{"id":10495,"date":"2012-08-16T11:18:57","date_gmt":"2012-08-16T11:18:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10495"},"modified":"2012-08-16T11:18:57","modified_gmt":"2012-08-16T11:18:57","slug":"coluna-o-auge-do-capitalismo-moderno-e-o-ocaso-da-poltica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/mundo\/coluna-o-auge-do-capitalismo-moderno-e-o-ocaso-da-poltica\/","title":{"rendered":"COLUNA: O auge do &quot;capitalismo moderno&quot; e o ocaso da pol&iacute;tica"},"content":{"rendered":"<p>S&atilde;o Salvador de Bahamas, Bahamas, 16\/08\/2012 &ndash; Algum dia ser&aacute; necess&aacute;rio refletir sobre o impacto da queda do Muro de Berlim, tanto no mundo dos vencedores como no dos vencidos. <!--more--> Os vencedores do comunismo foram os pol&iacute;ticos, que tinham &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o a for&ccedil;a militar e as novas tecnologias. As corpora&ccedil;&otilde;es tiveram um papel fundamental, mas indireto at&eacute; ent&atilde;o. E os defensores do Ocidente daquela &eacute;poca (estamos falando de 1988), apresentavam como modelo um capitalismo que hoje est&aacute; em vias de extin&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esse capitalismo havia se confrontado com as lutas sociais que se seguiram &agrave; Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial e incorporara progressivamente valores como justi&ccedil;a social, participa&ccedil;&atilde;o e democracia na base da organiza&ccedil;&atilde;o social. Um capitalismo que aceitara os sindicatos, os acordos entre sindicatos e empresas, e o trabalho como um direito fundamental.<\/p>\n<p>No come&ccedil;o de julho, David Brooks, comentarista do conservador The New York Times, saiu em defesa do &quot;capitalismo moderno&quot;, observando que a cobi&ccedil;a &eacute; um forte est&iacute;mulo para o sucesso. Afirmou que, se foram deslocados centenas de milhares de postos de trabalho, &eacute; porque o &quot;capitalismo moderno&quot; tem uma vis&atilde;o global, n&atilde;o meramente nacional.<\/p>\n<p>Isto implicou a cria&ccedil;&atilde;o de outros tantos postos de trabalho em pa&iacute;ses do Terceiro Mundo, o que &eacute; objetivamente um resultado de profundo significado social. Segundo Brooks, o capitalismo moderno continua sendo o &uacute;nico motor da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>Este tipo de l&oacute;gica seria impens&aacute;vel antes da queda do Muro de Berlim. A ningu&eacute;m ocorreria elogiar a cobi&ccedil;a e apresentar como uma ideia positiva a elimina&ccedil;&atilde;o de milh&otilde;es de postos de trabalho, em nome de maiores lucros para as empresas. O fato de isto ser lido em um jornal respeit&aacute;vel demonstra como o mundo est&aacute; mudando.<\/p>\n<p>O motor do &quot;capitalismo moderno&quot; &eacute; a finan&ccedil;a, n&atilde;o a ind&uacute;stria. A ind&uacute;stria foi o motor do velho capitalismo. Em um breve per&iacute;odo os capitais se concentraram nas finan&ccedil;as para obter maiores ganhos do que com a ind&uacute;stria.<\/p>\n<p>&Eacute; ilustrativo saber que, em 2010, o valor m&eacute;dio da produ&ccedil;&atilde;o mundial de bens e servi&ccedil;os em um dia era de quase US$ 1 trilh&atilde;o, enquanto no mesmo per&iacute;odo as transa&ccedil;&otilde;es financeiras chegavam a US$ 40 trilh&otilde;es. As transa&ccedil;&otilde;es quadruplicaram entre 2004 e 2010.<\/p>\n<p>A incapacidade da pol&iacute;tica para controlar as finan&ccedil;as &eacute; a raz&atilde;o da for&ccedil;a avassaladora do &quot;capitalismo moderno&quot;. Longe de defender e aplicar as constitui&ccedil;&otilde;es, a pol&iacute;tica se converteu em um instrumento a servi&ccedil;o dos mercados. N&atilde;o sei quanto notaram, mas at&eacute; agora nenhuma fraude do sistema financeiro levou &agrave; pris&atilde;o um banqueiro (recordo que Bernard Madoff era um indiv&iacute;duo, n&atilde;o um banco).<\/p>\n<p>Como &eacute; not&oacute;rio, o &uacute;ltimo grande esc&acirc;ndalo, a manipula&ccedil;&atilde;o da taxa interbanc&aacute;ria Libor, revelou uma associa&ccedil;&atilde;o il&iacute;cita entre um seleto grupo de bancos.<\/p>\n<p>Um deles, o ingl&ecirc;s Barclays, foi multado em US$ 450 milh&otilde;es. Seu executivo chefe, Bob Diamond, que havia declarado no inverno passado que &quot;j&aacute; &eacute; hora de se deixar de atacar os banqueiros&quot;, teve que se demitir. E, embora n&atilde;o agrade ao senhor Diamond, em lugar de &quot;bankers&quot;, volta a ser utilizado o termo &quot;bankster&quot;, que esteve no auge durante a Grande Depress&atilde;o de 1929.