{"id":10404,"date":"2012-07-31T10:37:02","date_gmt":"2012-07-31T10:37:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10404"},"modified":"2012-07-31T10:37:02","modified_gmt":"2012-07-31T10:37:02","slug":"pescadores-do-rio-de-janeiro-a-caminho-da-extino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/07\/america-latina\/pescadores-do-rio-de-janeiro-a-caminho-da-extino\/","title":{"rendered":"Pescadores do Rio de Janeiro a caminho da extin&ccedil;&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 31\/07\/2012 &ndash; &quot;Meus filhos ser&atilde;o qualquer coisa, mas jamais pescadores&quot;, afirmou o mais jovem dos dirigentes da Associa&ccedil;&atilde;o de Homens e Mulheres do Mar (Ahomar), o brasileiro Maicon Alexandre, de 32 anos, destacando a opini&atilde;o compartilhada por seus companheiros.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_10404\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/pescador.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10404\" class=\"size-medium wp-image-10404\" title=\"Isac de Oliveira mostra o lama&ccedil;al que sepultou uma praia de Pedra de Guaratiba, na Ba\u00c3\u00ada de Sepetiba, extremo oeste do Rio de Janeiro. - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/pescador.jpg\" alt=\"Isac de Oliveira mostra o lama&ccedil;al que sepultou uma praia de Pedra de Guaratiba, na Ba\u00c3\u00ada de Sepetiba, extremo oeste do Rio de Janeiro. - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"157\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10404\" class=\"wp-caption-text\">Isac de Oliveira mostra o lama&ccedil;al que sepultou uma praia de Pedra de Guaratiba, na Ba\u00c3\u00ada de Sepetiba, extremo oeste do Rio de Janeiro. - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Um dos que coincidem com ele &eacute; Alexandre Anderson de Souza, que vive mais intensamente o drama. &Eacute; que, al&eacute;m de ter maior responsabilidade pelo destino de seu povo pescador, sua vida pende por um fio bastante fr&aacute;gil.<\/p>\n<p>Anderson, de 41 anos e l&iacute;der do que pode ser a &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o de pescadores artesanais da Ba&iacute;a de Guanabara, foi alvo de v&aacute;rios atentados e amea&ccedil;as de morte, e agora vive com escolta permanente de dois policiais militares, mobilizados por um servi&ccedil;o oficial de prote&ccedil;&atilde;o impactado pela quantidade de conflitos que se tenta resolver a tiros por todo o Brasil. Esse risco nada tem de abstrato. Desde 2009, foram assassinados quatro membros da Ahomar pr&oacute;ximos a Anderson.<\/p>\n<p>Os dois &uacute;ltimos morreram afogados em junho, depois de serem jogados nas &aacute;guas onde pescavam com m&atilde;os e p&eacute;s atados, um deles com seu barco furado por tiros. A pol&iacute;cia ainda n&atilde;o esclareceu nenhum caso. &quot;Foi uma tortura, os fizeram morrer aos poucos&quot; no mesmo lugar de trabalho, como um aviso aos seus colegas, denunciou Anderson, uma das 30 pessoas mais amea&ccedil;adas na lista da Comiss&atilde;o Pastoral da Terra, &oacute;rg&atilde;o da Igreja Cat&oacute;lica que anualmente divulga um informe sobre conflitos no campo brasileiro.<\/p>\n<p>No ano passado, havia quase 350 dirigentes sociais em risco de vida, segundo o &uacute;ltimo informe da Pastoral divulgado em maio. Desafiar a morte somou-se &agrave; miss&atilde;o que a dire&ccedil;&atilde;o da Associa&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a a admitir como quase imposs&iacute;vel: preservar na Ba&iacute;a de Guanabara as condi&ccedil;&otilde;es ambientais para continuar com a pesca artesanal. Esta ba&iacute;a, em cuja costa sudoeste foi fundada a cidade do Rio de Janeiro, tem cerca de 22 mil pescadores registrados. &quot;Mas hoje apenas seis mil fam&iacute;lias vivem dessa atividade&quot;, distribu&iacute;das em cinco &quot;col&ocirc;nias&quot;, estimou Anderson.