{"id":10350,"date":"2012-07-23T09:55:24","date_gmt":"2012-07-23T09:55:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10350"},"modified":"2012-07-23T09:55:24","modified_gmt":"2012-07-23T09:55:24","slug":"em-portugal-combatemos-a-doena-no-o-doente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/07\/direitos-humanos\/em-portugal-combatemos-a-doena-no-o-doente\/","title":{"rendered":"&quot;Em Portugal combatemos a doen&ccedil;a, n&atilde;o o doente&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal, 23\/07\/2012 &ndash; As pol&iacute;ticas de Portugal diante das drogas est&atilde;o ganhando visibilidade internacional desde que come&ccedil;ou a apresentar resultados a decis&atilde;o de despenalizar o consumo, adotada em 2001  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_10350\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Joao-Augusto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10350\" class=\"size-medium wp-image-10350\" title=\"O &ecirc;xito n&atilde;o &eacute; apenas pela despenaliza&ccedil;&atilde;o, insiste o m&eacute;dico Jo&atilde;o Augusto Castel-Branco Goul&atilde;o. - Mario Queiroz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Joao-Augusto.jpg\" alt=\"O &ecirc;xito n&atilde;o &eacute; apenas pela despenaliza&ccedil;&atilde;o, insiste o m&eacute;dico Jo&atilde;o Augusto Castel-Branco Goul&atilde;o. - Mario Queiroz\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10350\" class=\"wp-caption-text\">O &ecirc;xito n&atilde;o &eacute; apenas pela despenaliza&ccedil;&atilde;o, insiste o m&eacute;dico Jo&atilde;o Augusto Castel-Branco Goul&atilde;o. - Mario Queiroz\/IPS<\/p><\/div>  O modelo portugu&ecirc;s &eacute; usado como argumento em v&aacute;rios lugares do mundo, como Brasil e Uruguai, por especialistas e personalidades que se somam a uma campanha global da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU) contra a estrat&eacute;gia de proibir e reprimir.<\/p>\n<p>O arquiteto desta pol&iacute;tica, que cristalizou uma luta iniciada no final da d&eacute;cada de 1970, &eacute; o m&eacute;dico Jo&atilde;o Augusto Castel-Branco Goul&atilde;o, presidente do Instituto da Droga e da Toxicodepend&ecirc;ncia e do Conselho de Administra&ccedil;&atilde;o do Observat&oacute;rio Europeu das Drogas e das Toxicomanias. A despenaliza&ccedil;&atilde;o do consumo, embora enfrente resist&ecirc;ncia em setores pol&iacute;ticos como a direita, foi poss&iacute;vel por um &quot;sentimento social favor&aacute;vel, foi algo que emanou da sociedade&quot;, na qual quase cada fam&iacute;lia tinha um ente ou amigo com problemas de abuso, contou Goul&atilde;o &agrave; IPS, em entrevista concedida em seu escrit&oacute;rio.<\/p>\n<p>IPS: Consumir drogas em Portugal continua proibido&#8230;<\/p>\n<p>JO&Atilde;O GOUL&Atilde;O: Sim. Mas deixou de ser um alto il&iacute;cito penal, suscet&iacute;vel de ser julgado nos tribunais e de fazer parte da ficha policial. J&aacute; n&atilde;o &eacute; mais objeto de pris&atilde;o, mas uma infra&ccedil;&atilde;o administrativa, punida com multa em tribunais administrativos que chamamos de comiss&otilde;es para a dissuas&atilde;o da toxicomania, com autoridade para aplicar estas san&ccedil;&otilde;es e que t&ecirc;m a particularidade de analisar os casos sob uma &oacute;tica de sa&uacute;de para o cidad&atilde;o consumidor.<\/p>\n<p>IPS: A legisla&ccedil;&atilde;o portuguesa cumpre os acordos internacionais sobre drogas?<\/p>\n<p>JG: Quando concebemos a atual despenaliza&ccedil;&atilde;o, o contexto que o governo nos colocou estava determinado pelas Conven&ccedil;&otilde;es da ONU. A despenaliza&ccedil;&atilde;o mant&eacute;m san&ccedil;&otilde;es na esfera administrativa, o que respeita as exig&ecirc;ncias dessas Conven&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>IPS: O &ecirc;xito desta pol&iacute;tica &eacute; cada vez mais citado no resto do mundo. Quando come&ccedil;ou?