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FSM: Paz, Saúde e Pouca Violência
Clarinha Glock/TerraViva
Enquanto os 15.230 delegados de 4.909 organizações
de 131 países debatiam alternativas para a globalização
e pediam o fim das guerras nas conferências e seminários
do II Fórum Social Mundial, uma multidão de pessoas
trabalhou nos bastidores anonimamente. Seu trabalho: garantir a
paz no evento que reuniu, oficialmente, 51,3 mil participantes (as
estimativas são de um número maior, pelo afluxo de
gente nos últimos dias). Só o Acampamento Intercontinental
da Juventude, por exemplo, recebeu 11,6 mil inscrições.
Nas 4,5 mil barracas, porém, foram se incorporando visitantes,
o que, segundo as contas dos organizadores, deve somar umas 16 mil
pessoas.
Nos 15 hectares do Campus da PUC, onde aconteceu boa parte dos
encontros, 45 pessoas estavam envolvidas em serviços gerais,
como movimentação de móveis e equipe de apoio.
Outras 130 ficaram encarregadas da limpeza, um trabalho que rendeu
800 sacos de lixo por dia. Os banheiros do Centro de Eventos da
PUC, sempre impecavelmente limpos, testemunharam uma cifra tão
grandiosa quanto o número de participantes do Fórum:
só de rolos de papel higiênico foram gastos 3200 diariamente,
segundo os cálculos da equipe coordenada pelo prefeito universitário
da PUC, Rogério Bianchini Dias.
No decorrer do II Fórum foram registradas algumas situações
inusitadas, lembra o inspetor de polícia Marcelo Carbone,
do Grupamento de Operações Especiais da Polícia
Civil que teve um posto instalado no Prédio 16. Familiares
de duas senhoras francesas acionaram o consulado da França
pedindo ajuda para encontrá-las, porque fazia dias que as
mulheres não davam notícias, tão entretidas
que estavam participando das conferências. Levou um dia e
muito trabalho para que o inspetor localizasse as participantes
que estavam bem, felizmente.
Marcelo Carbone, que é também paramédico,
transportou uma pessoa com parada cardíaca para o Hospital
São Lucas, da PUC, localizado em frente ao Campus da Universidade.
Por sorte o atendimento rápido evitou o pior. O posto policial
teve trabalho, com 10 a 11 ocorrências diárias, mas
a maioria eram documentos perdidos, incluindo passaportes, e furtos.
Movimento semelhante teve o posto de saúde para atendimentos
de emergência instalado também no prédio 16
. Do dia 1º até o meio-dia do dia 5 foram registradas
270 consultas. Oito pessoas com suspeita de dengue foram para o
Hospital São Lucas realizar exames. Um outro caso suspeito
foi registrado no Acampamento da Juventude. Cortes, torções,
dores de cabeça, problemas de pressão arterial e intoxicação
alimentar não deixaram a técnica em enfermagem Priscilla
Fittipaldi sem trabalho no posto da PUC durante o II Fórum.
E apesar da maior parte das manifestações ter sido
considerada pacífica, o álbum de recordações
deste II Fórum vai guardar também cenas curiosas e
tristes, que não chegaram a abalar a estrutura geral.
O lado trágico ficou por conta da tentativa de assalto ao
caixa-forte de um dos bancos no prédio 40 da PUC, com tiroteio
e tudo, no dia 3. Um assaltante morreu. No dia seguinte, manifestantes
radicais invadiram e destruiram a sala VIP em um protesto que pouca
gente entendeu.
Numa oficina sobre Direitos da Criança e do Adolescente,
a ministra da Juventude e do Esporte da França e dirigente
do Partido Comunista Francês, Marie-George Buffet, recebeu
uma torta na cara atirada por um grupo de jovens franceses. E os
punks tentaram por duas vezes agitar, a sua maneira, a cidade. Na
primeira vez, durante a caminhada da abertura do evento, eles se
desviaram da marcha principal e bloquearam a rua por alguns minutos.
Ainda na segunda-feira, dia 4, à noite, um grupo identificado
pela polícia como sendo também de punks foi detido
na Rua Siqueira Campos com coquetés molotov, facas, pedras,
bolitas para confronto e máscaras cobrindo os rostos. Paralelamente,
foram registrados pequenos furtos.
"Esses atos ilícitos são de pequeno potencial
ofensivo", considerou o coronel Ilson Pinto de Oliveira, do
Comando de Policiamento da Capital, responsável pela segurança
durante o Fórum. A força-tarefa da polícia
incluiu 850 homens a mais do que dos 450 por turno que trabalham
normalmente no policiamento. A população não
se deu conta, mas houve um "sacrifício" organizado
para assegurar o bem-estar geral: alguns policiais tiveram as férias
suspensas por cinco dias e as horas-extras foram ampliadas.
A Polícia Federal também foi acionada em algumas
situações para garantir a segurança física
de autoridades de renome, disse Rubem Albino Fockink, superintendente
da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. A pedido do prefeito
de Porto Alegre, Tarso Genro, policiais federais estiveram presentes
durante o Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão
Social realizado dias antes do início do II Fórum
Social Mundial. Além dos 25 a 30 policiais que se revezavam
em turnos, outros 30 ficaram permanentemente de sobreaviso para
agir em qualquer emergência também nas demais atividades
no II Fórum Social Mundial. O reforço maior foi para
proteger o juiz espanhol Baltazar Garzón - o número
de seguranças é mantido em sigilo pelo superintendente
da PF. Os prefeitos de Roma e Paris tiveram ainda uma atenção
especial.
Fockink observa que, no Aeroporto Internacional Salgado Flho, em
Porto Alegre, dobrou o número de policiais federais normalmente
encarregados da conferência de vôos internacionais.
"Mas felizmente foi tudo muito calmo", afirmou.
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