{"id":1050,"date":"2005-09-28T00:00:00","date_gmt":"2005-09-28T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1050"},"modified":"2005-09-28T00:00:00","modified_gmt":"2005-09-28T00:00:00","slug":"energia-a-ndia-se-afasta-do-no-alinhamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/09\/mundo\/energia-a-ndia-se-afasta-do-no-alinhamento\/","title":{"rendered":"Energia: A &Iacute;ndia se afasta do n&atilde;o-alinhamento"},"content":{"rendered":"<p>Nova D&eacute;lhi, 28\/09\/2005 &ndash; Ao votar a favor do pux&atilde;o de orelhas no Ir&atilde;, promovido pelo Ocidente na Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia At&ocirc;mica (AIEA), a &Iacute;ndia afastou-se de sua tradicional pol&iacute;tica de n&atilde;o-alinhamento. Com exce&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos acordos firmados com os Estados Unidos sobre coopera&ccedil;&atilde;o nuclear civil e militar, parte de uma &quot;alian&ccedil;a estrat&eacute;gica&quot; cada vez mais estreita, a decis&atilde;o a respeito do Ir&atilde; constitui a maior mudan&ccedil;a na pol&iacute;tica externa indiana, desde a independ&ecirc;ncia do regime colonial brit&acirc;nico em 1947. Segundo Gulshan Dietl, um especialista em &Aacute;sia ocidental na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Jawaharlal Nehru, ao dar &quot;este passo vergonhoso&quot;, a &Iacute;ndia se mostra como uma prostituta que defende os interesses de Washington mais dos que os seus pr&oacute;prios.<br \/> <!--more--> <br \/> A resolu&ccedil;&atilde;o da Junta de Governadores da AIEA, uma das ag&ecirc;ncias da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, foi tomada no s&aacute;bado, ao final de uma semana de press&otilde;es e manipula&ccedil;&atilde;o em Viena, sede da ag&ecirc;ncia, e em outras capitais, em torno de um projeto da Alemanha, Fran&ccedil;a e Gr&atilde;-Bretanha. Os tr&ecirc;s pa&iacute;ses, reunidos sob a denomina&ccedil;&atilde;o UE-3 (Uni&atilde;o Europ&eacute;ia-3), dizem estar fazendo um papel de mediadores entre Estados Unidos e Ir&atilde;. Teer&atilde; insiste em dizer que suas atividades nucleares s&atilde;o totalmente pac&iacute;ficas e que est&atilde;o dentro dos direitos e obriga&ccedil;&otilde;es emanados do Tratado de N&atilde;o-Prolifera&ccedil;&atilde;o Nuclear (TNP). A AIEA n&atilde;o disse que o Ir&atilde; violava o Tratado, apenas que n&atilde;o revelava tudo sobre sua hist&oacute;ria de enriquecimento de ur&acirc;nio, que data dos anos 70.<\/p>\n<p> Contudo, os Estados Unidos alegam que o Ir&atilde; est&aacute; empenhado em desenvolver armas nucleares e quer que estes planos sejam discutidos pelo Conselho de Seguran&ccedil;a da ONU para a ado&ccedil;&atilde;o de poss&iacute;veis san&ccedil;&otilde;es. A resolu&ccedil;&atilde;o final, adotada s&aacute;bado, foi uma vers&atilde;o modificada do projeto original do UE-3. N&atilde;o chegou a enviar o Ir&atilde; para o Conselho de Seguran&ccedil;a, mas preparou o terreno para isso, citando a hist&oacute;ria de &quot;ocultamentos&quot; de a&ccedil;&otilde;es nucleares iranianas e o informe do diretor-geral da AIEA sobre elas, e reclamou de Teer&atilde; o fim de toda atividade relacionada com o enriquecimento de ur&acirc;nio.<\/p>\n<p> Mais ainda, o texto afirma que o &quot;n&atilde;o-cumprimento&quot; pelo Ir&atilde; das disposi&ccedil;&otilde;es do TNP e do estatuto da AIEA &quot;cria quest&otilde;es que est&atilde;o dentro da compet&ecirc;ncia do Conselho de Seguran&ccedil;a&quot;, devido &agrave; sua responsabilidade de manter &quot;a paz e a seguran&ccedil;a internacionais&quot;. A resolu&ccedil;&atilde;o fornece a base para o pr&oacute;ximo passo l&oacute;gico: remeter a quest&atilde;o nuclear iraniana ao Conselho e aumentar a press&atilde;o sobre Teer&atilde; para que desmantele seu programa at&ocirc;mico. A mo&ccedil;&atilde;o obteve 22 votos a favor e um contra (da Venezuela), com absten&ccedil;&atilde;o de 12 pa&iacute;ses, entre eles Brasil, R&uacute;ssia, China, M&eacute;xico, &Aacute;frica do Sul e Paquist&atilde;o.