<\/p>\n<p>JG: No in&iacute;cio houve grande curiosidade. Depois, como n&atilde;o havia resultados para mostrar, o interesse caiu, e s&oacute; a partir de 2009, com a divulga&ccedil;&atilde;o de um informe internacional, reapareceu um enorme interesse, que se traduz em frequentes visitas de pol&iacute;ticos, m&eacute;dicos, t&eacute;cnicos e jornalistas de todo o mundo. No entanto, o sucesso n&atilde;o &eacute; consequ&ecirc;ncia apenas de despenaliza&ccedil;&atilde;o. &Eacute; um conjunto de pol&iacute;ticas, tanto na redu&ccedil;&atilde;o na &aacute;rea da oferta quanto na da demanda, motivada por medidas de preven&ccedil;&atilde;o, tratamento, redu&ccedil;&atilde;o de danos e reinser&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p>IPS: Qual foi a g&ecirc;nese desse processo?<\/p>\n<p>JG: Antes da revolu&ccedil;&atilde;o democratizante de 1974, praticamente n&atilde;o t&iacute;nhamos problemas de drogas. &Eacute;ramos uma sociedade completamente isolada pela ditadura (1926-1974) de tudo o que ocorria no mundo. Os jovens n&atilde;o podiam sair do pa&iacute;s, exceto quando eram enviados &agrave; guerra colonial na &Aacute;frica (1961-1974) e, por outro lado, n&atilde;o &eacute;ramos um destino muito atraente para a juventude de outros pa&iacute;ses. Enquanto outras sociedades foram aprendendo paulatinamente a conviver com as drogas, n&oacute;s n&atilde;o tivemos essa oportunidade. De repente, tudo mudou com a revolu&ccedil;&atilde;o. Por um lado, regressaram da &Aacute;frica milhares de soldados e colonos, muitos deles com h&aacute;bitos de consumo, que trouxeram para Portugal toneladas de subst&acirc;ncias. Por outro lado, consumir drogas inclu&iacute;a a ideia de liberdade e houve um af&atilde; generalizado de experimenta&ccedil;&atilde;o. Trouxeram esses produtos n&atilde;o para comercializar, mas para dar aos amigos. Por&eacute;m, rapidamente surgiram organiza&ccedil;&otilde;es criminosas para explorar este novo mercado. Ignor&aacute;vamos a diferen&ccedil;a entre as drogas mais leves e a hero&iacute;na, por exemplo. As primeiras campanhas dos anos 1970 foram de terror, tais como &quot;droga, loucura, morte&quot;. Tudo se complicou com o aparecimento do HIV\/aids na d&eacute;cada seguinte, que transformou o consumo de drogas no primeiro problema dos portugueses, com uma ou mais gera&ccedil;&otilde;es completamente devastadas pelo v&iacute;cio e por doen&ccedil;as adquiridas por meio de seringas, uma criminalidade associada muito elevada e uma enorme visibilidade p&uacute;blica do fen&ocirc;meno.<\/p>\n<p>IPS: No come&ccedil;o, as respostas do Estado eram quase todas policiais.<\/p>\n<p>JG: Porque se transformou em um assunto de criminalidade. As primeiras respostas, a instala&ccedil;&atilde;o de centros de estudo e profilaxia n&atilde;o apareceram no &acirc;mbito da sa&uacute;de p&uacute;blica, mas entre as compet&ecirc;ncias do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. Diante disso, surgiram as primeiras respostas privadas, algumas extremamente lucrativas, com pessoas que se enriqueceram &agrave; custa deste fen&ocirc;meno. E os consumidores de droga se converteram em v&iacute;timas, primeiro exploradas pelos traficantes e depois pelos tratamentos.<\/p>\n<p>IPS: Quando come&ccedil;ou a mudan&ccedil;a?