The daily journal of the
World Social Forum.
Porto Alegre, Brazil,
Jan 31, Feb 5, 2002

 

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A babel quer gerar um novo mundo

por Mario Osava

A diversidade é um dos fundamentos do Fórum Social Mundial (FSM), que pela segunda vez transforma Porto Alegre numa babel de delegados de todo o mundo, organizações, reivindicações e propostas de mudanças globais.

Isso complica a tarefa daqueles que ambicionam reagrupar as forças de esquerda através destes encontros, iniciados em janeiro de 2001 como contraponto ao Foro Econômico Mundial de Davos, que reúne banqueiros, empresarios e autoridades financeiras, também anualmente.

Os números deste II FSM oferecem, por si mesmos, uma medida da dispersão, ya que compreendem a participação de mais de 3.500 organizações não governamentais (ONG), movimentos sociais e entidades de todo o mundo, com 19.000 representantes pré-inscritos, superando o limite de 12.000 definido pela Comissão Organizadora.

No total se espera a presença de 50.000 pessoas nas 24 conferencias e 800 seminarios e oficinas do FSM, além de outros milhares nos foruns paralelos específicos de autoridades locais, de jóvens, juizes, cineastas, ambientalistas, parlamentares e de crianças.

São multidões de interesses heterogêneos e paralelos, às vezes conflitantes. Articular tudo isso parece um desafio impossível a curto prazo.

Trata-se de ordenar um universo cujo 'big-bang" original ocorreu na década de 60, ou em 1968 para quem exigem um marco simbólico mais preciso. Até então era possivel unir amplos setores da população, senão maiorias, a partir de interesses nacionais ou de classes. As relações e disputas entre capital e trabalho eram determinantes para o bem estar social, as conquistas do sindicalismo se estendiam a toda a sociedade, ou pelo menos se pretendia que assim fosse.

Nos anos 60 houve uma explosão de demandas específicas, com o irromper de movimentos de bases sociais e objetivos diversos, desde o feminista aos étnicos de cores variadas, os ambientalistas, pacifistas e religiosos. Mulheres, negros, indios, imigrantes, homossexuais, grupos das mais diferentes identidades organizaram suas proprias reivindicações.

Foi o que se pode chamar de Revolução da Diversidade, de que é uma das expressões a proliferação das ONGs. Os partidos e sindicatos já não representam tão variadas demandas, que podem ser locais ou planetarias e referir-se a desequilibrios de gênero ou étnicas, ameaças ambientais ou financeiras.

Paralelamente a essa multiplicação dos atores, o sindicalismo perdeu força em consequencia de outro processo das últimas décadas, a fragmentação do mundo do trabalho diante de um movimento inverso do capital, que se concentrou nos grandes bancos e empresas nacionais ou transnacionais.

A terceirização, o desemprego, a ocupação informal dispersaram os trabalhadores, reduzindo a capacidade de luta dos sindicatos que, por sua propria natureza, se apoiam e representam fundamentalmente nos empregados da economía formal.

Em muitos pontos os interesses do sindicalismo não coincidem, as vezes até se chocam, com os do feminismo, que ampliou a população economicamente ativa e portanto a possibilidade de desemprego, e com o ambientalismo, que frequentemente bloqueia investimentos e a geração de novos postos de trabalho.

O FSM leva ao extremo essa diluição do poder sindical, assim como dos partidos de esquerda, ao não conceder-lhes nenhum tratamento especial e sufocá-los com a participação de milhares de ONG em pé de igualdade. Os intelectuais convidados são os únicos que se sobressaem, pelos minutos de palestra a que têm direito e o espaço na midia.

Uma tentativa de superar essa dispersão e impor alguma orientação mais unitaria ao FSM, para maior eficiencia política, não parece viável a curto prazo.

A preservação da "diversidade e pluralidade" foi defendida pela Via Campesina, organização mundial dos pequenos agricultores e trabalhadores rurais, num comunicado de 21 de janeiro em que levantou "preocupações" por uma "tendencia à institucionalização deste Forum".

O FSM deve continuar como uma "plataforma aberta" onde "as organizações possam participar ativa e livremente para propor alternativas", afirmou Via Campesina, que defende as sementes como patrimonio comum da humanidade, o banimento dos transgênicos e a soberania alimentar.

A rejeição à "globalização neoliberal" parece consensual entre os participantes do movimento que muitos chamam de "antiglobalização". O sociólogo português Boaventura de Souza Santos, considerado um dos seus ideólogos, prefere falar de "globalização alternativa", já que o FSM também é global.

Serão nove dias de intensas discussões, considerando que alguns foruns paralelos começaram na segunda-feira. A multiplicidade de temas e posições tornam dificil identificar propostas que poderão servir de eixo ao "outro mundo possível" que o FSM se propõe delinear.

Os progressos, respeitando a diversidade, serão necessariamente lentos e se trata apenas de um segundo encontro desta instancia de reflexão, criada pelo movimiento iniciado pelas grandes manifestações contra as instituições acusadas de promover o neoliberalismo, como o Fundo Monetario Internacional, o Forum de Davos e a Organização Mundial do Comercio.