<\/p>\n<p>A pesca esteve normal at&eacute; 2000. &quot;N&atilde;o permitia uma vida maravilhosa, mas digna&quot;, conseguia-se pescar at&eacute; cem quilos em um dia bom, mas &quot;hoje n&atilde;o se chega a dez quilos&quot;, afirmou Paulo C&eacute;sar, de 56 anos e na atividade desde os 11, na qual ingressou pelas m&atilde;os de seu pai e de seu av&ocirc; em Mag&eacute;, munic&iacute;pio ao norte da ba&iacute;a. Em janeiro de 2000, de um oleoduto constru&iacute;do entre uma refinaria e um porto da regi&atilde;o vazaram 1,3 milh&atilde;o de litros de petr&oacute;leo, contaminando cerca de 50 quil&ocirc;metros quadrados, equivalentes a 12% da superf&iacute;cie da ba&iacute;a, incluindo mangues, ilhas e praias.<\/p>\n<p>A vida aqu&aacute;tica n&atilde;o se recuperou desse golpe, segundo os pescadores, embora a Petrobras, respons&aacute;vel pelo acidente, alegue ter realizado estudos que comprovam o &ecirc;xito do r&aacute;pido esfor&ccedil;o de descontamina&ccedil;&atilde;o, e que em 2011 j&aacute; estava recuperado o volume anterior de pescado. Contudo, a pesca na ba&iacute;a, rodeada pela regi&atilde;o metropolitana do Rio de Janeiro, com 12 milh&otilde;es de habitantes, est&aacute; condenada tamb&eacute;m pela pr&oacute;pria opera&ccedil;&atilde;o normal da economia petroleira que vive forte expans&atilde;o nas proximidades desta cidade, segundo Anderson.<\/p>\n<p>H&aacute; 16 oleodutos que cruzam a Ba&iacute;a de Guanabara, por onde passam petr&oacute;leo, derivados e g&aacute;s, entre a refinaria Duque de Caxias e armaz&eacute;ns e unidades processadoras instaladas em duas ilhas no centro da ba&iacute;a e em portos pr&oacute;ximos. A isso somam-se embarcadouros e navios em quantidade crescente que, como as tubula&ccedil;&otilde;es, geram &quot;zonas de exclus&atilde;o&quot; de centenas de metros onde &eacute; proibido pescar, vigiadas por seguran&ccedil;as particulares que &quot;disparam contra os barcos pesqueiros que se aproximam&quot;, acusou Paulo C&eacute;sar, mostrando fotos de embarca&ccedil;&otilde;es perfuradas por disparos.<\/p>\n<p>Os oleodutos, com petr&oacute;leo quente para garantir sua fluidez ou muito frio para transportar gases, fazem variar muito a temperatura da &aacute;gua, afugentando os peixes. O mesmo efeito produz o barulho e a trepida&ccedil;&atilde;o desses equipamentos, pelos quais se bombeia o petr&oacute;leo a alta press&atilde;o, explicou Anderson. O Complexo Petroqu&iacute;mico do Estado do Rio de Janeiro, cuja inaugura&ccedil;&atilde;o est&aacute; prevista para 2015, ampliar&aacute; essa infraestrutura e a atividade petroleira na Ba&iacute;a de Guanabara.<\/p>\n<p>Sua localiza&ccedil;&atilde;o no munic&iacute;pio de Itabora&iacute;, nordeste da regi&atilde;o metropolitana, se justifica pela infraestrutura log&iacute;stica local e pela &quot;sinergia&quot; com unidades da empresa j&aacute; existentes do outro lado da ba&iacute;a, segundo dirigentes da Petrobras, tamb&eacute;m dona do projeto, que compreende uma refinaria para 165 mil barris di&aacute;rios de petr&oacute;leo e sete unidades petroqu&iacute;micas.<\/p>\n<p>A essa contamina&ccedil;&atilde;o acrescenta-se a produzida pelo esgoto urbano e de numerosas ind&uacute;strias menores vizinhas, que vem se acumulando e crescendo junto com a quantidade de habitantes da regi&atilde;o. Um programa de descontamina&ccedil;&atilde;o da ba&iacute;a custou muit&iacute;ssimo dinheiro sem que se obtivessem bons resultados. A Ahomar, com seus 1.873 s&oacute;cios e sua pobre sede na praia Mau&aacute; do munic&iacute;pio de Mag&eacute;, enfrenta poderes &quot;muito desproporcionais&quot; para suas for&ccedil;as, afirmou Anderson, referindo-se &agrave; Petrobras &#8211; que em 2011 ficou em 23&ordm; entre as maiores empresas do mundo, segundo a revista norte-americana Fortune &#8211; e a outros interesses petroleiros.