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World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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Frei Betto

'Não sabemos onde dependurár os sonhos'

Clarinha Glock

A escola deve ser um laboratório de inclusão social, diz o escritor brasileiro Frei Betto. "Um laboratório onde o que está sendo gestado neste Fórum fosse um trabalho permanente da educação, de exercitar nos alunos que é possível um mundo diferente", acrescenta.

Aos 57 anos, o teólogo que é também assessor da Central de Movimentos Populares, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e da Pastoral Operária ABC Paulista, está engajado atualmente numa campanha como consultor da organização não-governamental Faça Parte.

Sob o lema "Escola Voluntária - Educação Cidadã, Ação Solidária", a campanha propõe que as escolas abram suas portas para ir ao encontro da população carente e sejam espaços de formação política.

Adepto das idéias do amigo e educador Paulo Freire, Frei Betto apresentou aos participantes do II Fórum Social Mundial propostas práticas de como colocar em prática a teoria defendida por educadores em todo o mundo.

Se a escola não funciona à noite, por que não usá-la, nesse período, para aulas de alfabetização? Se fica fechada aos sábados e domingos, Frei Betto sugere que seja utilizada nestes dias para oficinas profissionalizantes, ou cursos com noções de primeiros socorros e como cuidar da saúde.

Em escolas com espaço físico grande, é possível implantar uma horta comum ou uma farmácia comunitária, aproveitando os remédios dentro do prazo de validade que pais e professores mantêm em casa sem uso.

Essa noção de escola cidadã implica, no entanto, uma mudança do modelo econômico atual. Frei Betto ressalta que sua execução depende de reformas: agrária e tributária, para priorizar os recursos internos, evitando a saída de altas divisas dos países pobres para o pagamento da dívida externa.

A inclusão social a que Frei Betto se refere pressupõe, em primeiro lugar, que as crianças tenham acesso à educação. "Para isso, não se pode depender apenas do poder público na forma da bolsa-escola (uma pequena ajuda econômica dada pelo governo brasileiro para as famílias que encaminham suas crianças à escola)", avisa.

Uma saída seria que pais, alunos e professores se quotizassem para assegurar a vaga de quem não pode pagar. Além disso, as escolas devem se transformar para acolher as pessoas portadoras de deficiências - não por pena, mas por reconhecimento de seus direitos com cidadãos.

E, por fim, ele propõe que as escolas tenham vínculos com os movimentos sociais, abandonando a ilha de privilégios e o isolamento em que vivem.

Frei Betto salienta um outro problema que permeia a educação. É o que ele chama de "des-historialização", um neologismo para indicar que o liberalismo faz o indivíduo perder a consciência do tempo como História.

Ele explica: quem tem mais de 45 anos viveu a era literária, enquanto os mais jovens são filhos da era da imagem. "Toda literatura é intrinsicamente histórica - um livro tem começo, meio e fim e gera mega-relatos", enfatiza. Mas quando predomina a imagem, a televisão, assim como o cinema, fundem os tempos, embaralhando presente, passado e futuro.

Isso se reflete também do ponto de vista pedagógico. "Uma pessoa só pode ter projetos profissionais, afetivos, políticos, pessoais, se tiver a idéia do tempo como História, com as felicidades e as dificuldades que o percurso traz". Na falta de projetos, qualquer dificuldade, que deveria ser encarada apenas com parte do processo, significa o fracasso. Neste contexto, a escola tende a ser um mero espaço de aprimoramento ou de qualificação da mão-de-obra.

É justamente a era da imagem que, a seu ver, explica por que a maior parte dos alunos, hoje, não conseguem seguir a linha de raciocínio de um professor por 40 minutos. Eles precisam de impacto, cor, som, o que inexiste na sala de aula.

Frei Betto observa que a televisão é cada vez menos cultural e mais entretenimento - a cultura acrescenta algo ao espírito e à alma, enquanto o entretenimento hipnotiza os sentidos, mas não traz acréscimos. "O mais grave é que a escola continua (e deve) trabalhar com textos, mas ainda não levou para sala de aula a imagem", avalia.

Sua proposta é levar a discussão da imagem para as escolas, promovendo análises dos discursos de anúncios publicitários, por exemplo, para educar o olhar crítico dos alunos sobre essa produção. Seria uma forma de fazê-los se dar conta como o neoliberalismo consegue proezas de incentivar o consumo, criando a necessidade do supérfluo.

O teólogo critica a falta de uma visão mais holística da educação, onde a escola seja um lugar em que seja possível falar abertamente e sem tabus sobre situações-limite da existência por que todos passam - dor, morte, doença, fracasso, racismo, relações de gênero -, e ainda aprender aspectos práticos da vida cotidiana, como trocar uma lâmpada. Um espaço em que esteja previsto, sobretudo, educar para a formação política, não partidária.

"Temos valores, princípios, sonhos, mas não sabemos onde dependurá-los porque as escolas ignoram a vida política, não são um espaço onde os jovens aprendem a gostar de política", critica. "Se a maioria tiver nojo, é o fim da democracia".