| A ONU sob fogo cruzado
Por Mario Osava
Se a ONU quer ter algum papel no futuro, não pode
aprovar essa guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, advertiu
Vittorio Agnoletto, coordenador do Forum Social da Italia,
durante a última Mesa de Diálogo e Controvérsias
deste III FSM, segunda-feira no Gigantinho.
A intervenção do médico italiano incendiou
o debate sobre “como construir a paz entre os povos,
em oposição às guerras do século
XXI”. Ele anunciou que se está organizando uma
comissão internacional de parlamentares e cientistas
para inspeccionar a produção de armas nos Estados
Unidos e que 15 de fevereiro será o Dia de luta contra
a guerra e pela paz no Oriente Médio, com manifestações
em mais de 40 grandes cidades do mundo.
A ONU diz combater a pobreza, mas nada faz para suspender
o embargo comercial americano e inglês ao Iraque, que
provoca a morte de milhares de pessoas pela fome, acusou Agnoletto,
dando origem a um bate-boca com Nitin Desai, Subsecretário
Geral da ONU para Asuntos Econômicos e Sociais. Desai
respondeu dizendo que 37 por cento do orçamento da
sua instituição se destina à assistência
humanitária, mas não atendeu às cobranças
indignadas de Agnoletto por uma definição clara
sobre o embargo. “Só posso falar do que faz a
ONU”, disse também aos gritos.
Desai foi portador de uma mensagem do Secretário Geral
Kofi Annan, desejando êxito ao FSM e conclamando seus
participantes a trabalhar em parcerias com governos, agências
da ONU e o setor privado, para “moldar”uma globalização
que “ofereça oportunidades não apenas
a uns poucos afortunados, mas a todas as pessoas, especialmente
aos pobres e aos desprotegidos”.
Annan reconheceu que o Conselho de Segurança da ONU
enfrenta “uma das maiores provas da sua história”,
com a inspeção de armas no Iraque, e que o mundo
sofre “uma grande ansiedade”, ante as ameaças
de guerras e de novos ataques terroristas. Mas considera que
vivemos um momento de oportunidades para construir um sistema
internacional “aberto e justo”, capaz de enfrentar
os graves problemas, como a disseminação da
Aids, o saque aos recursos do meio ambiente, a injusta distribuição
dos benefícios da globalização e as barreiras
comerciais e subsídios que impedem países em
desenvolvimento de competir na economia global.
Nada disso evitou os duros ataques à ONU. A argelina
Nadia Aissoui, feminista que dirige uma rede de organizações
não governamentais árabes, acusou o sistema
das Nações Unidas de não fazer cumprir
suas próprias resoluções pela retirada
israelense dos territórios palestinos e de tolerar
violações das convenções internacionais,
como as que reconhecem os direitos femininos. A ONU não
pode falar de paz, quando os cinco países com poder
de veto no seu Conselho de Segurança respondem por
80 por cento do comércio mundial de armas, salientou.
Ilan Halevy, ministro de Cooperação da Autoridade
Palestina, atacou os Estados Unidos de criar um “clima
de guerra” indispensável para justificar ataques.
Para isso fomenta a “islamofobia”, a “desumanização
do outro”, como um elemento essencial dessa estratégia.
Defendeu a mobilização popular para mudar a
correlação de forças no mundo, fortalecer
o sistema das Nações Unidas e neutralizar os
planos belicistas de Washington.
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