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World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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Poderes locais, a semente de uma nova globalização

por Gustavo González

Prefeitos, intendentes, dirigentes e outras autoridades locais do mundo inteiro intentan estabelecer as bases para uma nova globalização, onde "a economia esteja a serviço das pessoas, e não as pessoas a serviço da economia", como disse o ex-presidente de Portugal, Mário Soares.

O político português foi o principal orador da noite de segunda feira na inauguração do II Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão Social, que iniciou suas sessões de trabalho nesta terça-feira com reflexões que têm como pano de fundo recorrente a crise Argentina.

O diagnóstico predominante entre os mil delegados do Fórum, que inclui 203 chefes de governos locais, é que as dificuldades econômicas pelas quais está passando a Argentina evidenciam os aspectos mais negativos da globalização, como a exclusão social, a pobreza, a marginalidade e a concentração negativa da riqueza.

"Seria um erro considerar o tema argentino como um caso específico", advertiu Aníbal Ibarra, intendente de Buenos Aires, que participou também da seção inaugural, junto à prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, e aos prefeitos de Paris, Bertrand Delanoë, e de Roma, Walter Veltroni.

Em Porto Alegre, os prefeitos, intendentes e dirigentes que se identificam com correntes políticas de esquerda e centro-esquerda, lançam sinais de alarme sobre os efeitos da ortodoxia neoliberal que estabelece sua hegemonia sobre o processo de globalização através do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Soares observou que existe hoje um tipo de poder supremo da mundialização, estruturado por uma rede de organizações nacionais e supranacionais, cujo fim parece ser o lucro pelo lucro, e que em lugar de erradicar a pobreza a está aumentando.

O ex-dirigente português citou o ex-presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que admitiu, em um artigo escrito para o jornal francês Le Monde, as crescentes desigualdades em um mundo onde metade da população vive hoje com uma renda inferior a dois dólares por dia.

"O mercado conduz a desigualdades incuráveis", afirmou Soares, ressaltando o desafio de construir uma nova globalização com uma face humana e uma nova ordem internacional mais justa através da luta pacífica, que fomente a paz e conduza a um desenvolvimento econômico sustentável.

Olívio Dutra, governador do Estado do Rio Grande do Sul, afirmou que nos Estados, nas regiões, províncias e cidades da América Latina e do mundo estão sendo aplicadas novas propostas de democratização para compensar a exclusão social originada pelo neoliberalismo.

A participação popular, o controle público das autoridades, a atenção às demandas específicas das pessoas e a solidariedade como valor fundamental, são aportes destas experiências locais à construção de um mundo mais igualitário e de um modelo de sociedade diferente, observou Dutra.

O prefeito de Roma, Walter Veltroni, propôs que todas as autoridades locais devem pressionar seus respectivos governos nacionais, sobretudo nos países do Norte, para que não participem do Grupo dos Oito (G-8) enquanto esta instância internacional não for democratizada.

O G-8 é formado pelas sete maiores potências industriais (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Japão, Canadá e Itália) e pela Rússia.

A inclusão de países da África e América Latina no G-8 é a única garantia de que ali se possa discutir os grandes problemas da pobreza, da fome e do endividamento externo, afirmou Veltroni.

O prefeito de Paris observou que o potencial das comunidades locais como base sólida de novas formas de cooperação mútua foi até agora ignorado, e defendeu que fosse colocada a solidariedade como um dos eixos fundamentais na construção de um "contra-poder" à globalização.

Bertrand Delanoë reivindicou o internacionalismo da esquerda e o fortalecimento de sociedades e espaços multiculturais, em uma perspectiva humanista e democratizante, que abra caminho para uma mundialização fundamentada na cultura, na criatividade e na solidariedade, e não no afã do lucro.

Que tipo de mundialização é possível? Como regulamentar o trabalho e proteger o ambiente se o mercado o controla por inteiro? Estas foram algumas das interrogações colocadas pela prefeita de São Paulo, Marta Suplicy.

A dirigente política brasileira concordou com Ibarra no sentido de que a Argentina, o país que mais se ateve às políticas monetárias, de abertura comercial e desregulamentação impostas pelo FMI, é hoje o modelo mais representativo da inviabilidade de uma globalização neoliberal.

Segundo Suplicy, as autoridades reunidas neste Fórum representam cidades comprometidas com práticas de inclusão social, para as quais a Justiça deve prevalecer sobre a exclusão e a barbárie e que se unem em torno de um objetivo comum de alterar a atual correlação internacional de forças.