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Juan Somavía
Trabalho decente deve ser o piso social da globalização
Marco Piva
O Diretor Geral da Organização Internacional do Trabalho
(OIT), o chileno Juan Somavía, diz que ele faz de seu mandato
um instrumento de promoção do ''trabalho decente''.
Nesta entrevista, fala de suas impressões sobre o Fórum
Social Mundial, do papel da OIT, dos direitos dos trabalhadores
e da necessidade de integração entre os objetivos
econômicos e sociais da globalização.
Como vê a realização desta segunda edição
do Fórum Social Mundial?
Este Fórum reflete a preocupação de muita
gente diante do sentimento de insegurança gerado pelo modelo
atual de globalização, um sentimento de falta de poder
frente a um processo que ninguém controla. Estamos buscando
soluções e este evento é uma fonte impressionante
de debates de idéias e novidades. É imprescindível
construir pontes de entendimento entre pessoas com diferentes visões
da globalização para transformá-la em um sistema
que beneficie a todos. Nesse sentido, este Fórum pode contribuir
muito porque muitas vozes e perspectivas estão aqui presentes.
Por quê assiste ao Fórum?
Estou aqui atendendo convite das federações sindicais
mundiais. Mas, ainda que não fosse o diretor-geral da OIT,
eu estaria em Porto Alegre porque aqui me sinto entre amigos. Estive
com muitos deles no Chile nas lutas pela democracia na América
Latina. O Fórum tem uma grande participação
sindical e de movimentos sociais que lutam por um mundo mais justo
e quero contribuir para esse debate. Creio na capacidade de participação
da sociedade civil, nesse amplo movimento de busca de alternativas.
Isto interessa à OIT e ao sistema das Nações
Unidas.
Como analisa a questão do desemprego no mundo?
Terminamos os anos 90 com 60 milhões de desempregados a
mais no mundo em comparação ao início da década.
Somente a recessão do ano passado cortou mais 30 milhões
de empregos. Para esse ano, corremos o mesmo risco e o desemprego
é apenas uma parte do problema. Existem 500 milhões
de trabalhadores e suas famílias que estão abaixo
da linha da pobreza, além de milhões de pessoas com
trabalhos de péssima qualidade, sem proteção
social, sem representação. Se o emprego não
for tratado como uma prioridade pelas políticas nacionais
e internacionais, esta situação tende a continuar.
Quais são as prioridades de atuação da OIT?
A prioridade absoluta da OIT é o trabalho decente. Devemos
ver os problemas e as aspirações através dos
olhos das pessoas. Suas prioridades são o emprego e renda
decentes, oportunidades para seus filhos, segurança no trabalho,
na família e na aposentadoria, respeito aos seus direitos
e voz e participação nas decisões que têm
a ver com elas. Esse conjunto constitui para nós, da OIT,
o trabalho decente. Este é o nosso objetivo para todos, mulheres
e homens, no setor formal e na economia informal. Todos devem ter
a oportunidade de acesso a um trabalho produtivo e digno. Essa é
a pré-condição para um desenvolvimento socialmente
sustentável, o caminho em direção à
igualdade, uma fonte de esperança que é essencial
para a paz.
Qual é o panorama dos direitos trabalhistas e das liberdades
sindicais na América Latina e no mundo?
A concretização dos direitos básicos dos trabalhadores
deve ser o piso social da economia global. Atualmente, existe um
deficit intolerável em relação a esses direitos.
Alguns exemplos são a presença de discriminação
de raça e gênero em todas as partes do mundo, causa
importante de desigualdade e pobreza, situações extremas
de exploração do trabalho infantil e trabalho escravo.
Um dos principais problemas é a falta de liberdade sindical.
Cerca de 40% dos países têm sérios problemas
de liberdade sindical. Na Colômbia, Guatemala e outros países,
sindicalistas são assassinados por defenderem os direitos
dos trabalhadores. Temos que entender que os direitos dos trabalhadores
são direitos humanos. Por isso, temos muito o que fazer.
Nesse sentido, os direitos dos trabalhadores estão no coração
da estratégia de trabalho decente da OIT.
Como analisa o atual processo de globalização?
O problema central do atual modelo de globalização
é a falta de integração entre os objetivos
econômicos e sociais. Não existe um marco social adequado
para a economia global. O esforço de constituir instituições
e regras eficazes está concentrado na esfera econômica.
Precisamos construir mecanismos para considerar os impactos sociais
das políticas econômicas e financeiras. A política
econômica global insiste muito em reduzir o deficit do orçamento
público. Eu acredito que é chegado o momento de insistir
para que essas políticas reduzam o deficit de trabalho decente.
Esta é uma agenda que pode conquistar, ao mesmo tempo, os
direitos dos trabalhadores, o emprego e o desenvolvimento. Necessitamos
de um sistema que regule a economia global, de forma que a produção
e o comércio, os investimentos, as migrações
e os outros elementos próprios da globalização
sejam coerentes com os direitos humanos, a igualdade de gênero
e raça, o emprego e a seguridade. Para conquistar isso, o
diálogo social é um elemento fundamental de constituição
de uma economia global que responda às aspirações
dos trabalhadores e de suas famílias.
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