<\/p>\n<p>Um presidente democrata daqueles tempos, Franklin D. Roosevelt, introduziu f&eacute;rreas regras sobre as finan&ccedil;as, que foram abolidas, uma ap&oacute;s outra, come&ccedil;ando com as desregulamenta&ccedil;&otilde;es do presidente Ronald Reagan, para culminar em 1999, quando o presidente Bill Clinton cancelou a lei Glass-Steagall de 1933 sobre separa&ccedil;&atilde;o de bancos comerciais e de investimentos.<\/p>\n<p>O grave problema atual, ao contr&aacute;rio da &eacute;poca da Revolu&ccedil;&atilde;o Industrial, &eacute; que o sistema pol&iacute;tico, o fiel das constitui&ccedil;&otilde;es, perdeu legitimidade, especialmente entre os jovens. e a cada dia se subordina em maior grau &agrave;s finan&ccedil;as.<\/p>\n<p>A campanha eleitoral norte-americana deste ano passar&aacute; dos US$ 4 bilh&otilde;es. E o candidato republicano Mitt Romney tem um tesouro de guerra superior ao do presidente Barack Obama. Isto foi facilitado porque uma decis&atilde;o da Suprema Corte permite que as corpora&ccedil;&otilde;es fa&ccedil;am doa&ccedil;&otilde;es ilimitadas.<\/p>\n<p>Se a pol&iacute;tica n&atilde;o voltar a se fundamentar em valores, entraremos em uma era de populismo, com tristes perspectivas. Os partidos de direita ou de evas&atilde;o ganham espa&ccedil;o na Europa, desde o caso da Hungria ao partido dos piratas na Alemanha ou ao de Beppe Grillo na It&aacute;lia.<\/p>\n<p>A deriva direitista do Partido Republicano nos Estados Unidos, sob a influ&ecirc;ncia do Tea Party, &eacute; muito maior do que a de George W. Bush sob a influ&ecirc;ncia dos neoconservadores.<\/p>\n<p>Bush tinha como ideologia o sonho americano, Romney a ideologia das elites financeiras e religiosas mais conservadoras. Se vencer as elei&ccedil;&otilde;es, poderemos esquecer de tentar atenuar a mudan&ccedil;a clim&aacute;tica, que para ele n&atilde;o &eacute; um problema real, mas uma conspira&ccedil;&atilde;o contra as empresas de petr&oacute;leo.<\/p>\n<p>Os detalhes da vida di&aacute;ria s&atilde;o janelas para a sociedade. Descobre-se agora que supermercados, restaurantes e bares est&atilde;o aumentando os decib&eacute;is da m&uacute;sica de fundo porque se comprovou que quanto mais barulho mais os clientes consomem.<\/p>\n<p>Um estudo publicado pela revista Alcoholism: Clinical &amp; Experimental Research demonstra que, em um bar com a m&uacute;sica em 72 decib&eacute;is, os clientes consumiam uma m&eacute;dia de 2,6 copos, em 14,5 minutos cada um. Se o volume da m&uacute;sica aumentasse para 88 decib&eacute;is, a m&eacute;dia aumentava para 3,4 copos, e cada em apenas 11,5 minutos.<\/p>\n<p>Por exemplo, o restaurante Beaumarchais&#39;, de Nova York, coloca a m&uacute;sica em 99 decib&eacute;is e as mesas s&atilde;o liberadas mais rapidamente. Segundo as leis norte-americanas de prote&ccedil;&atilde;o ao trabalhador, nesse n&iacute;vel n&atilde;o se permite mais do que 19 minutos sem prote&ccedil;&atilde;o ac&uacute;stica.<\/p>\n<p>&quot;Estamos manipulando? Certamente&quot;, afirmou Jon Taffer, dono de restaurantes, consultor sobre a vida noturna e apresentador do reality show Bar Rescue (Salvando Bares). &quot;Meu trabalho &eacute; enfiar minha m&atilde;o no seu bolso t&atilde;o fundo quanto voc&ecirc; gosta. &Eacute; um neg&oacute;cio de manipula&ccedil;&atilde;o&quot;, ressaltou.<\/p>\n<p>O &quot;capitalismo moderno&quot; est&aacute; chegando aos bares, aos restaurantes e &agrave;s lojas. N&atilde;o &eacute; algo apenas da City ou de Wall Street. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Roberto Savio &eacute; fundador e presidente em&eacute;rito da ag&ecirc;ncia de not&iacute;cias IPS (Inter Press Service) e editor do Other News.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S&atilde;o Salvador de Bahamas, Bahamas, 16\/08\/2012 &ndash; Algum dia ser&aacute; necess&aacute;rio refletir sobre o impacto da queda do Muro de Berlim, tanto no mundo dos vencedores como no dos vencidos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/mundo\/coluna-o-auge-do-capitalismo-moderno-e-o-ocaso-da-poltica\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":375,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,5,4,11],"tags":[],"class_list":["post-10495","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-economia","category-mundo","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10495","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/375"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10495"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10495\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10495"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10495"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10495"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}