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"O Hemisfério Norte Roubando o Sul"
Satya Sivaraman
O injusto sistema financeiro e de operações comerciais
internacional está sendo mantido vivo por instituições
multilaterais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional,
que 'receberam uma boca enorme mas nenhum ouvido' nos esforços
da comunidade internacional de estabelecer uma agenda para o desenvolvimento
global, afirmaram ativistas no seminário sobre 'Financiamento
para o desenvolvimento', ocorrido ontem no Fórum Social Mundial.
Referindo-se à reunião de cúpula das Nações
Unidas sobre 'Financiamento do Desenvolvimento', que ocorrerá
no próximo mês em Monterrey, no México, Fernando
Cardim da Social Watch, uma ONG de pesquisa de políticas,
criticou duramente a agenda da reunião de cúpula,
dizendo que está muito desapontado com o fato de ela não
abordar questões como controles sobre os capitais e as políticas
econômicas neoliberais.
"O FMI e o Banco Mundial forçam essas políticas
sobre os países em desenvolvimento e isto afetou sua capacidade
de encontrar financiamento para o desenvolvimento", afirmou
Cardim.
Ele acusou o governo dos Estados Unidos em particular por pressionar
os organizadores da reunião de cúpula para que mudassem
sua agenda original, que inicialmente mencionava a necessidade de
controles sobre o capital. Um dos grandes problemas com a reunião
de cúpula de Monterrey, afirmou, é a participação
de duas poderosas instituições financeiras, que "uma
voz poderosa mas nenhum ouvido".
Henk-Jan Brokman, conselheiro especial do Secretário Geral
das Nações Unidas, disse no seminário que,
embora houvessem algumas desvantagens com a base conceitual da reunião
de cúpula sobre Financiamento do Desenvolvimento no México,
as ONGs não deveriam rejeitar o evento como sendo mais um
exercício de 'globalização neoliberal'. Ao
invés disso, sugeriu , elas deveriam preparar uma agenda
e um texto alternativos para o debate entre participantes da reunião
de cúpula.
Maria Floro, da Iniciativa Feminista Cartagena, afirmou que qualquer
discussão sobre financiamento do desenvolvimento deveria
incluir sistematicamente questões de gênero, porque,
muitas vezes, sob o pretexto de 'eficiência de mercado', as
questões femininas e dos muito pobres são negligenciadas.
A experiência de muitas das medidas de liberalização
do comércio forçadas por instituições
multilaterais, afirmou, mostram que são as mulheres mal-pagas
dos países desenvolvidos as que mais perdem no processo.
Floro pediu que o gênero fosse transformado em categoria de
análise econômica e a criação de um novo
sistema de controle global que promova sistematicamente o papel
crucial das questões de gênero nas matérias
sociais e econômicas.
Segundo Martin Khor, diretor da ONG malaia de pesquisa em políticas
Third World Network, o injusto sistema financeiro e de operações
comerciais internacionais está sendo mantido pelo poder bruto,
e os movimentos de massa são a única forma de mudar
as realidades do momento. Ele disse no seminário do sábado
que o injusto sistema econômico global está sistematicamente
sugando recursos que valem bilhões de dólares dos
países do hemisfério Sul e repassando-os aos do Norte.
"Pedir alguns bilhões de dólares a mais de ajuda
financeira aos países desenvolvidos é apenas paliativo
e não pode resolver o problema de encontrar fundos para arcar
com as necessidades de desenvolvimento dos países em desenvolvimento",
afirmou.
Dentre as diferentes formas com as quais os países do Sul
estão sendo 'ludibriados' estão as operações
do capital global predatório e especulativo, a remessa de
lucros por parte de multinacionais e as medidas comerciais protecionistas
adotadas pelos países desenvolvidos.
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