{"id":10098,"date":"2012-06-15T10:29:05","date_gmt":"2012-06-15T10:29:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10098"},"modified":"2012-06-15T10:29:05","modified_gmt":"2012-06-15T10:29:05","slug":"coluna-carlos-fuentes-reinventor-da-amrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/06\/america-latina\/coluna-carlos-fuentes-reinventor-da-amrica\/","title":{"rendered":"COLUNA: Carlos Fuentes, reinventor da Am&eacute;rica"},"content":{"rendered":"<p>Miami, Estados Unidos, 15\/06\/2012 &ndash; Disse a Carlos Fuentes, no dia em que o trouxemos &agrave; Universidade de Miami para receber o t&iacute;tulo de doutor honoris causa, em 1992, que apenas de Julio Cort&aacute;zar eu possu&iacute;a um n&uacute;mero maior de livros. <!--more--> E ele me respondeu: &quot;N&atilde;o &eacute; de estranhar; era muito melhor escritor do que eu&quot;.<\/p>\n<p>Pessoalmente, sempre me causou a mesma indel&eacute;vel impress&atilde;o ao ler qualquer de suas p&aacute;ginas. Culto, poliglota (seu ingl&ecirc;s era nativo), simp&aacute;tico, s&eacute;rio, cort&ecirc;s e atencioso.<\/p>\n<p>Conheci Carlos Fuentes quando, em 1986, aceitou fazer o discurso inaugural em Miami do pr&ecirc;mio liter&aacute;rio Letras de Ouro, com o apoio da American Express. Apresentou uma confer&ecirc;ncia magistral ainda lembrada, na qual se desculpava por n&atilde;o ter se dedicado a escrever em ingl&ecirc;s, quando poderia ter feito com &ecirc;xito: &quot;A l&iacute;ngua inglesa n&atilde;o precisa de mais um escritor&quot;.<\/p>\n<p>Para benef&iacute;cio do espanhol, assim converteu-se no melhor criador de prosa do &uacute;ltimo meio s&eacute;culo latino-americano. Se alguns (como Mario Vargas Llosa e Gabriel Garc&iacute;a M&aacute;rquez) podiam super&aacute;-lo em tens&atilde;o narrativa, em riqueza e inova&ccedil;&atilde;o de linguagem, ele estava acima de todos os companheiros do chamado boom.<\/p>\n<p>Em seus textos, os fragmentos de medita&ccedil;&atilde;o e descri&ccedil;&atilde;o tinham o impacto de poemas de antologia. Os ensaios escondidos na narra&ccedil;&atilde;o eram complemento liter&aacute;rio de uma das melhores variantes da arte da coluna de colabora&ccedil;&atilde;o, que contribu&iacute;a semanalmente aos melhores di&aacute;rios da Am&eacute;rica e da Europa.<\/p>\n<p>Acima de tudo, Fuentes foi um dos exemplos mais di&aacute;fanos de descobridor dos enigmas americanos (e numerosos da Espanha). Suas novelas eram a necess&aacute;ria reescritura da hist&oacute;ria mascarada do continente, enterradas em ocas declara&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas partidaristas e emaranhadas com toda a varia&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica populista latino-americana.<\/p>\n<p>Fuentes raspava a superf&iacute;cie do tecido nacional do M&eacute;xico e seguia afundando seu bisturi. Dava voz aos personagens que n&atilde;o a tinham e fazia falar as pedras urbanas e os campos desertos. Devolvia a m&uacute;sica &agrave; hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m foi um dos melhores autores da novela de identidade nacional, um rico terreno na hist&oacute;ria cultural e pol&iacute;tica latino-americana. Fuentes sabia como ningu&eacute;m forjar textos que respondiam com rigor ao mandato de Miguel de Unamuno sobre a &quot;intra-hist&oacute;ria&quot;.<\/p>\n<p>A vida cotidiana dos pa&iacute;ses, das classes sociais ignoradas, das cidades esquecidas ou massificadas, fazia sua apari&ccedil;&atilde;o estelar em suas p&aacute;ginas. Numerosos lugares de turismo popular podiam ser percorridos novamente com seus textos na m&atilde;o, ao lado dos guias comerciais.<\/p>\n<p>Os cr&iacute;ticos sempre tiveram um problema em resgatar os melhores livros de Fuentes. Na verdade, essa sele&ccedil;&atilde;o sempre est&aacute; sujeita aos caprichos do leitor. Revelarei os meus: um par de novelas de cunho cl&aacute;ssico e um livro ensaio-hist&oacute;ria. As duas novelas, das mais iniciais, s&atilde;o A regi&atilde;o mais transparente e A morte de Artemio Cruz.