{"id":1038,"date":"2005-09-26T00:00:00","date_gmt":"2005-09-26T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1038"},"modified":"2005-09-26T00:00:00","modified_gmt":"2005-09-26T00:00:00","slug":"qunia-a-parania-amaznica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/09\/america-latina\/qunia-a-parania-amaznica\/","title":{"rendered":"Qu&ecirc;nia: A paran&oacute;ia amaz&ocirc;nica"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 26\/09\/2005 &ndash; Um amplo setor da popula&ccedil;&atilde;o brasileira acredita que pot&ecirc;ncias estrangeiras pretendem se apoderar da Amaz&ocirc;nia. Este temor tem bases reais?<br \/> <!--more--> Nove em cada dez brasileiros acreditam que est&aacute; em marcha uma conspira&ccedil;&atilde;o para internacionalizar a Amaz&ocirc;nia pela ocupa&ccedil;&atilde;o estrangeira ou algum tipo de controle internacional, afirma o senador Jefferson Peres. Esta convic&ccedil;&atilde;o &eacute; t&atilde;o forte quanto inveross&iacute;mil para Peres, representante do Estado do Amazonas e do Partido Democr&aacute;tico Trabalhista (PDT) no Senado, que admite perder eleitores por discordar publicamente dela. Um dos combust&iacute;veis da teoria conspirat&oacute;ria foi uma mensagem disseminada pela Internet a partir de 2000, denunciando que livros escolares nos Estados Unidos reproduziam mapas do Brasil onde sua regi&atilde;o amaz&ocirc;nica seria apresentada como uma reserva florestal internacional.<\/p>\n<p> Mais tarde surgiu como &quot;prova&quot; a suposta p&aacute;gina do livro escolar, com um mapa da Am&eacute;rica do Sul e um texto qualificando os pa&iacute;ses amaz&ocirc;nicos de &quot;irrespons&aacute;veis, cru&eacute;is e autorit&aacute;rios&quot;, e de serem &quot;povos sem intelig&ecirc;ncia e primitivos&quot;. Por&eacute;m, erros grosseiros no texto em ingl&ecirc;s e nos n&uacute;meros desnudaram a falsifica&ccedil;&atilde;o. O diplomata Paulo Roberto de Almeida, ent&atilde;o a servi&ccedil;o na embaixada brasileira em Washington, elaborou um relat&oacute;rio sobre a fraude que pode ser lida neste endere&ccedil;o da Internet: http:\/\/www.pralmeida.org. Nele &eacute; identificado o site http:\/\/www.brasil.iwarp.com como a origem dos boatos. O lema &quot;Brasil, ame-o ou deixe-o&quot;, empregado pela ditadura militar brasileira (1964-1985) em seu per&iacute;odo mais brutal dos anos 70, indica que pertence a um grupo ultradireitista. Ironicamente, muitos esquerdistas ajudaram na divulga&ccedil;&atilde;o do alarme &quot;antiimperialista&quot;, lembrou Almeida.<\/p>\n<p> Os desmentidos e a evid&ecirc;ncia da falsifica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o interromperam os efeitos do boato. Em junho, a C&acirc;mara Municipal de Valinhos, interior do Estado de S&atilde;o Paulo, aprovou mo&ccedil;&atilde;o de protesto contra o suposto livro de geografia. Desarmar a intriga gera um trabalho adicional ao encarregado de imprensa da embaixada norte-americana em Bras&iacute;lia, Wesley Carrington, que enviou a Valinhos os documentos que comprovam a fraude. Carrington disse compreender essas rea&ccedil;&otilde;es porque h&aacute; algumas semelhantes em seu pa&iacute;s. O reconhecimento de um s&iacute;tio ou monumento como patrim&ocirc;nio cultural da humanidade &eacute; motivo de orgulho em qualquer pa&iacute;s, mas nos Estados Unidos muitos consideram como &quot;o primeiro passo para a desnacionaliza&ccedil;&atilde;o&quot;, disse o diplomata ao Terram&eacute;rica.<\/p>\n<p> Uma onda de rumores mais recente, divulgada pela Internet e imprensa, aponta para territ&oacute;rios ind&iacute;genas como verdadeiros enclaves estrangeiros, vedados a brasileiros e abertos a norte-americanos, europeus e japoneses. Os ind&iacute;genas n&atilde;o se consideram brasileiros e impedem que avi&otilde;es sobrevoem seu espa&ccedil;o a&eacute;reo, afirmou uma reportagem da revista Isto &Eacute; Dinheiro, de 11 de junho de 2004. Custa crer que os ind&iacute;genas tenham recursos para controlar o espa&ccedil;o a&eacute;reo. Organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais indigenistas e ambientalistas despertam em alguns militares e ultranacionalistas a suspeita de que servem a pot&ecirc;ncias estrangeiras, inclusive porque em muitos casos s&atilde;o financiados por fundos procedentes do exterior.<\/p>\n<p> Por &uacute;ltimo, h&aacute; um ano surgiram den&uacute;ncias de que navios estrangeiros roubavam &aacute;gua da desembocadura do Rio Amazonas. Eram navios petroleiros que, ao regressarem com seus tanques vazios para o Oriente M&eacute;dio, podem carregar at&eacute; 250 milh&otilde;es de litros de &aacute;gua como lastro para equilibrar a embarca&ccedil;&atilde;o. Os temores se intensificaram com coment&aacute;rios como os do franc&ecirc;s Pascal Lamy, novo diretor-geral da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio, que, em fevereiro, afirmou que poderia ser aplicada uma &quot;gest&atilde;o coletiva internacional&quot; na Amaz&ocirc;nia e outras florestas tropicais, se fossem declarados &quot;bens p&uacute;blicos mundiais&quot;, embora mantendo a propriedade nacional.