|
UM OUTRO FORUM E POSSIVEL
A disputa para sediar os próximos encontros do Fórum
Social Mundial está recém começando. O comitê
organizador já anunciou que em 2003 o evento principal será
novamente em Porto Alegre e serão incrementados os fóruns
regionais.
Mas começam a pipocar ofertas de diversos pontos do mundo.
Tanto interesse tem motivos óbvios. Mesmo que o custo seja
muito alto - o governo do Rio Grande do Sul anunciou investimentos
de UM MILHAO DE DOLARES na organização -, a renda
gerada pela invasão de estrangeiros e visitantes de outros
Estados do Brasil no local escolhido promete ser compensadora.
Este ano, a expectativa é que os solidários viajantes
em busca de um mundo melhor deixem no Estado 10 milhões de
dòlares. A rede hoteleira de Porto Alegre está com
todas as suas vagas ocupadas e os comerciantes agradecem a preferência.
Os empresários calculam que cada visitante deve gastar, por
dia, 100 dólares entre hospedagem, alimentação,
transporte e compras no comércio.
Nem tudo é consenso, no entanto.
O vereador Sebastião Melo (PMDB) entrou com uma ação
cautelar para que a Prefeitura apresente os documentos referentes
aos gastos com a realização do II Fórum Social
Mundial na Capital. Embora já tenha recebido resposta, reclama
que os documentos que têm em mãos não estão
completos e já anuncia que vai pedir mais. "Recebi quatro
mil folhas de papel que minha assessoria está analisando,
temos de somar tudo", avisa. A principal queixa de Melo é
que os recursos utilizados para a organização do evento
não estão previstos no orçamento e seu uso
não foi votado pelos vereadores.
Os integrantes do Conselho Internacional do Fórum admitem
que é preciso expandir o processo vivido no Brasil para outros
países, sob pena de o Fórum Social Mundial ficar conhecido
ironicamente como Porto Alegre Social Mundial.
Chico Whitaker, membro do conselho e representante da Comissão
Brasileira de Justiça e Paz da Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), lembra que experiências como
a do Fórum Pan-Amazônico, e do encontro africano indicam
que há possibilidade de realizar mobilizações
regionais com tanto sucesso como em Porto Alegre.
O Conselho Internacional vai se reunir no final de abril para discutir
quais eventos continentais, de caráter mundial, deverão
ser realizados até o ano que vem. "Há propostas
de Barcelona e Paris (que englobaria o Leste Europeu), todos caracterizados
como eventos do 3° Fórum Social Mundial", explica
Whitaker.
Os temas básicas deverão ser os mesmos. Desde já
o grupo quer garantir que sejam respeitados os princípios
básicos da Carta do Fórum, que incluem, entre outros,
a decisão de não tirar um documento final abrangendo
todas as propostas e a participação efetiva da sociedade.
A grande dificuldade de realizar o evento em outro lugar, em 2003,
na visão de Whitaker, é encontrar uma acolhida tão
favorável como em Porto Alegre. Ele explica: "Não
são as cidades que acolhem, esta é uma iniciativa
da sociedade civil, dos sindicatos. Toronto quer acolher? Se houver
movimentos sociais capazes de se organizar entre eles, com apoio
da Prefeitura, tudo bem".
Outra preocupação é manter um evento dessa
grandeza ainda no Sul. "Paris teria condições,
mas simbolicamente queríamos manter no Sul, onde está
o mundo colonizado e oprimido", diz Whitaker. Em Barcelona,
vai acontecer um encontro regional, com a intenção
de que não se torne predominantemente europeu nem espanhol,
mas do Mediterrâneo.
Representantes de movimentos sociais indianos já entraram
na fila dos candidatos. Formalmente, pediram a vez para sediar o
fórum em 2004 e fazer um encontro regional em 2003.
Vinod Raina, do People Science Movement of India, um dos movimentos
engajados nessa proposta, explica que os indianos estão muito
interessados em que o Fórum ocorra no seu país. "Acho
melhor ir para outros lugares, mas se as pessoas não estiverem
prontas, não é fácil e não se pode forçar,
porque nem todo lugar pode sediar 60 mil pessoas imediatamente",
observa.
Uma das sugestões que deverá ser levada para a discussão
com o Comitê Internacional é que um evento dessa grandeza
não seja realizado a cada ano, mas talvez a cada dois anos,
para permitir que mais gente esteja presente, porque o deslocamento
dos participantes de um país para outro tem custos altos.
Enquanto isso, no período intermediário, poderiam
ser feitos os fóruns regionais.
Uma idéia cada vez mais forte anunciada no fórum
deste ano é que um dos próximos encontros regionais
aconteça em Jerusalém, no Oriente Médio, para
reforçar o caráter pacifista do Fórum Social
Mundial. "Os problemas humanitários são de todos
nós, e o Oriente Médio é um grande risco para
a paz mundial", falou Oded Grajew, do Instituto Ethos, e membro
do comitê de organização.
As negociações para tornar possível o Fórum
na Cidade Santa serão incrementadas quando se encerrar o
II Fórum Social Mundial de Porto Alegre.
|