| Marina Silva: A exceção
que quer ser regra
Por Mario Osava
A ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, reconhece ser
uma exceção. Mas acha que chegou onde está
pelas oportunidades que teve, não apenas pela capacidade.
Há milhões de Marinas, de Lulas e Chico Mendes
entre os brasileiros, de vocações que não
se realizam porque as condições vigentes não
lhes permite desenvolver suas potencialidades, disse Marina
no seu testemunho, num salão da PUC abarrotado de gente,
na segunda-feira. Seu sonho é que o governo de Lula
torne regra essas exceções, ampliando as oportunidades
a todos e contrapondo-se ao “discurso reacionário,
conservador, que prega a exceção” e condena
os pobres dizendo que “são pobres porque não
se esforçaram como a Marina”.
A atual ministra, eleita senadora duas vezes pelo Acre, trabalhou
desde menina, “cortando seringa” para ajudar o
pai pobre e seringueiro a criar uma família de oito
filhos. Caminhava 14 kilômetros por dia, “sete
para cortar e sete para colher” o látex com que
se faz a borracha natural. Com a morte precoce da mãe,
Marina assumiu as tarefas da casa. Não havia escola
no seringal a 170 kilômetros de Rio Branco, capital
do Acre. Mas aprendeu aritmética para não ser
enganada pelos patrões. Só foi se alfabetizar
aos 17 anos, depois que mudou-se para Rio Branco, em busca
de tratamento para uma hepatite que foi tratada como malaria
e de escola. Um curso de alfabetização do Mobral,
estudos de madrugada enquanto trabalhava como doméstica
e cursos supletivos lhe permitiram entrar na faculdade e formar-se
em História. Pelo meio do caminho, abandonou o sonho
de ser freira, seduzida pela luta sindical e política,
pela teologia da libertação dos irmãos
Leonardo e Clodovis Boff, que naquela época frequentavam
muito o Acre.
O convivio com Chico Mendes, o líder seringueiro e
idealizador das reservas extrativistas, mudou sua vida e lhe
deixou o que ela considera principios fundamentais: ouvir
muito a todos, inclusive os do outro lado, dar oportunidade
a todos, em “relações horizontais”
e compartilhar a autoria de tudo que se faz. Esse é
o desafio do governo de Lula: “se fizermos mudanças
COM o povo, seremos vitoriosos”, mas será um
fracasso se as conquistas não se fizerem junto a população
ou ocorrerem sem a percepção dessa partilha,
sentenciou.
Sua vocação de ambientalista, ou melhor, de
socioambientalista, que combina preocupações
ecológicas e sociais, surgiu dessa infancia en meio
à floresta, em meio ao conhecimento tradicional dos
povos da floresta e na luta em sua defesa.
Antes e depois do testemunho, a ministra respondeu a algumas
prerguntas de Terra Viva.
Como vê as propostas de inclusão de cláusulas
ambientais nos acordos comerciais internacionais ?
Temos que ter cuidado com barreiras não tarifarias,
mas existem questões que são avanços
da legislação de cada país, que não
podem ser rebaixados em função dos interesses
de mercado. No caso brasileiro, estamos sempre atentos para
evitar que as questões ambientais possam ser utilizados
como barreiras não tarifárias, para evitar o
protecionismo. Mas ao mesmo tempo temos consciência
que somos um país rico em recursos naturais e precisamos
nos firmar sobretudo pelo exempla com relação
à proteção do meio ambiente e o cuidado
com os nossos produtos, para que possam ter qualidade ambiental.
Esse é um esforço que o país deve fazer
a partir de si mesmo.
A globalização é negativa para o meio
ambiente ?
Seria muito apressado resumir em negativo ou positivo. Vejo
a globalização como um grande espaço
de troca entre as diferentes culturas, entre os diferentes
povos. Se for visto como troca, como cooperação,
como possibilidade de construção mútua
é positivo. Se for visto como sinônimo de homogeneização,
de assimilação, isso é muito ruim, sobretudo
se tiver um forte viés de dominação,
seja econômica, cultural ou até mesmo bélica.
A globalização em si não é boa
nem má. Ruim podem ser os resultados que poderemos
extrair dela, a partir de interesses que nem sempre possam
estar alinhados a propositos de consolidação
de valores, de ética, de equidade, sobretudo de valorização
da vida.
Mas a maior competição comercial, forçando
a redução dos custos de produção,
não leva a uma exploração predatória
dos recursos naturais ?
Na medida em que tem esse efeito, com certeza, não
tenho dúvida. Mas na medida em que disponibiliza globalmente
os danos, pode também forçar a busca de soluções
conjuntas.
As mudanças climáticas podem ser consideradas
o maior problema ambiental do mundo hoje ?
Sim, acho que os problemas de clima levam a situações
que grande preocupação para todos, porque põe
em questão a sobrevivencia do mundo.
No FSM há uma grande preocupação em
afirmar a água como patrimonio da humanidade, evitar
sua privatização. Mas no Brasil há projetos
de privatização das empresas de água
e saneamento. Que acha disso ?
O que é de responsabilidade da humanidade é
o uso sustentável da agua. A humanidade responde por
isso, mas cada país tem autonomia para utilizar seus
recursos naturais. A posição do novo governo
brasileiro é de que o Estado é responsável
pelo atendimento dos serviços estratégicos.
No caso do saneamento existem algumas experiencias que mostram
a possibilidade de serem feitas parcerias com a iniciativa
privada, desde que sejam vantajosas para o interesse social
e para o interesse do Estado. De qualquer forma esses serviços
são de competencia do Estado, que deve estar preparado
para oferecê-los à sociedade com a qualidade
adequada.
Em relação à soja transgênica,
os estudos já feitos, nos Estados Unidos por exemplo,
não são suficientes para liberar a produção
no Brasil ? Ainda se justifica o principio da precaução
?
Achamos que ainda são necessarias mais pesquisas,
no Brasil. Não somos contra os estudos estrangeiros,
mas o cultivo comercial exige pesquisas na nossa realidade,
que ofereçam respostas dentro das nossas condições,
de um país de grande biodiversidade. Não é
prudente que sejam aplicados ao Brasil resultados de estudos
feitos em países de pouca variedade de espécies,
como Estados Unidos e Canadá, onde a soja transgênica
foi mais pesquisada.
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