<\/p>\n<p> N&atilde;o h&aacute; raz&atilde;o para temer essa possibilidade nem uma ocupa&ccedil;&atilde;o estrangeira da Amaz&ocirc;nia, segundo Guarino Monteiro, coronel da reserva do Ex&eacute;rcito brasileiro e professor da Escola Superior de Guerra, um centro do pensamento militar. Al&eacute;m da capa7cidade das For&ccedil;as Armadas Brasileiras, os militares do primeiro mundo &quot;n&atilde;o sabem atuar em ambiente hostil&quot;, como se viu nas invas&otilde;es norte-americanas ao Vietn&atilde; e Iraque, disse Monteiro ao Terram&eacute;rica. Por outro lado, preocupa a ocupa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, que transfere para o exterior decis&otilde;es que afetam a regi&atilde;o. &quot;Os recursos naturais do mundo s&atilde;o finitos, e a Amaz&ocirc;nia &eacute; rica em minerais como ni&oacute;bio e estanho&quot;, muito importantes para novas tecnologias como a aeroespacial, ressaltou o coronel.<\/p>\n<p> Isso desperta a cobi&ccedil;a que est&aacute; por tr&aacute;s das press&otilde;es internacionais para demarcar territ&oacute;rios ind&iacute;genas onde h&aacute; jazidas importantes, suspeita Monteiro. &quot;O primeiro mundo conhece toda a riqueza amaz&ocirc;nica por meio dos sat&eacute;lites&quot;, afirmou. Para o professor Alu&iacute;zio Leal, que ensina economia pol&iacute;tica na Universidade Federal do Par&aacute;, a Amaz&ocirc;nia j&aacute; est&aacute; internacionalizada por um controle econ&ocirc;mico que hoje interessa mais do que o pol&iacute;tico. A economia local est&aacute; &quot;vinculada de forma umbilical e submetida ao mercado internacional&quot;. Grande parte de sua produ&ccedil;&atilde;o &eacute; exportada e controlada por empresas multinacionais, como o min&eacute;rio de ferro de Caraj&aacute;s e o alum&iacute;nio que consome muita energia das centrais hidrel&eacute;tricas amaz&ocirc;nicas, exemplificou.<\/p>\n<p> Uma a&ccedil;&atilde;o militar na Amaz&ocirc;nia por parte dos Estados Unidos poderia se concretizar se os governos da regi&atilde;o negarem os recursos naturais necess&aacute;rios, especialmente energ&eacute;ticos, advertiu Leal. As press&otilde;es sobre a Venezuela, fornecedora de petr&oacute;leo para os Estados Unidos e governada por Hugo Ch&aacute;vez, s&atilde;o uma amostra, acrescentou o professor. Para muitos, a diversidade biol&oacute;gica &eacute; o recurso amaz&ocirc;nico mais amea&ccedil;ado pela cobi&ccedil;a estrangeira. A conseq&uuml;ente paran&oacute;ia contra a biopirataria est&aacute; travando as pesquisas com controles que dificultam o acesso a materiais biol&oacute;gicos, disse ao Terram&eacute;rica Charles Clement, especialista em frutas amaz&ocirc;nicas do Instituto Nacional de Pesquisa da Amaz&ocirc;nia (Inpa).<\/p>\n<p> A biopirataria &eacute; o usofruto ilegal de recursos gen&eacute;ticos e conhecimentos tradicionais vinculados a eles. Sim, existem biopiratas, mas s&atilde;o &quot;um em cem&quot; pesquisadores, afirmou Clement. Foi difundida a id&eacute;ia de que a biodiversidade equivale a lucros em forma de novos medicamentos, alimentos e cosm&eacute;ticos, mas identificar e desenvolver um produto exige muitos anos, entre 10 e 20 no caso dos rem&eacute;dios, destacou. Com financiamento para poucos anos, muitos projetos s&atilde;o interrompidos e outros nem mesmo come&ccedil;am sua execu&ccedil;&atilde;o por imposi&ccedil;&atilde;o de novas exig&ecirc;ncias, afirmou. Clement vive h&aacute; 28 anos na Amaz&ocirc;nia sem sofrer discrimina&ccedil;&otilde;es pelo fato de ser norte-americano.<\/p>\n<p> Seu compatriota Thomas Lovejoy, respeitado ecologista, conhecedora da Amaz&ocirc;nia e presidente do Centro Heinz de Washington, tampouco se queixou de constrangimentos. O temor pela internacionaliza&ccedil;&atilde;o da Amaz&ocirc;nia e pela biopirataria tal como hoje se manifesta &quot;n&atilde;o tem bases reais&quot;, disse ao Terram&eacute;rica. A biodiversidade amaz&ocirc;nica &quot;&eacute; roubada das futuras gera&ccedil;&otilde;es, mas por sua destrui&ccedil;&atilde;o&quot;, desmatamento que transforma a &aacute;rvores em di&oacute;xido de carbono, disse Lovejoy. A destrui&ccedil;&atilde;o de &aacute;rvores, especialmente por inc&ecirc;ndios, &eacute; uma forma de internacionalizar, porque o g&aacute;s liberado aquece o clima de todo o planeta, ressaltou. <\/p>\n<p> * O autor &eacute; correspondente da IPS.<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram&eacute;rica, projeto de comunica&ccedil;&atilde;o dos Programas das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu&iacute;do pela Ag&ecirc;ncia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 26\/09\/2005 &ndash; Um amplo setor da popula&ccedil;&atilde;o brasileira acredita que pot&ecirc;ncias estrangeiras pretendem se apoderar da Amaz&ocirc;nia. 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