<\/p>\n<p>Sua mobiliza&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, mostrou for&ccedil;a em abril de 2009, quando os pescadores bloquearam, com seus pequenos e numerosos barcos, a instala&ccedil;&atilde;o de um novo oleoduto. Durante a manifesta&ccedil;&atilde;o, Anderson sofreu um atentado a tiros e, tr&ecirc;s semanas depois, o tesoureiro da Ahomar, Paulo Santos, foi torturado e executado diante de sua fam&iacute;lia. &quot;Somos uma esp&eacute;cie em extin&ccedil;&atilde;o&quot;, resumiu. Ele, como seus companheiros, descende de uma fam&iacute;lia de pescadores de v&aacute;rios s&eacute;culos. &quot;Os camar&otilde;es saltavam na praia&quot;, recorda Ezelina Moren, lamentando o desaparecimento dos crust&aacute;ceos que capturava desde crian&ccedil;a. Aos 58 anos, tem seis filhos, tr&ecirc;s deles pescadores. &quot;Mas meus netos n&atilde;o o ser&atilde;o&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>Anderson de Souza se converteu em uma refer&ecirc;ncia internacional entre afetados por projetos de hidrocarbonos. Convidado a visitar locais de conflito, esteve na Argentina, Col&ocirc;mbia e no Equador, onde a Petrobras desistiu de explorar jazidas no Parque Nacional Yasun&iacute;, diante da oposi&ccedil;&atilde;o ind&iacute;gena. Al&eacute;m disso, participou de uma sess&atilde;o da Comiss&atilde;o de Direitos Humanos da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (ONU), em Genebra, e levou sua experi&ecirc;ncia a colegas pescadores de v&aacute;rios Estados brasileiros que enfrentam press&otilde;es semelhantes.<\/p>\n<p>Ao redor do Rio de Janeiro, a tradi&ccedil;&atilde;o pesqueira de s&eacute;culos tamb&eacute;m parece chegar ao fim. Na Ba&iacute;a de Sepetiba, extremo oeste da cidade, a pesca profissional &quot;n&atilde;o vai durar mais que cinco anos&quot;, disse Isac de Oliveira, presidente da Associa&ccedil;&atilde;o de Pescadores de Pedra de Guaratiba, um bairro local. Esta antiga praia, &quot;onde jog&aacute;vamos futebol&quot;, foi coberta por 1,5 metro de lama, contou &agrave; IPS, enquanto mostrava na enseada todo um sintoma da deteriora&ccedil;&atilde;o ambiental. Um porto de exporta&ccedil;&atilde;o de min&eacute;rios e produtos sider&uacute;rgicos mais um polo industrial pr&oacute;ximo provocaram essa sedimenta&ccedil;&atilde;o e o desequil&iacute;brio ecol&oacute;gico, afirmou.<\/p>\n<p>Isac, por&eacute;m, formou um disc&iacute;pulo de 17 anos. &quot;Trabalha comigo desde que tinha oito&quot; e tem a voca&ccedil;&atilde;o t&iacute;pica dos pescadores, observou. Ao completar 18 anos, ter&aacute; o registro profissional para que no futuro &quot;possa dizer que foi pescador, preservando a mem&oacute;ria&quot; de uma tradi&ccedil;&atilde;o da Ba&iacute;a de Sepetiba, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 31\/07\/2012 &ndash; &quot;Meus filhos ser&atilde;o qualquer coisa, mas jamais pescadores&quot;, afirmou o mais jovem dos dirigentes da Associa&ccedil;&atilde;o de Homens e Mulheres do Mar (Ahomar), o brasileiro Maicon Alexandre, de 32 anos, destacando a opini&atilde;o compartilhada por seus companheiros. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/07\/america-latina\/pescadores-do-rio-de-janeiro-a-caminho-da-extino\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,6,5,11],"tags":[],"class_list":["post-10404","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-economia","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10404","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10404"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10404\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10404"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10404"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10404"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}