{"id":10224,"date":"2012-06-27T09:54:08","date_gmt":"2012-06-27T09:54:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10224"},"modified":"2012-06-27T09:54:08","modified_gmt":"2012-06-27T09:54:08","slug":"coluna-cuba-dio-ou-conciliao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/06\/colunistas\/coluna-cuba-dio-ou-conciliao\/","title":{"rendered":"COLUNA: Cuba: &oacute;dio ou concilia&ccedil;&atilde;o?"},"content":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 27\/06\/2012 &ndash; Em breve ser&atilde;o completados 50 anos da minha &uacute;ltima entrada em uma igreja cat&oacute;lica como crente. <!--more--> Minha m&atilde;e, educada cat&oacute;lica, e meu pai, ma&ccedil;om cubano desde antes de eu nascer, decidiram que aos seis anos eu come&ccedil;aria a fazer o catecismo e depois faria a primeira comunh&atilde;o. Ao completar sete anos recebi o sacramento, mas, quase imediatamente, tomei uma das primeiras resolu&ccedil;&otilde;es transcendentais de minha vida: satisfeito o desejo dos meus pais, encerrei minha rela&ccedil;&atilde;o ativa com a igreja e com a f&eacute; no divino, para dedicar as manh&atilde;s de domingo a fazer, na verdade, o que queria: jogar basebol com meus amigos.<\/p>\n<p>Desde ent&atilde;o pratico &#8211; n&atilde;o nego que, talvez movido por certa compuls&atilde;o social pr&oacute;-ate&iacute;sta, muito forte em Cuba nesses 50 anos &#8211; um ate&iacute;smo que, talvez, seja mais um tipo de agnosticismo. Porque sou inclinado a pensar que pode existir algo, mas n&atilde;o me atrevo a relacion&aacute;-lo com nada t&atilde;o concreto como um Deus espec&iacute;fico.<\/p>\n<p>O fato de nunca ter voltado a rezar dentro ou fora de uma igreja, que n&atilde;o tenha me iniciado como ma&ccedil;om, e seja um agn&oacute;stico sem pretens&otilde;es filos&oacute;ficas, n&atilde;o impediu que muitos ensinamentos recebidos do catolicismo pela minha m&atilde;e e a pr&aacute;tica fraternal de meu pai n&atilde;o tenham integrado minha maneira de ver e entender a vida. E um desses aprendizados essenciais e melhor entranhado em minha consci&ecirc;ncia &eacute; crer na concilia&ccedil;&atilde;o mais do que na vingan&ccedil;a, n&atilde;o s&oacute; como uma atitude religiosa ou ma&ccedil;&ocirc;nica, mas como uma postura &eacute;tica que cada homem deveria praticar.<\/p>\n<p>Embora at&eacute; esta mesma linha possa parecer que estou escrevendo sobre minha educa&ccedil;&atilde;o ou meu modo de entender o mundo, na realidade o que disse at&eacute; agora tem outra finalidade. Em duas palavras: recordar que a ingratid&atilde;o humana pode ser infinita, e muitas vezes mais frequente do que seu ant&ocirc;nimo simples, a gratid&atilde;o.<\/p>\n<p>H&aacute; algumas semanas, que podem se estender a meses, ou mesmo anos, o papel social desempenhado pela igreja cat&oacute;lica cubana, especialmente desde o ordenamento cardinal&iacute;cio do padre Jaime Ortega Alamino, em 1994, &eacute; uma mostra de como qualquer tentativa de mover uma sociedade viciada pelo imobilismo, marcada por &oacute;dios inflamados e muitas vezes alimentada pelos mais diversos extremismos internos e externos de todo tipo, pode receber a recompensa, por parte de certos setores e pessoas, da ingratid&atilde;o mais descarada, inclusive adornada com os insultos e as ofensas ponteadas com a cal&uacute;nia.<\/p>\n<p>Filosoficamente n&atilde;o compartilho todas as ideias do cardeal. Tampouco posso dizer que suas t&aacute;ticas e estrat&eacute;gias me pare&ccedil;am &#8211; muito pessoalmente &#8211; sempre as mais objetivas, embora respeite seu realismo pol&iacute;tico e sua perseveran&ccedil;a. Tamb&eacute;m n&atilde;o vou resumir agora os numerosos ganhos que em seu trabalho pastoral, mas, sobretudo, social, a igreja cubana obteve para grupos de pessoas e inclusive para a na&ccedil;&atilde;o, nem a pol&iacute;tica desenvolvida pelo padre Ortega para incentivar a concilia&ccedil;&atilde;o de um pa&iacute;s onde foram infligidas muitas feridas.