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Poderes locais, a semente de uma nova globalização
por Gustavo González
Prefeitos, intendentes, dirigentes e outras autoridades locais
do mundo inteiro intentan estabelecer as bases para uma nova globalização,
onde "a economia esteja a serviço das pessoas, e não
as pessoas a serviço da economia", como disse o ex-presidente
de Portugal, Mário Soares.
O político português foi o principal orador da noite
de segunda feira na inauguração do II Fórum
de Autoridades Locais pela Inclusão Social, que iniciou suas
sessões de trabalho nesta terça-feira com reflexões
que têm como pano de fundo recorrente a crise Argentina.
O diagnóstico predominante entre os mil delegados do Fórum,
que inclui 203 chefes de governos locais, é que as dificuldades
econômicas pelas quais está passando a Argentina evidenciam
os aspectos mais negativos da globalização, como a
exclusão social, a pobreza, a marginalidade e a concentração
negativa da riqueza.
"Seria um erro considerar o tema argentino como um caso específico",
advertiu Aníbal Ibarra, intendente de Buenos Aires, que participou
também da seção inaugural, junto à prefeita
de São Paulo, Marta Suplicy, e aos prefeitos de Paris, Bertrand
Delanoë, e de Roma, Walter Veltroni.
Em Porto Alegre, os prefeitos, intendentes e dirigentes que se
identificam com correntes políticas de esquerda e centro-esquerda,
lançam sinais de alarme sobre os efeitos da ortodoxia neoliberal
que estabelece sua hegemonia sobre o processo de globalização
através do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Soares observou que existe hoje um tipo de poder supremo da mundialização,
estruturado por uma rede de organizações nacionais
e supranacionais, cujo fim parece ser o lucro pelo lucro, e que
em lugar de erradicar a pobreza a está aumentando.
O ex-dirigente português citou o ex-presidente dos Estados
Unidos, Bill Clinton, que admitiu, em um artigo escrito para o jornal
francês Le Monde, as crescentes desigualdades em um mundo
onde metade da população vive hoje com uma renda inferior
a dois dólares por dia.
"O mercado conduz a desigualdades incuráveis",
afirmou Soares, ressaltando o desafio de construir uma nova globalização
com uma face humana e uma nova ordem internacional mais justa através
da luta pacífica, que fomente a paz e conduza a um desenvolvimento
econômico sustentável.
Olívio Dutra, governador do Estado do Rio Grande do Sul,
afirmou que nos Estados, nas regiões, províncias e
cidades da América Latina e do mundo estão sendo aplicadas
novas propostas de democratização para compensar a
exclusão social originada pelo neoliberalismo.
A participação popular, o controle público
das autoridades, a atenção às demandas específicas
das pessoas e a solidariedade como valor fundamental, são
aportes destas experiências locais à construção
de um mundo mais igualitário e de um modelo de sociedade
diferente, observou Dutra.
O prefeito de Roma, Walter Veltroni, propôs que todas as
autoridades locais devem pressionar seus respectivos governos nacionais,
sobretudo nos países do Norte, para que não participem
do Grupo dos Oito (G-8) enquanto esta instância internacional
não for democratizada.
O G-8 é formado pelas sete maiores potências industriais
(Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Japão,
Canadá e Itália) e pela Rússia.
A inclusão de países da África e América
Latina no G-8 é a única garantia de que ali se possa
discutir os grandes problemas da pobreza, da fome e do endividamento
externo, afirmou Veltroni.
O prefeito de Paris observou que o potencial das comunidades locais
como base sólida de novas formas de cooperação
mútua foi até agora ignorado, e defendeu que fosse
colocada a solidariedade como um dos eixos fundamentais na construção
de um "contra-poder" à globalização.
Bertrand Delanoë reivindicou o internacionalismo da esquerda
e o fortalecimento de sociedades e espaços multiculturais,
em uma perspectiva humanista e democratizante, que abra caminho
para uma mundialização fundamentada na cultura, na
criatividade e na solidariedade, e não no afã do lucro.
Que tipo de mundialização é possível?
Como regulamentar o trabalho e proteger o ambiente se o mercado
o controla por inteiro? Estas foram algumas das interrogações
colocadas pela prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.
A dirigente política brasileira concordou com Ibarra no
sentido de que a Argentina, o país que mais se ateve às
políticas monetárias, de abertura comercial e desregulamentação
impostas pelo FMI, é hoje o modelo mais representativo da
inviabilidade de uma globalização neoliberal.
Segundo Suplicy, as autoridades reunidas neste Fórum representam
cidades comprometidas com práticas de inclusão social,
para as quais a Justiça deve prevalecer sobre a exclusão
e a barbárie e que se unem em torno de um objetivo comum
de alterar a atual correlação internacional de forças.
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