The daily journal of the
World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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Agenda Africana

por Zarina Geloo

O grupo africano que se encontra no Fórum Social Mundial (FSM) planeja uma série de reuniões e perfis de projeção para assegurar que sua voz não seja perdida em meio às outras duas mil vozes que estão sendo levantadas na reunião.

Nancy Kachingwe, do Zimbábue, coordenadora do grupo africano, afirmou que os africanos corriam o risco de serem ignorados novamente devido ao fato de não levarem sua agenda 'longe o suficiente', e que não 'faziam barulho o suficiente' para assegurar que suas questões não fossem apenas levantadas, mas também debatidas. Há mais de 200 delegados africanos no FSM.

'Todos os delegados africanos foram encorajados a se dividirem e a participarem do máximo possível de oficinas, conferências e seminários, para que haja uma voz africana em cada agenda. Os africanos sentiram que, desde os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, as questões africanas foram relegadas a segundo plano.

Hassan Sunmunu, sindicalista nigeriano, pediu aos seus colegas delegados para usarem o Fórum para lembrar ao mundo que o 11 de setembro foi apenas um ataque, e que a África vem sofrendo ataques diários com guerras, calamidades, doenças e pobreza.

Sunmumu afirma que a aids e outras doenças erradicáveis estão dizimando a população da África. Na esteira da globalização neoliberal, as economias africanas se viram forçadas a abrir-se ainda mais, o que intensificou a exploração comercial feita por corporações multinacionais.

A privatização forçada significou que as pessoas estão sendo privadas de suas necessidades humanas básicas, como água limpa, educação, higiene e moradia. Com os Programas de Ajuste Estrutural (PAE) promovidos pelo FMI e o regime da Organização Mundial do Comércio, os países africanos estavam sendo privados de todas as opções de políticas fiscais, monetárias e econômicas para intervir no mercado e regulá-lo, propiciando assim ao seu povo suas necessidades humanas básicas. "Ao invés de fazermos pose e falar bonito, vamos direto ao assunto e trazer a sanidade e a dignidade de volta à África".

Kachingwe acrescentou que, numa prévia do FSM, o grupo africano se encontrou em Bamako, no Mali, de 5 a 9 de janeiro, para analisar e compartilhar experiências sobre questões políticas e culturais e assim poder apresentar uma frente única na reunião do FSM.

Ali foi delineada a posição da África de que os valores, práticas, estruturas e instituições da ordem neoliberal atualmente dominante eram inimigas e incompatíveis com a busca da dignidade, dos valores e das aspirações africanos.

A reunião de Bamako recomendou enfaticamente que os governos africanos desenvolvam e apliquem sistemas regulamentares nacionais e regionais para controlar os movimentos de capital. Ali também surgiu a demanda para que os países desenvolvidos levem a sério a sua responsabilidade de controlar o mercado de capitais e de criar formas de aumentar a liquidez internacional para ajudar a financiar o desenvolvimento da África e de outros países em desenvolvimento.

Segundo estudos, até 300 milhões de africanos vivem com menos de um dólar por dia. Desde 1987, o número de pessoas pobres na África aumentou em 80 milhões, apesar de uma década de reformas econômicas e políticas de ajuste estrutural.

Durante os últimos 20 anos do PAE, a África exportou 148 bilhões de dólares, ou 37,5 milhões de dólares por dia, para o mundo desenvolvido, segundo a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD). Ao mesmo tempo, mais de 1,6 dólar era exportado para cada dólar trazido por instituições financeiras.

Sarah Longwe, feminista da Zâmbia, afirmou que, apesar de enfocarem a África e seus problemas, as pessoas também devem ter em mente que houve muito pouco progresso na obtenção e atenção às questões das mulheres africanas desde a Conferência de Pequim.

Longwe, que esteve presente na reunião de Bamako, ressaltou a necessidade de relacionar a contínua exclusão econômica e social das mulheres com a globalização neoliberal, que piorou a situação. O Fórum enfatizou a necessidade de se construir uma cultura africana feminina de resistência, imaginação e talentos.