{"id":10376,"date":"2012-07-26T10:02:47","date_gmt":"2012-07-26T10:02:47","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10376"},"modified":"2012-07-26T10:02:47","modified_gmt":"2012-07-26T10:02:47","slug":"cuba-em-busca-do-glamour-perdido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/07\/colunistas\/cuba-em-busca-do-glamour-perdido\/","title":{"rendered":"CUBA: Em busca do glamour perdido"},"content":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 26\/07\/2012 &ndash; Enquanto a Europa se desfaz em meio a uma crise que arrasa com os pequenos neg&oacute;cios, afeta os grandes e empobrece os cidad&atilde;os, Cuba, pa&iacute;s que ao longo de 20 anos se especializou em viver na crise, parece que come&ccedil;a a se recompor e, ao faz&ecirc;-lo, at&eacute; recupera parte do esfuma&ccedil;ado glamour que alguma vez a caracterizou. <!--more--> sto n&atilde;o significa que na ilha do Caribe as coisas tenham evolu&iacute;do muito nos &uacute;ltimos tempos em rela&ccedil;&atilde;o ao que tem sido sua realidade de meio s&eacute;culo de socialismo vivido. Porque, nem as &quot;atualiza&ccedil;&otilde;es do modelo econ&ocirc;mico&quot;, como foram batizadas, nem as mudan&ccedil;as &quot;nas mentes&quot; reclamadas pelo presidente Ra&uacute;l Castro foram t&atilde;o profundas ou contundentes a ponto de se poder falar de uma situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica ou econ&ocirc;mica essencialmente diferente.<\/p>\n<p>No campo pol&iacute;tico, a falta de uma verdadeira voca&ccedil;&atilde;o evolutiva se observa em muitas manifesta&ccedil;&otilde;es, que v&atilde;o desde as declara&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas de que para sempre na Hist&oacute;ria nada mudar&aacute; no sistema pol&iacute;tico estabelecido, at&eacute; a sobreviv&ecirc;ncia das tradicionais atitudes de sigilo a respeito da informa&ccedil;&atilde;o, criticadas pelo pr&oacute;prio presidente cubano.<\/p>\n<p>Por exemplo, muito pouco se fala (ou escreve) sobre o surto de c&oacute;lera ocorrido recentemente na zona oriental do pa&iacute;s e, para os que t&ecirc;m mem&oacute;ria, fica evidente que os cubanos estiveram muito mais informados sobre a epidemia de c&oacute;lera no Haiti, depois do terremoto de 2009, do que sobre o que acontece no pa&iacute;s com o surto da doen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Tampouco se fala (ou escreve) sobre o destino do famoso cabo de fibra &oacute;tica estendido desde a Venezuela, que permitiria uma conex&atilde;o de alta velocidade aos usu&aacute;rios cubanos, uma possibilidade tecnol&oacute;gica que terminou transformada em um mist&eacute;rio sobre o qual ningu&eacute;m informa de seus postos oficiais.<\/p>\n<p>Muito menos se diz (ou escreve) por parte das autoridades, ainda at&eacute; hoje, sobre a prometida reforma das leis migrat&oacute;rias que aliviariam um pouco as absurdas regula&ccedil;&otilde;es atuais, repletas de proibi&ccedil;&otilde;es e permiss&otilde;es necess&aacute;rias para sair ou entrar no territ&oacute;rio nacional, para os viajantes cubanos radicados dentro e fora da ilha.<\/p>\n<p>Entretanto, &eacute; evidente que no campo econ&ocirc;mico, no n&iacute;vel mais elementar, produziram-se contra&ccedil;&otilde;es e altera&ccedil;&otilde;es que, inclusive, come&ccedil;am a ser vis&iacute;veis em suas manifesta&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p>Um caso revelador &eacute; a exist&ecirc;ncia de uma lista comentada dos treze restaurantes privados mais recomend&aacute;veis de Havana, que, aparentemente, foi elaborada por uma jornalista brit&acirc;nica especializada nessas qualifica&ccedil;&otilde;es e relacionada com o conhecido GuidePal.<\/p>\n<p>Nesses restaurantes privados, alguns abertos na d&eacute;cada de 1990 e outros ao calor das recentes medidas de flexibiliza&ccedil;&atilde;o da exist&ecirc;ncia da pequena empresa privada, &eacute; poss&iacute;vel degustar comida internacional, segundo dizem, de um n&iacute;vel louv&aacute;vel e em diversas modalidades e especialidades (curry e sushi inclu&iacute;dos), em ambientes ex&oacute;ticos, modernistas, t&iacute;picos cubanos e at&eacute; muito familiares, a pre&ccedil;os que s&atilde;o mais do que atraentes para um bolso norte-americano, brit&acirc;nico ou mesmo europeu continental &#8211; apesar da crise.