The daily journal of the
World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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UM OUTRO FORUM E POSSIVEL

A disputa para sediar os próximos encontros do Fórum Social Mundial está recém começando. O comitê organizador já anunciou que em 2003 o evento principal será novamente em Porto Alegre e serão incrementados os fóruns regionais.

Mas começam a pipocar ofertas de diversos pontos do mundo. Tanto interesse tem motivos óbvios. Mesmo que o custo seja muito alto - o governo do Rio Grande do Sul anunciou investimentos de UM MILHAO DE DOLARES na organização -, a renda gerada pela invasão de estrangeiros e visitantes de outros Estados do Brasil no local escolhido promete ser compensadora.

Este ano, a expectativa é que os solidários viajantes em busca de um mundo melhor deixem no Estado 10 milhões de dòlares. A rede hoteleira de Porto Alegre está com todas as suas vagas ocupadas e os comerciantes agradecem a preferência. Os empresários calculam que cada visitante deve gastar, por dia, 100 dólares entre hospedagem, alimentação, transporte e compras no comércio.

Nem tudo é consenso, no entanto.

O vereador Sebastião Melo (PMDB) entrou com uma ação cautelar para que a Prefeitura apresente os documentos referentes aos gastos com a realização do II Fórum Social Mundial na Capital. Embora já tenha recebido resposta, reclama que os documentos que têm em mãos não estão completos e já anuncia que vai pedir mais. "Recebi quatro mil folhas de papel que minha assessoria está analisando, temos de somar tudo", avisa. A principal queixa de Melo é que os recursos utilizados para a organização do evento não estão previstos no orçamento e seu uso não foi votado pelos vereadores.

Os integrantes do Conselho Internacional do Fórum admitem que é preciso expandir o processo vivido no Brasil para outros países, sob pena de o Fórum Social Mundial ficar conhecido ironicamente como Porto Alegre Social Mundial.

Chico Whitaker, membro do conselho e representante da Comissão Brasileira de Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), lembra que experiências como a do Fórum Pan-Amazônico, e do encontro africano indicam que há possibilidade de realizar mobilizações regionais com tanto sucesso como em Porto Alegre.

O Conselho Internacional vai se reunir no final de abril para discutir quais eventos continentais, de caráter mundial, deverão ser realizados até o ano que vem. "Há propostas de Barcelona e Paris (que englobaria o Leste Europeu), todos caracterizados como eventos do 3° Fórum Social Mundial", explica Whitaker.

Os temas básicas deverão ser os mesmos. Desde já o grupo quer garantir que sejam respeitados os princípios básicos da Carta do Fórum, que incluem, entre outros, a decisão de não tirar um documento final abrangendo todas as propostas e a participação efetiva da sociedade.

A grande dificuldade de realizar o evento em outro lugar, em 2003, na visão de Whitaker, é encontrar uma acolhida tão favorável como em Porto Alegre. Ele explica: "Não são as cidades que acolhem, esta é uma iniciativa da sociedade civil, dos sindicatos. Toronto quer acolher? Se houver movimentos sociais capazes de se organizar entre eles, com apoio da Prefeitura, tudo bem".

Outra preocupação é manter um evento dessa grandeza ainda no Sul. "Paris teria condições, mas simbolicamente queríamos manter no Sul, onde está o mundo colonizado e oprimido", diz Whitaker. Em Barcelona, vai acontecer um encontro regional, com a intenção de que não se torne predominantemente europeu nem espanhol, mas do Mediterrâneo.

Representantes de movimentos sociais indianos já entraram na fila dos candidatos. Formalmente, pediram a vez para sediar o fórum em 2004 e fazer um encontro regional em 2003.

Vinod Raina, do People Science Movement of India, um dos movimentos engajados nessa proposta, explica que os indianos estão muito interessados em que o Fórum ocorra no seu país. "Acho melhor ir para outros lugares, mas se as pessoas não estiverem prontas, não é fácil e não se pode forçar, porque nem todo lugar pode sediar 60 mil pessoas imediatamente", observa.

Uma das sugestões que deverá ser levada para a discussão com o Comitê Internacional é que um evento dessa grandeza não seja realizado a cada ano, mas talvez a cada dois anos, para permitir que mais gente esteja presente, porque o deslocamento dos participantes de um país para outro tem custos altos. Enquanto isso, no período intermediário, poderiam ser feitos os fóruns regionais.

Uma idéia cada vez mais forte anunciada no fórum deste ano é que um dos próximos encontros regionais aconteça em Jerusalém, no Oriente Médio, para reforçar o caráter pacifista do Fórum Social Mundial. "Os problemas humanitários são de todos nós, e o Oriente Médio é um grande risco para a paz mundial", falou Oded Grajew, do Instituto Ethos, e membro do comitê de organização.

As negociações para tornar possível o Fórum na Cidade Santa serão incrementadas quando se encerrar o II Fórum Social Mundial de Porto Alegre.