<\/p>\n<p>JG: Entre 1986 e 1987 surgiram os primeiros centros do Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de e a partir da&iacute; se formou uma rede nacional para dar resposta ao problema, com os centros de aten&ccedil;&atilde;o aos toxic&ocirc;manos. Em 1997, assumi a dire&ccedil;&atilde;o nacional da rede de tratamentos. No ano seguinte, com uma comiss&atilde;o de dez peritos realizamos um informe que indicava caminhos quanto a pol&iacute;ticas de preven&ccedil;&atilde;o, tratamento, redu&ccedil;&atilde;o de danos e reinser&ccedil;&atilde;o social. Uma de nossas premissas &eacute; que o usu&aacute;rio abusivo &eacute; um doente e n&atilde;o um criminoso, &eacute; algu&eacute;m que precisa de ajuda. Ent&atilde;o, propusemos despenalizar o consumo, reforma debatida no parlamento em 2000, quando havia uma maioria de esquerda que aprovou a proposta, apesar da oposi&ccedil;&atilde;o da direita. A lei foi promulgada em 2001. Considerar o usu&aacute;rio um doente e n&atilde;o um criminoso teve grande repercuss&atilde;o na sociedade portuguesa, porque o fen&ocirc;meno era transversal; era quase imposs&iacute;vel encontrar uma fam&iacute;lia que n&atilde;o tivesse problema com um filho, um sobrinho, um primo, e que sabia que n&atilde;o era criminoso, mas algu&eacute;m que precisava de apoio. Este sentimento favor&aacute;vel &agrave; despenaliza&ccedil;&atilde;o foi algo que emanou da sociedade.<\/p>\n<p>IPS: Quais s&atilde;o os &ecirc;xitos mais significativos?<\/p>\n<p>JG: Uma aproxima&ccedil;&atilde;o progressiva dos grupos mais desorganizados de consumidores &agrave;s estruturas de tratamento. Antes as pessoas tinham medo de se aproximar, temendo ser denunciadas &agrave; pol&iacute;cia. Hoje v&ecirc;m espontaneamente e n&atilde;o t&ecirc;m problemas em se identificar. Diminuiu o uso de todas as subst&acirc;ncias il&iacute;citas nas camadas mais jovens da popula&ccedil;&atilde;o. Houve uma dr&aacute;stica redu&ccedil;&atilde;o de drogas injet&aacute;veis e, como consequ&ecirc;ncia, da transmiss&atilde;o da aids. Tamb&eacute;m houve queda da criminalidade associada &agrave; droga.<\/p>\n<p>IPS: A crise econ&ocirc;mica, o desemprego e a falta de futuro para os jovens constituem preocupa&ccedil;&atilde;o quanto a um ressurgimento do v&iacute;cio?<\/p>\n<p>JG: Com a crise, apareceram alguns sinais de alarme. Reaparecem os &quot;consumos do desespero&quot;. N&atilde;o se busca o prazer, mas o al&iacute;vio das dificuldades mediante as drogas e o &aacute;lcool. Muitos de nossos antigos pacientes que n&atilde;o conseguiram retomar suas vidas normais, com a obten&ccedil;&atilde;o de emprego, por exemplo, est&atilde;o na primeira linha da fragilidade social. Na medida em que a onda de desemprego aumenta, eles s&atilde;o os primeiros descartados e, quando isso ocorre, veem o mundo que estavam construindo desmoronar como um castelo de cartas. A reca&iacute;da aparece com muita frequ&ecirc;ncia nesses casos. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Este &eacute; o primeiro de dois artigos sobre o modelo portugu&ecirc;s de despenaliza&ccedil;&atilde;o das drogas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, Portugal, 23\/07\/2012 &ndash; As pol&iacute;ticas de Portugal diante das drogas est&atilde;o ganhando visibilidade internacional desde que come&ccedil;ou a apresentar resultados a decis&atilde;o de despenalizar o consumo, adotada em 2001 <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/07\/direitos-humanos\/em-portugal-combatemos-a-doena-no-o-doente\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":919,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,11,7],"tags":[18],"class_list":["post-10350","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-politica","category-saude","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10350","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/919"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10350"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10350\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10350"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10350"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10350"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}