibiliza globalmente os danos, pode também forçar a busca de soluções conjuntas.

As mudanças climáticas podem ser consideradas o maior problema ambiental do mundo hoje ?

Sim, acho que os problemas de clima levam a situações que grande preocupação para todos, porque põe em questão a sobrevivencia do mundo.

No FSM há uma grande preocupação em afirmar a água como patrimonio da humanidade, evitar sua privatização. Mas no Brasil há projetos de privatização das empresas de água e saneamento. Que acha disso ?

O que é de responsabilidade da humanidade é o uso sustentável da agua. A humanidade responde por isso, mas cada país tem autonomia para utilizar seus recursos naturais. A posição do novo governo brasileiro é de que o Estado é responsável pelo atendimento dos serviços estratégicos. No caso do saneamento existem algumas experiencias que mostram a possibilidade de serem feitas parcerias com a iniciativa privada, desde que sejam vantajosas para o interesse social e para o interesse do Estado. De qualquer forma esses serviços são de competencia do Estado, que deve estar preparado para oferecê-los à sociedade com a qualidade adequada.

Em relação à soja transgênica, os estudos já feitos, nos Estados Unidos por exemplo, não são suficientes para liberar a produção no Brasil ? Ainda se justifica o principio da precaução ?

Achamos que ainda são necessarias mais pesquisas, no Brasil. Não somos contra os estudos estrangeiros, mas o cultivo comercial exige pesquisas na nossa realidade, que ofereçam respostas dentro das nossas condições, de um país de grande biodiversidade. Não é prudente que sejam aplicados ao Brasil resultados de estudos feitos em países de pouca variedade de espécies, como Estados Unidos e Canadá, onde a soja transgênica foi mais pesquisada.


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