<\/p>\n<p>Com pratos cujos pre&ccedil;os rondam os 10 CUC, os pesos convers&iacute;veis cubanos (oito euros), um comensal pode ter nestes lugares uma agrad&aacute;vel noitada, com cervejas ou at&eacute; algum vinho inclu&iacute;do, preparados pelos melhores chefes da cidade, e atendido por jovens gar&ccedil;onetes, tudo pela m&oacute;dica quantia de aproximadamente 20 euros. Ou seja, algo como um sal&aacute;rio m&eacute;dio cubano de todo um m&ecirc;s&#8230;<\/p>\n<p>No entanto, como para demonstrar que as coisas n&atilde;o mudaram muito, existe, bem perto de alguns desses restaurantes privados refinados e de sucesso, um ainda gerenciado pela empresa governamental, onde, para ser competitivo, os pre&ccedil;os s&atilde;o muito mais acess&iacute;veis. Digamos, cerca de 70 pesos cubanos (ou 3 CUC, isto &eacute;, a s&eacute;tima parte de um sal&aacute;rio m&eacute;dio mensal) por um prato nada sofisticado de comida chinesa, embora para al&iacute;vio do bolso do consumidor neste restaurante estatal n&atilde;o se faz gastos excessivos. Ali, no melhor estilo socialista, n&atilde;o h&aacute; sobremesa para terminar a refei&ccedil;&atilde;o, nem caf&eacute;, &quot;pois a m&aacute;quina est&aacute; quebrada&quot;.<\/p>\n<p>A dist&acirc;ncia entre os glamorosos restaurantes privados citados pela jornalista brit&acirc;nica e os ainda gerenciados pelo Estado, afetados por sua tradicional inefici&ecirc;ncia, marca o espa&ccedil;o entre duas realidades que se enfrentam no n&iacute;vel mais pedestre da economia cubana e que, alguma vez, se reproduzir&aacute; em outras escalas.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o abismo aberto entre qualquer das duas ofertas gastron&ocirc;micas e os sal&aacute;rios reais e oficiais cubanos &eacute; vertiginosa e altamente representativa das capacidades econ&ocirc;micas de uma maioria da popula&ccedil;&atilde;o cubana, cujos sal&aacute;rios apenas bastam para a subsist&ecirc;ncia, como tamb&eacute;m reconhece o governo.<\/p>\n<p>Por isso, enquanto o glamour regressa a certos locais de Havana onde, apesar da crise, um pequeno setor da sociedade, empreendedor e afortunado, faz sua vindima e espera as mudan&ccedil;as das leis migrat&oacute;rias para tirar f&eacute;rias em Canc&uacute;n, em um afastado rinc&atilde;o do pa&iacute;s um campon&ecirc;s de mais de 80 anos, sem aposentadoria, deve trabalhar todo o dia carregando &aacute;gua para um povoado onde o l&iacute;quido n&atilde;o chega.<\/p>\n<p>Esse campon&ecirc;s octogen&aacute;rio, al&eacute;m do mais, deve dormir junto ao cavalo que o ajuda nas tarefas, pois, se roubarem o animal, perder&aacute; sua &uacute;nica e cr&iacute;tica forma de subsist&ecirc;ncia. Para esse campon&ecirc;s, entrevistado para um document&aacute;rio apresentado pela televis&atilde;o cubana, parece que a exist&ecirc;ncia de uma lista de restaurantes em Havana, talvez recomendados por uma jornalista brit&acirc;nica, &eacute; algo t&atilde;o remoto e inacess&iacute;vel quanto a ideia de viajar para a Lua, se n&atilde;o houvesse algumas restri&ccedil;&otilde;es a isso. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Leonardo Padura Fuentes, escritor e jornalista cubano. Suas novelas foram traduzidas para mais de 15 idiomas e sua obra mais recente, O Homem que Amava os C&atilde;es, tem como personagens centrais Leon Trotski e seu assassino, Ram&oacute;n Mercader.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 26\/07\/2012 &ndash; Enquanto a Europa se desfaz em meio a uma crise que arrasa com os pequenos neg&oacute;cios, afeta os grandes e empobrece os cidad&atilde;os, Cuba, pa&iacute;s que ao longo de 20 anos se especializou em viver na crise, parece que come&ccedil;a a se recompor e, ao faz&ecirc;-lo, at&eacute; recupera parte do esfuma&ccedil;ado glamour que alguma vez a caracterizou. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/07\/colunistas\/cuba-em-busca-do-glamour-perdido\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1001,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[15],"class_list":["post-10376","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","tag-caribe"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10376","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1001"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10376"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10376\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10376"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10376"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10376"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}