| Walden Bello,
'O Fórum Econômico Mundial está em baixa'
Satya Sivaraman
Walden Bello, ambientalista filipino e diretor executivo da Enfoque
no Sul Global, sediada em Bangkok, falou à TerraViva sobre
o Fórum Social Mundial, seus contornos e seu panorama emergentes:
Você acha que, tendo agora ocorrido com sucesso em Porto
Alegre, pelo segundo ano consecutivo, o FSM já se estabeleceu
como um ponto de enfoque para o movimento mundial antiglobalização?
Penso que não há uma tentativa de se criar um organismo
que guie o movimento antiglobalização, e que esta
nem de longe é a intenção dos organizadores.
Há apenas um mínimo de coordenação.
O que temos é um organismo internacional que é muito
aberto, as pessoas podem vir e se inserir sem muita dificuldade.
É um processo, e muito aberto. Algumas pessoas podem dizer
que isso é uma fraqueza, e algumas que é um ponto
forte. Para mim, trata-se mais de um ponto forte. É um processo
muito importante que envolve as pessoas.
Quais foram os impactos da Chamada à Mobilização
emitida no primeiro FSM por um grupo de movimentos sociais? Você
acha que uma declaração em comum no FSM seria possível
novamente este ano?
Acho que tem havido muita ênfase no valor dessas declarações.
Penso que a Chamada à Mobilização feita ano
passado em Porto Alegre não será lembrada hoje pelas
pessoas, porque ela refletiu uma diversidade própria de sua
constituição. Não tenho nada contra declarações,
porém penso que Porto Alegre é mais algo como um processo.
Sim, os movimentos se uniram no ano passado para emitirem uma declaração,
porém quem se lembra dela hoje? É o espírito
e o processo que importam.
Qual é o panorama para o processo do FSM?
Haverá uma reunião menor aqui em Porto Alegre no
próximo ano, e em 2004 será na Índia. Há
um impulso em direção a esse ponto, portanto penso
que as pessoas estão pensando na transferência do Brasil
para outro lugar de forma principalmente positiva, e como uma oportunidade
de vermos se conseguimos reproduzir isso em outras áreas
do mundo. Há algumas condições aqui em Porto
Alegre que a tornam únicas para o FSM. Há o governo
do Partido dos Trabalhadores tanto no âmbito estadual quanto
no municipal, o que propicia acesso a muito apoio popular e político,
e a uma quantidade significativa de recursos tanto financeiros quanto
físicos para o Fórum. Será que isso está
presente em outros pontos do mundo, como na Índia? Congregar
70.000 pessoas do mundo inteiro é uma tarefa grandiosa, e
caso o Conselho Internacional decida que o evento ocorra em algum
lugar, a decisão será bem estudada e tomada com grande
ponderação.
Dado o papel desempenhado pelo Partido dos Trabalhadores Brasileiro
na organização bem-sucedida do FSM, porque há
uma certa fobia no movimento em permitir que os partidos políticos
participem formalmente do evento?
Bem, acho que o que preocupa as pessoas é que o centro de
gravidade deveria ser a sociedade civil, os movimentos das pessoas,
os movimentos de massa, as ONGs, e não os partidos políticos.
Se o centro de gravidade realmente girar em torno das organizações
da sociedade civil, então não haverá problema
em termos alguns tipos de partidos políticos se inserindo
e se tornando parte do processo. Penso que partidos como o Partido
dos Trabalhadores, que sejam inovadores, tenham uma base na massa
popular e sejam não-doutrinários em sua abordagem,
certamente terão grandes chances de serem acolhidos no processo
de Porto Alegre. Eu imagino que outros partidos políticos
poderiam ser trazidos. Pessoalmente, não tenho problema com
partidos políticos tomando parte no processo, desde que os
movimentos sociais permaneçam no centro do processo. O FSM
é mais uma questão de processo do que do estabelecimento
de duas mil regras sobre quem pode se tornar um membro ou não.
O FSM foi estabelecido em contraponto ao Fórum Econômico
Mundial em Davos. Qual é o resultado até agora?
Penso que Davos e o Fórum Econômico Mundial estão
em baixa. O fato de eles precisaram adotar alguns de nossos lemas
de desenvolvimento sustentável, o fato de que estão
realmente tentando dar ao capitalismo uma dimensão de compaixão
mostra que o movimento está em crise. E, em termos da rivalidade
entre o FEM e o FSM, o processo de Porto Alegre está em ascensão.
Com o surgimento do escândalo da Enron e com o colapso da
Argentina, há um certo contexto global onde o processo de
Porto Alegre está avançando. A crise de legitimidade
está se voltando com todas as forças contra o 'Establishment'.
Eles podem ter ganho algum terreno após os eventos de 11
de setembro, porém os escândalos que estão ocorrendo
criam condições onde podemos retomar o impulso de
nosso movimento.
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