The daily journal of the
World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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MÁRIO SOARES

O G-8 É UM DIRETÓRIO DOS RICOS

O ex-presidente de Portugal, Mário Soares, afirma que o Grupo dos Oito (G-8) é um diretório dos ricos e que a autoridade das Nações Unidas deve ser restituída para enfrentar os grandes desafios internacionais. O tema foi tratado na seguinte entrevista que Soares concedeu ao Terra Viva, que se iniciou com uma definição do II Fórum Social Mundial (FSM).

- Fórum de antiglobalização ou por uma nova globalização?

Trata-se de se encontrar os caminhos para uma globalização alternativa. A globalização reduziu o mundo a um único mundo. Tudo está relacionado, não apenas a economia, mas também os conhecimentos, as tecnologias, os movimentos de capitais entre continentes. A globalização é um fato, e vai crescer com o passar dos anos. Ela tem seus aspectos negativos, particularmente econômicos, com efeitos graves. É necessário uma globalização humana, mais justa e sobretudo mais solidária. Isto é a globalização alternativa.

- Isto requer a construção da cooperação internacional.

Sim, é preciso reconstruir o movimento das Nações Unidas, e por outro lado as organizações de controle monetário internacional, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e até mesmo a Organização Mundial de Comércio. Que a economia sirva às pessoas e não o contrário.

-A crise na Argentina representa também uma crise do FMI?

Sem dúvida. A crise argentina, como disse Aníbal Ibarra, prefeito de Buenos Aires, mostra um país que está entrando em uma situação de caos e destruição do Estado, e é indispensável que as organizações internacionais possam ajudar para que a expansão da crise para a América Latina seja impedida. O Uruguai já está comprometido, bem como o Brasil, que por enquanto está se defendendo, ainda que relativamente, da crise argentina."

-Impedir estas crises implica em mudar o sistema de circulação de capitais?

É indispensável uma regulação internacional dos fluxos de capitais, para que possamos ter a certeza de que as especulações não vão arrasar Estados soberanos. O Brasil, por exemplo, sofreu os efeitos da crise asiática. É preciso regulamentar isto. Felizmente foi proposta a Taxa Tobin e eu sou absolutamente favorável a ela. Por outro lado, é também indispensável controlar o comércio, porque o comércio dá entrada ao tráfico de drogas, ao tráfico de armas, de órgãos humanos. Este controle somente é possível por intermédio de uma regulamentação internacional, e isso passa por uma restituição da ONU e não por uma organização sem representatividade nem disciplina como é o Grupo dos Oito. O G-8 é um diretório dos ricos para governar o mundo, porém o mundo é composto de ricos e pobres, e acontece que os países pobres são mais de três quintos do mundo.

- As soluções para os problemas criados pelas crises econômicas devem partir dos poderes locais ou dos governos e das instituições internacionais?

A competência principal é dos poderes locais. Deve-se saber como distribuir os fundos e os poderes estatais devem fazê-lo através dos poderes locais.

- Quando se fala de distribuição e administração de fundos, sempre surge o assunto da corrupção.

A corrupção está ligada a problemas de miséria, mas tamben ha corrupção nos países mais desenvolvidos e mais ricos. O que está acontecendo com a empresa Enron nos Estados Unidos é um caso de corrupção muito singular em nossos tempos. É necessário que a ética se sobreponha à política e não o contrário.

- Que perspectivas o senhor vê para o desenvolvimento futuro do FSM?

Quero ressaltar a importância de se poder discutir problemas como os que estão sendo tratados aqui em Porto Alegre, para encontrar alternativas em todos os âmbitos, os âmbitos sociais, de desenvolvimento, a ecologia, a moradia, comerciais, etc. Estou convencido de que cada vez haverá maior interesse por reuniões deste tipo. Dizem algumas das grandes personalidades, e não as bases, que estão no Fórum, que existe a intenção de mudar o local do Fórum Social Mundial para a Índia. Eu sustento que deve ficar no Brasil.

- É possível, no futuro, um diálogo entre o FSM e Davos?

Penso que sim, que há interesse dos setores sociais. Se Davos não se refugiasse tanto em sua ortodoxia financeira e se abrisse às forças da sociedade, às idéias das grandes lutas internacionais, mudaríamos esta grave situação, porque deve haver mais condomínio social e menos violência, e menos desintegração social. De maneira que deve-se atacar as causas destes fenômenos e buscar juntos um mundo mais justo e igualitário.