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Frei Betto
'Não sabemos onde dependurár os sonhos'
Clarinha Glock
A escola deve ser um laboratório de inclusão social,
diz o escritor brasileiro Frei Betto. "Um laboratório
onde o que está sendo gestado neste Fórum fosse um
trabalho permanente da educação, de exercitar nos
alunos que é possível um mundo diferente", acrescenta.
Aos 57 anos, o teólogo que é também assessor
da Central de Movimentos Populares, do Movimento dos Trabalhadores
Rurais Sem Terra e da Pastoral Operária ABC Paulista, está
engajado atualmente numa campanha como consultor da organização
não-governamental Faça Parte.
Sob o lema "Escola Voluntária - Educação
Cidadã, Ação Solidária", a campanha
propõe que as escolas abram suas portas para ir ao encontro
da população carente e sejam espaços de formação
política.
Adepto das idéias do amigo e educador Paulo Freire, Frei
Betto apresentou aos participantes do II Fórum Social Mundial
propostas práticas de como colocar em prática a teoria
defendida por educadores em todo o mundo.
Se a escola não funciona à noite, por que não
usá-la, nesse período, para aulas de alfabetização?
Se fica fechada aos sábados e domingos, Frei Betto sugere
que seja utilizada nestes dias para oficinas profissionalizantes,
ou cursos com noções de primeiros socorros e como
cuidar da saúde.
Em escolas com espaço físico grande, é possível
implantar uma horta comum ou uma farmácia comunitária,
aproveitando os remédios dentro do prazo de validade que
pais e professores mantêm em casa sem uso.
Essa noção de escola cidadã implica, no entanto,
uma mudança do modelo econômico atual. Frei Betto ressalta
que sua execução depende de reformas: agrária
e tributária, para priorizar os recursos internos, evitando
a saída de altas divisas dos países pobres para o
pagamento da dívida externa.
A inclusão social a que Frei Betto se refere pressupõe,
em primeiro lugar, que as crianças tenham acesso à
educação. "Para isso, não se pode depender
apenas do poder público na forma da bolsa-escola (uma pequena
ajuda econômica dada pelo governo brasileiro para as famílias
que encaminham suas crianças à escola)", avisa.
Uma saída seria que pais, alunos e professores se quotizassem
para assegurar a vaga de quem não pode pagar. Além
disso, as escolas devem se transformar para acolher as pessoas portadoras
de deficiências - não por pena, mas por reconhecimento
de seus direitos com cidadãos.
E, por fim, ele propõe que as escolas tenham vínculos
com os movimentos sociais, abandonando a ilha de privilégios
e o isolamento em que vivem.
Frei Betto salienta um outro problema que permeia a educação.
É o que ele chama de "des-historialização",
um neologismo para indicar que o liberalismo faz o indivíduo
perder a consciência do tempo como História.
Ele explica: quem tem mais de 45 anos viveu a era literária,
enquanto os mais jovens são filhos da era da imagem. "Toda
literatura é intrinsicamente histórica - um livro
tem começo, meio e fim e gera mega-relatos", enfatiza.
Mas quando predomina a imagem, a televisão, assim como o
cinema, fundem os tempos, embaralhando presente, passado e futuro.
Isso se reflete também do ponto de vista pedagógico.
"Uma pessoa só pode ter projetos profissionais, afetivos,
políticos, pessoais, se tiver a idéia do tempo como
História, com as felicidades e as dificuldades que o percurso
traz". Na falta de projetos, qualquer dificuldade, que deveria
ser encarada apenas com parte do processo, significa o fracasso.
Neste contexto, a escola tende a ser um mero espaço de aprimoramento
ou de qualificação da mão-de-obra.
É justamente a era da imagem que, a seu ver, explica por
que a maior parte dos alunos, hoje, não conseguem seguir
a linha de raciocínio de um professor por 40 minutos. Eles
precisam de impacto, cor, som, o que inexiste na sala de aula.
Frei Betto observa que a televisão é cada vez menos
cultural e mais entretenimento - a cultura acrescenta algo ao espírito
e à alma, enquanto o entretenimento hipnotiza os sentidos,
mas não traz acréscimos. "O mais grave é
que a escola continua (e deve) trabalhar com textos, mas ainda não
levou para sala de aula a imagem", avalia.
Sua proposta é levar a discussão da imagem para as
escolas, promovendo análises dos discursos de anúncios
publicitários, por exemplo, para educar o olhar crítico
dos alunos sobre essa produção. Seria uma forma de
fazê-los se dar conta como o neoliberalismo consegue proezas
de incentivar o consumo, criando a necessidade do supérfluo.
O teólogo critica a falta de uma visão mais holística
da educação, onde a escola seja um lugar em que seja
possível falar abertamente e sem tabus sobre situações-limite
da existência por que todos passam - dor, morte, doença,
fracasso, racismo, relações de gênero -, e ainda
aprender aspectos práticos da vida cotidiana, como trocar
uma lâmpada. Um espaço em que esteja previsto, sobretudo,
educar para a formação política, não
partidária.
"Temos valores, princípios, sonhos, mas não
sabemos onde dependurá-los porque as escolas ignoram a vida
política, não são um espaço onde os
jovens aprendem a gostar de política", critica. "Se
a maioria tiver nojo, é o fim da democracia".
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