The daily journal of the
World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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FSM: Paz, Saúde e Pouca Violência

Clarinha Glock/TerraViva

Enquanto os 15.230 delegados de 4.909 organizações de 131 países debatiam alternativas para a globalização e pediam o fim das guerras nas conferências e seminários do II Fórum Social Mundial, uma multidão de pessoas trabalhou nos bastidores anonimamente. Seu trabalho: garantir a paz no evento que reuniu, oficialmente, 51,3 mil participantes (as estimativas são de um número maior, pelo afluxo de gente nos últimos dias). Só o Acampamento Intercontinental da Juventude, por exemplo, recebeu 11,6 mil inscrições. Nas 4,5 mil barracas, porém, foram se incorporando visitantes, o que, segundo as contas dos organizadores, deve somar umas 16 mil pessoas.

Nos 15 hectares do Campus da PUC, onde aconteceu boa parte dos encontros, 45 pessoas estavam envolvidas em serviços gerais, como movimentação de móveis e equipe de apoio. Outras 130 ficaram encarregadas da limpeza, um trabalho que rendeu 800 sacos de lixo por dia. Os banheiros do Centro de Eventos da PUC, sempre impecavelmente limpos, testemunharam uma cifra tão grandiosa quanto o número de participantes do Fórum: só de rolos de papel higiênico foram gastos 3200 diariamente, segundo os cálculos da equipe coordenada pelo prefeito universitário da PUC, Rogério Bianchini Dias.

No decorrer do II Fórum foram registradas algumas situações inusitadas, lembra o inspetor de polícia Marcelo Carbone, do Grupamento de Operações Especiais da Polícia Civil que teve um posto instalado no Prédio 16. Familiares de duas senhoras francesas acionaram o consulado da França pedindo ajuda para encontrá-las, porque fazia dias que as mulheres não davam notícias, tão entretidas que estavam participando das conferências. Levou um dia e muito trabalho para que o inspetor localizasse as participantes que estavam bem, felizmente.

Marcelo Carbone, que é também paramédico, transportou uma pessoa com parada cardíaca para o Hospital São Lucas, da PUC, localizado em frente ao Campus da Universidade. Por sorte o atendimento rápido evitou o pior. O posto policial teve trabalho, com 10 a 11 ocorrências diárias, mas a maioria eram documentos perdidos, incluindo passaportes, e furtos.

Movimento semelhante teve o posto de saúde para atendimentos de emergência instalado também no prédio 16 . Do dia 1º até o meio-dia do dia 5 foram registradas 270 consultas. Oito pessoas com suspeita de dengue foram para o Hospital São Lucas realizar exames. Um outro caso suspeito foi registrado no Acampamento da Juventude. Cortes, torções, dores de cabeça, problemas de pressão arterial e intoxicação alimentar não deixaram a técnica em enfermagem Priscilla Fittipaldi sem trabalho no posto da PUC durante o II Fórum.

E apesar da maior parte das manifestações ter sido considerada pacífica, o álbum de recordações deste II Fórum vai guardar também cenas curiosas e tristes, que não chegaram a abalar a estrutura geral.

O lado trágico ficou por conta da tentativa de assalto ao caixa-forte de um dos bancos no prédio 40 da PUC, com tiroteio e tudo, no dia 3. Um assaltante morreu. No dia seguinte, manifestantes radicais invadiram e destruiram a sala VIP em um protesto que pouca gente entendeu.

Numa oficina sobre Direitos da Criança e do Adolescente, a ministra da Juventude e do Esporte da França e dirigente do Partido Comunista Francês, Marie-George Buffet, recebeu uma torta na cara atirada por um grupo de jovens franceses. E os punks tentaram por duas vezes agitar, a sua maneira, a cidade. Na primeira vez, durante a caminhada da abertura do evento, eles se desviaram da marcha principal e bloquearam a rua por alguns minutos. Ainda na segunda-feira, dia 4, à noite, um grupo identificado pela polícia como sendo também de punks foi detido na Rua Siqueira Campos com coquetés molotov, facas, pedras, bolitas para confronto e máscaras cobrindo os rostos. Paralelamente, foram registrados pequenos furtos.

"Esses atos ilícitos são de pequeno potencial ofensivo", considerou o coronel Ilson Pinto de Oliveira, do Comando de Policiamento da Capital, responsável pela segurança durante o Fórum. A força-tarefa da polícia incluiu 850 homens a mais do que dos 450 por turno que trabalham normalmente no policiamento. A população não se deu conta, mas houve um "sacrifício" organizado para assegurar o bem-estar geral: alguns policiais tiveram as férias suspensas por cinco dias e as horas-extras foram ampliadas.

A Polícia Federal também foi acionada em algumas situações para garantir a segurança física de autoridades de renome, disse Rubem Albino Fockink, superintendente da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. A pedido do prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, policiais federais estiveram presentes durante o Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão Social realizado dias antes do início do II Fórum Social Mundial. Além dos 25 a 30 policiais que se revezavam em turnos, outros 30 ficaram permanentemente de sobreaviso para agir em qualquer emergência também nas demais atividades no II Fórum Social Mundial. O reforço maior foi para proteger o juiz espanhol Baltazar Garzón - o número de seguranças é mantido em sigilo pelo superintendente da PF. Os prefeitos de Roma e Paris tiveram ainda uma atenção especial.

Fockink observa que, no Aeroporto Internacional Salgado Flho, em Porto Alegre, dobrou o número de policiais federais normalmente encarregados da conferência de vôos internacionais. "Mas felizmente foi tudo muito calmo", afirmou.