The daily journal of the
World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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Walden Bello,

'O Fórum Econômico Mundial está em baixa'

Satya Sivaraman

Walden Bello, ambientalista filipino e diretor executivo da Enfoque no Sul Global, sediada em Bangkok, falou à TerraViva sobre o Fórum Social Mundial, seus contornos e seu panorama emergentes:

Você acha que, tendo agora ocorrido com sucesso em Porto Alegre, pelo segundo ano consecutivo, o FSM já se estabeleceu como um ponto de enfoque para o movimento mundial antiglobalização?

Penso que não há uma tentativa de se criar um organismo que guie o movimento antiglobalização, e que esta nem de longe é a intenção dos organizadores. Há apenas um mínimo de coordenação. O que temos é um organismo internacional que é muito aberto, as pessoas podem vir e se inserir sem muita dificuldade. É um processo, e muito aberto. Algumas pessoas podem dizer que isso é uma fraqueza, e algumas que é um ponto forte. Para mim, trata-se mais de um ponto forte. É um processo muito importante que envolve as pessoas.

Quais foram os impactos da Chamada à Mobilização emitida no primeiro FSM por um grupo de movimentos sociais? Você acha que uma declaração em comum no FSM seria possível novamente este ano?

Acho que tem havido muita ênfase no valor dessas declarações. Penso que a Chamada à Mobilização feita ano passado em Porto Alegre não será lembrada hoje pelas pessoas, porque ela refletiu uma diversidade própria de sua constituição. Não tenho nada contra declarações, porém penso que Porto Alegre é mais algo como um processo. Sim, os movimentos se uniram no ano passado para emitirem uma declaração, porém quem se lembra dela hoje? É o espírito e o processo que importam.

Qual é o panorama para o processo do FSM?

Haverá uma reunião menor aqui em Porto Alegre no próximo ano, e em 2004 será na Índia. Há um impulso em direção a esse ponto, portanto penso que as pessoas estão pensando na transferência do Brasil para outro lugar de forma principalmente positiva, e como uma oportunidade de vermos se conseguimos reproduzir isso em outras áreas do mundo. Há algumas condições aqui em Porto Alegre que a tornam únicas para o FSM. Há o governo do Partido dos Trabalhadores tanto no âmbito estadual quanto no municipal, o que propicia acesso a muito apoio popular e político, e a uma quantidade significativa de recursos tanto financeiros quanto físicos para o Fórum. Será que isso está presente em outros pontos do mundo, como na Índia? Congregar 70.000 pessoas do mundo inteiro é uma tarefa grandiosa, e caso o Conselho Internacional decida que o evento ocorra em algum lugar, a decisão será bem estudada e tomada com grande ponderação.

Dado o papel desempenhado pelo Partido dos Trabalhadores Brasileiro na organização bem-sucedida do FSM, porque há uma certa fobia no movimento em permitir que os partidos políticos participem formalmente do evento?

Bem, acho que o que preocupa as pessoas é que o centro de gravidade deveria ser a sociedade civil, os movimentos das pessoas, os movimentos de massa, as ONGs, e não os partidos políticos. Se o centro de gravidade realmente girar em torno das organizações da sociedade civil, então não haverá problema em termos alguns tipos de partidos políticos se inserindo e se tornando parte do processo. Penso que partidos como o Partido dos Trabalhadores, que sejam inovadores, tenham uma base na massa popular e sejam não-doutrinários em sua abordagem, certamente terão grandes chances de serem acolhidos no processo de Porto Alegre. Eu imagino que outros partidos políticos poderiam ser trazidos. Pessoalmente, não tenho problema com partidos políticos tomando parte no processo, desde que os movimentos sociais permaneçam no centro do processo. O FSM é mais uma questão de processo do que do estabelecimento de duas mil regras sobre quem pode se tornar um membro ou não.

O FSM foi estabelecido em contraponto ao Fórum Econômico Mundial em Davos. Qual é o resultado até agora?

Penso que Davos e o Fórum Econômico Mundial estão em baixa. O fato de eles precisaram adotar alguns de nossos lemas de desenvolvimento sustentável, o fato de que estão realmente tentando dar ao capitalismo uma dimensão de compaixão mostra que o movimento está em crise. E, em termos da rivalidade entre o FEM e o FSM, o processo de Porto Alegre está em ascensão. Com o surgimento do escândalo da Enron e com o colapso da Argentina, há um certo contexto global onde o processo de Porto Alegre está avançando. A crise de legitimidade está se voltando com todas as forças contra o 'Establishment'. Eles podem ter ganho algum terreno após os eventos de 11 de setembro, porém os escândalos que estão ocorrendo criam condições onde podemos retomar o impulso de nosso movimento.