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MÁRIO SOARES
O G-8 É UM DIRETÓRIO DOS RICOS
O ex-presidente de Portugal, Mário Soares, afirma que o
Grupo dos Oito (G-8) é um diretório dos ricos e que
a autoridade das Nações Unidas deve ser restituída
para enfrentar os grandes desafios internacionais. O tema foi tratado
na seguinte entrevista que Soares concedeu ao Terra Viva, que se
iniciou com uma definição do II Fórum Social
Mundial (FSM).
- Fórum de antiglobalização ou por uma nova
globalização?
Trata-se de se encontrar os caminhos para uma globalização
alternativa. A globalização reduziu o mundo a um único
mundo. Tudo está relacionado, não apenas a economia,
mas também os conhecimentos, as tecnologias, os movimentos
de capitais entre continentes. A globalização é
um fato, e vai crescer com o passar dos anos. Ela tem seus aspectos
negativos, particularmente econômicos, com efeitos graves.
É necessário uma globalização humana,
mais justa e sobretudo mais solidária. Isto é a globalização
alternativa.
- Isto requer a construção da cooperação
internacional.
Sim, é preciso reconstruir o movimento das Nações
Unidas, e por outro lado as organizações de controle
monetário internacional, o Banco Mundial, o Fundo Monetário
Internacional (FMI) e até mesmo a Organização
Mundial de Comércio. Que a economia sirva às pessoas
e não o contrário.
-A crise na Argentina representa também uma crise do FMI?
Sem dúvida. A crise argentina, como disse Aníbal
Ibarra, prefeito de Buenos Aires, mostra um país que está
entrando em uma situação de caos e destruição
do Estado, e é indispensável que as organizações
internacionais possam ajudar para que a expansão da crise
para a América Latina seja impedida. O Uruguai já
está comprometido, bem como o Brasil, que por enquanto está
se defendendo, ainda que relativamente, da crise argentina."
-Impedir estas crises implica em mudar o sistema de circulação
de capitais?
É indispensável uma regulação internacional
dos fluxos de capitais, para que possamos ter a certeza de que as
especulações não vão arrasar Estados
soberanos. O Brasil, por exemplo, sofreu os efeitos da crise asiática.
É preciso regulamentar isto. Felizmente foi proposta a Taxa
Tobin e eu sou absolutamente favorável a ela. Por outro lado,
é também indispensável controlar o comércio,
porque o comércio dá entrada ao tráfico de
drogas, ao tráfico de armas, de órgãos humanos.
Este controle somente é possível por intermédio
de uma regulamentação internacional, e isso passa
por uma restituição da ONU e não por uma organização
sem representatividade nem disciplina como é o Grupo dos
Oito. O G-8 é um diretório dos ricos para governar
o mundo, porém o mundo é composto de ricos e pobres,
e acontece que os países pobres são mais de três
quintos do mundo.
- As soluções para os problemas criados pelas crises
econômicas devem partir dos poderes locais ou dos governos
e das instituições internacionais?
A competência principal é dos poderes locais. Deve-se
saber como distribuir os fundos e os poderes estatais devem fazê-lo
através dos poderes locais.
- Quando se fala de distribuição e administração
de fundos, sempre surge o assunto da corrupção.
A corrupção está ligada a problemas de miséria,
mas tamben ha corrupção nos países mais desenvolvidos
e mais ricos. O que está acontecendo com a empresa Enron
nos Estados Unidos é um caso de corrupção muito
singular em nossos tempos. É necessário que a ética
se sobreponha à política e não o contrário.
- Que perspectivas o senhor vê para o desenvolvimento futuro
do FSM?
Quero ressaltar a importância de se poder discutir problemas
como os que estão sendo tratados aqui em Porto Alegre, para
encontrar alternativas em todos os âmbitos, os âmbitos
sociais, de desenvolvimento, a ecologia, a moradia, comerciais,
etc. Estou convencido de que cada vez haverá maior interesse
por reuniões deste tipo. Dizem algumas das grandes personalidades,
e não as bases, que estão no Fórum, que existe
a intenção de mudar o local do Fórum Social
Mundial para a Índia. Eu sustento que deve ficar no Brasil.
- É possível, no futuro, um diálogo entre
o FSM e Davos?
Penso que sim, que há interesse dos setores sociais. Se
Davos não se refugiasse tanto em sua ortodoxia financeira
e se abrisse às forças da sociedade, às idéias
das grandes lutas internacionais, mudaríamos esta grave situação,
porque deve haver mais condomínio social e menos violência,
e menos desintegração social. De maneira que deve-se
atacar as causas destes fenômenos e buscar juntos um mundo
mais justo e igualitário.
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