<\/p>\n<p>Entretanto, de minha posi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;o que defende uma melhoria das condi&ccedil;&otilde;es gerais da na&ccedil;&atilde;o, me agrada pensar que com a dire&ccedil;&atilde;o do cardeal a igreja cat&oacute;lica cubana conseguiu abrir muitos espa&ccedil;os de di&aacute;logo, reflex&atilde;o, cr&iacute;tica e presen&ccedil;a social que muito necessitavam n&atilde;o s&oacute; os crentes, mas o pa&iacute;s todo.<\/p>\n<p>O fato de o cardeal ter recebido recentemente uma s&eacute;rie de ataques, muitos de car&aacute;ter pessoal, n&atilde;o pode ser casual nem espont&acirc;neo. A tentativa de diminuir sua figura e a obra da institui&ccedil;&atilde;o que encabe&ccedil;a em Cuba muito se parece a uma deprecia&ccedil;&atilde;o por tr&aacute;s da qual se movem interesses precisos, &agrave;s vezes mesquinhos. Porque o di&aacute;logo e a pol&iacute;tica de concilia&ccedil;&atilde;o, a busca de alternativas em um territ&oacute;rio onde prima o enfrentamento e a dist&acirc;ncia em um pa&iacute;s onde s&oacute; se pode ouvir as &uacute;nicas vozes de um partido, um governo e uma imprensa, n&atilde;o pode agradar a todos, especialmente aqueles que, dentro ou fora, se alimentam do confronto e do &oacute;dio.<\/p>\n<p>Para mim parece evidente que o alcan&ccedil;ado nos campos social e pol&iacute;tico pela igreja cubana nas duas &uacute;ltimas d&eacute;cadas merece o reconhecimento e a gratid&atilde;o dos que desejam e sonham com uma Cuba melhor para agora e para amanh&atilde;, com independ&ecirc;ncia de credos religiosos ou pol&iacute;ticos. Tamb&eacute;m resulta patente que os que de fora das institui&ccedil;&otilde;es oficiais e atuando fora de Cuba tentam realizar algum trabalho para mudar algum estado de coisas costumam receber sobre suas ideias o fogo cruzado dos extremistas e, na maioria das vezes, ataques &agrave;s suas pessoas, como se entre os polos opostos do diapas&atilde;o pol&iacute;tico cubano houvesse um acordo t&aacute;cito de desvalorizar sistematicamente essas tentativas de compreens&atilde;o, conviv&ecirc;ncia ou melhoria.<\/p>\n<p>Cada um dos affaires deste g&ecirc;nero, como o que agora mesmo ocorre ao redor da figura, do trabalho, da obra do cardeal Ortega Alamino, n&atilde;o pode deixar de me entristecer. Porque muito se parecem &agrave; ingratid&atilde;o e &agrave;s posturas extremistas, as quais, por mais acostumados que estejamos a sofr&ecirc;-las, s&oacute; servem para exibir protagonismos pessoais ou, no pior dos casos, para que nada mude. Ser&atilde;o o &oacute;dio e o ressentimento os sinais a marcarem o futuro da ilha?<\/p>\n<p>Pode-se ser crente ou n&atilde;o, cat&oacute;lico ou n&atilde;o, mas o que &eacute; dif&iacute;cil de admitir &eacute; a deprecia&ccedil;&atilde;o ofensiva de uma personalidade que, talvez mesmo com estrat&eacute;gias ou discursos com os quais n&atilde;o estejamos sempre de total acordo, muito se empenha em ajudar a fomentar o di&aacute;logo dentro de Cuba para que os cidad&atilde;os da ilha vivam em um pa&iacute;s melhor, disposto &agrave; concilia&ccedil;&atilde;o, mais do que ao &oacute;dio e aos fundamentalismos pol&iacute;ticos. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Leonardo Padura Fuentes &eacute; escritor e jornalista cubano, e suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas. Sua obra mais recente, O homem que amava os c&atilde;es, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ram&oacute;n Mercader.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 27\/06\/2012 &ndash; Em breve ser&atilde;o completados 50 anos da minha &uacute;ltima entrada em uma igreja cat&oacute;lica como crente. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/06\/colunistas\/coluna-cuba-dio-ou-conciliao\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1001,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[15],"class_list":["post-10224","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","tag-caribe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10224","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1001"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10224"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10224\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}