<\/p>\n<p>A regi&atilde;o mais transparente deve seu t&iacute;tulo a uma frase extra&iacute;da da cr&ocirc;nica de Bernal D&iacute;az del Castillo, o historiador-inventor da conquista da Am&eacute;rica. A express&atilde;o logo foi capturada por Alfonso Reyes em um de seus escritos.<\/p>\n<p>O lugar &eacute; o mesmo nos tr&ecirc;s: os arredores do que em seu momento foi capital do imp&eacute;rio asteca, depois cen&aacute;rio central da evolu&ccedil;&atilde;o da Revolu&ccedil;&atilde;o Mexicana nos anos 20 do s&eacute;culo passado, e, mais recentemente, da transforma&ccedil;&atilde;o do monstro capitalino que j&aacute; em 1950 (&eacute;poca da novela) dava sinais inequ&iacute;vocos de se converter em um gigante imposs&iacute;vel de amestrar. A regi&atilde;o deixara de ser transparente, j&aacute; agoniada pela impar&aacute;vel imigra&ccedil;&atilde;o e contamina&ccedil;&atilde;o ambiental.<\/p>\n<p>Em comum com A morte de Artemio Cruz, A regi&atilde;o mais transparente medita sobre o congelamento, a deteriora&ccedil;&atilde;o e a trai&ccedil;&atilde;o da Revolu&ccedil;&atilde;o Mexicana, personificada precisamente pelo protagonista, Artemio.<\/p>\n<p>Velho ativista revolucion&aacute;rio, crescido nos setores mais humildes, Cruz galga os degraus da experi&ecirc;ncia pol&iacute;tica mais dram&aacute;tica da hist&oacute;ria da Am&eacute;rica Latina, somente compar&aacute;vel &agrave; da Revolu&ccedil;&atilde;o Cubana.<\/p>\n<p>Se a mexicana contribuiu com a inser&ccedil;&atilde;o (imperfeita) do amplo setor mesti&ccedil;o na sociedade, somente a hist&oacute;ria confirmar&aacute; o at&eacute; agora fracasso da cubana, ainda &oacute;rf&atilde; de uma novela com um equivalente de Cruz, moribundo em seu leito.<\/p>\n<p>Os personagens de A regi&atilde;o&#8230; se misturam com a vida do enigm&aacute;tico Izca Cienfuegos, emblem&aacute;tico s&iacute;mbolo da mesti&ccedil;agem, uma variante da &quot;ra&ccedil;a c&oacute;smica&quot; que pregava Jos&eacute; Vasconcelos. &quot;O que vamos fazer, aqui nasci, na regi&atilde;o mais transparente do ar&quot;, diz resignadamente contemplando a cidade de uma colina.<\/p>\n<p>O livro que se recomenda uma leitura continuada &eacute; O espelho enterrado. Escrito no contexto da comemora&ccedil;&atilde;o de 1992, &eacute; uma medita&ccedil;&atilde;o da ess&ecirc;ncia da civiliza&ccedil;&atilde;o espanhola, em &iacute;ntima rela&ccedil;&atilde;o com a latino-americana, da qual &eacute; complementar, em lugar de contr&aacute;ria.<\/p>\n<p>Tudo da Am&eacute;rica diz respeito &agrave; Espanha, e ao contr&aacute;rio, &eacute; a mensagem de Funtes, de grande vig&ecirc;ncia nestes dias presididos por enfrentamentos provocados, que a ningu&eacute;m (com exce&ccedil;&atilde;o de alguns populistas americanos e uns poucos tresnoitados arrogantes ib&eacute;ricos) beneficiam.<\/p>\n<p>Se esses livros podem ser lidos sem pressa, n&atilde;o nos faltar&atilde;o as linhas marcadas no terreno cotidiano da atualidade social, pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica dos dois continentes. As p&aacute;ginas de opini&atilde;o dos grandes jornais sofrer&atilde;o um vazio dif&iacute;cil de preencher. Partiu um jornalista mestre. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Joaqu&iacute;n Roy &eacute; catedr&aacute;tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni&atilde;o Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miami, Estados Unidos, 15\/06\/2012 &ndash; Disse a Carlos Fuentes, no dia em que o trouxemos &agrave; Universidade de Miami para receber o t&iacute;tulo de doutor honoris causa, em 1992, que apenas de Julio Cort&aacute;zar eu possu&iacute;a um n&uacute;mero maior de livros. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/06\/america-latina\/coluna-carlos-fuentes-reinventor-da-amrica\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,13,4],"tags":[],"class_list":["post-10098","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-colunistas","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10098"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10098\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}