| 'A alternativa não
é a sociedade civil, mas a desobediência civil' - Naomi
Klein
Satya Sivaraman
Após a euforia de congregar milhares de pessoas de todos
os cantos do mundo no segundo Fórum Social Mundial em Porto
Alegre, a hora chegou para que os ativistas reflitam seriamente
sobre a forma e a direção futura do movimento como
um todo.
Em um debate no domingo, enquanto líderes e ideólogos
do movimento antiglobalização abordavam esses assuntos,
as perguntas do público vieram rápidas e em grande
número.
'Então, como será a vitória?', perguntou um.
'Por quê o movimento está sendo projetado como sendo
liderado por grupos do hemisfério Norte?', perguntou outro,
enquanto várias pessoas reclamavam sobre a forma com que
os sindicados e os partidos políticos tratavam os organizadores
do Fórum Social Mundial, como sendo de um escalão
inferior aos das ONGs e dos grupos da sociedade civil.
'A alternativa não é a sociedade civil, porém
a desobediência civil', afirmou Naomi Klein, ativista e autora
do aclamado 'No Logo', que, em um discurso contundente e articulado,
alertou para as tentativas de transformar o FSM em 'mais uma reunião
grande' que não trará nenhum impacto ao mundo real.
Desmentindo o argumento dos defensores do 'status quo' de que o
movimento antiglobalização não possuía
nenhuma meta específica, ela afirmou que "há
tantas alternativas evidentes no FSM que elas estão transbordando
para as ruas."
Klein afirmou que a abordagem do 'se você não está
a nosso favor, está contra nós' das elites globais
deveria ser rejeitada porque não existe uma verdade única
e há muitas abordagens possíveis para cada um dos
problemas que o mundo enfrenta hoje. "A natureza da própria
natureza é querer se espalhar", afirmou, fazendo um
chamado ao movimento antiglobalização para que "cruzasse
todas as fronteiras e escalasse todas as cercas".
Respondendo perguntas do público sobre o que o movimento
do FSM esperava 'ganhar', Emilio Tadei, do Conselho Latino-americano
de Ciências Sociais, afirmou que não se deveria falar
em termos de 'grande vitória', mas de uma série de
vitórias menores, do âmbito individual ao internacional.
Estas vitórias, disse , seriam referentes a vencer diversos
direitos e avanços sociais para as pessoas ao mesmo tempo
em que estabelecer uma revolução em nossas vidas diárias".
Perguntas sobre o papel e a relevância dos sindicatos no
movimento antiglobalização surgiram diversas vezes,
e um delegado do Congresso Coreano de Sindicatos (KCTU) afirmou
que havia uma tensão entre os sindicatos e os grupos da sociedade
civil global e que ela estava evidente no FSM. "Os sindicatos
estiveram na dianteira das lutas contra a globalização
neoliberal diariamente em muitas economias do hemisfério
sul", afirmou, pedindo ao FSM que adotasse uma postura mais
clara sobre a questão.
Eduardo Fernandez, da Federação Cone Sul de Sindicatos,
afirmou que especialmente na América Latina houve fortes
alianças entre os sindicatos e grupos da sociedade civil,
que foram forjadas durante longos anos de ditaduras na região.
"Se o processo do FSM quiser ir adiante, deve haver respeito
pela diversidade dentro do movimento".
Em suas observações sobre como tornar o FSM um movimento
mais coerente sem torná-lo mais uma instituição,
Suwit Watnoo, do Fórum dos Pobres da Tailândia, afirmou
que os diversos grupos que se reuniram precisam estabelecer ligações
regulares de informação. Ele pediu a organização
regular de mais conferências do FSM nos próximos anos
e uma mobilização global por intermédio do
FSM em questões específicas, como a demanda pela libertação
imediata de líderes sindicais na Coréia do Sul.
A questão de incidentes recorrentes de violência em
diversos protestos antiglobalização como em Seattle
e em Gênova também provocaram discussões animadas.
Diversos delegados no público perguntaram por quê as
grandes ONGs, que integravam o movimento, objetavam tão fortemente
ao uso de métodos violentos pelos anarquistas e outros grupos
menores, quando tudo o que estavam fazendo era "responder à
violência perpetrada pelos estados que estão forçando
políticas neoliberais sobre uma população indefesa".
Em resposta, Vittorio Agnelotto, do Fórum Social de Gênova,
na Itália, afirmou que o tipo de violência exercida
pelos anarquistas do 'Bloco Negro' na reunião do G-8 em Gênova
no ano passado era contraproducente e danosa ao movimento como um
todo. Esses atos de violência, ele alegou, deram uma oportunidade
à polícia e mesmo a grupos neofascistas de se infiltrarem
nos protestos antiglobalização com suas próprias
agendas duvidosas.
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