<\/p>\n<p> Washington se mostrou triunfante com a resolu&ccedil;&atilde;o e expressou sua gratid&atilde;o &agrave; &Iacute;ndia por seu voto. Teer&atilde;, por seu lado, expressou indigna&ccedil;&atilde;o e condenou a resolu&ccedil;&atilde;o como &quot;ilegal e inaceit&aacute;vel&quot;. A decis&atilde;o da &Iacute;ndia de votar com os Estados Unidos foi tomada ainda antes de o primeiro-ministro, Manmohan Singh (no poder desde maio de 2004), visitar, em meados do m&ecirc;s, Fran&ccedil;a e Estados Unidos, onde se reuniu com o presidente George W. Bush, segundo revelou o jornal The Hindu, na semana passada. &Eacute; prov&aacute;vel que a crise em torno das atividades nucleares do Ir&atilde; piore, o que derrubar&aacute; o argumento de Nova D&eacute;lhi de que votou para dar mais espa&ccedil;o a uma solu&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica e porque o texto evitou uma refer&ecirc;ncia imediata ao Conselho de Seguran&ccedil;a.<\/p>\n<p> Insolitamente, a &Iacute;ndia deixou expressas v&aacute;rias advert&ecirc;ncias e reservas sobre a resolu&ccedil;&atilde;o, opondo-se a &quot;que o Ir&atilde; seja declarado desobediente a seus compromissos&quot; e recha&ccedil;ando que &quot;a situa&ccedil;&atilde;o atual possa constituir uma amea&ccedil;a para a paz e a seguran&ccedil;a internacionais&quot;. Estas obje&ccedil;&otilde;es &quot;se referem &agrave; pr&oacute;pria subst&acirc;ncia da mo&ccedil;&atilde;o, e teriam justificado pelo menos uma absten&ccedil;&atilde;o, sen&atilde;o um voto contra&quot;, disse Hamid Ansari, ex-embaixador da &Iacute;ndia no Ir&atilde; e especialista em &Aacute;sia ocidental que acompanhou de perto o debate da AIEA sobre o Ir&atilde;. Al&eacute;m disso, a &Iacute;ndia acompanhou seu voto com o pretexto de que havia persuadido o UE-3 a modificar um texto originalmente mais duro. Como suas preocupa&ccedil;&otilde;es foram levadas em conta na proposta final, n&atilde;o teria sido apropriado abster-se, argumentou Nova D&eacute;lhi.<\/p>\n<p> &quot;Por&eacute;m, o rascunho era um mero estratagema&quot;, disse Ansari. &quot;O UE-3 sabia que n&atilde;o seria aprovado e divulgou o texto suavizado no &uacute;ltimo minuto, for&ccedil;ando, assim, um voto no qual a &Iacute;ndia rompeu fileiras com v&aacute;rios pa&iacute;ses do Movimento dos N&atilde;o-Alinhados, como Brasil, &Aacute;frica do Sul e Mal&aacute;sia, que atualmente preside esse grupo&quot;. Durante a reuni&atilde;o da AIEA, o UE-3 j&aacute; n&atilde;o atuava de modo independente, mas como suced&acirc;neo dos Estados Unidos. E a &Iacute;ndia acabou sendo o suced&acirc;neo do suced&acirc;neo, desprezando sua independ&ecirc;ncia. Isto indica uma diplomacia muito pobre perante os N&atilde;o-Alinhados e uma pol&iacute;tica externa confusa&quot;, acrescentou Ansari. O Movimento dos N&atilde;o-Alinhados surgiu na &eacute;poca da Guerra Fria, como um grupo de pa&iacute;ses do Sul em desenvolvimento que resistiam a se colocar de um ou outro lado do confronto entre Estados Unidos e Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica.<\/p>\n<p> Durante d&eacute;cadas, os N&atilde;o-Alinhados atuaram em un&iacute;ssono na AIEA. Nesta ocasi&atilde;o, o grupo se mostrou dividido, com pa&iacute;ses como Peru, Gana e Equador dando as m&atilde;os aos Estados Unidos e &agrave; UE, enquanto na&ccedil;&otilde;es mais ativas dentro do movimento, como Brasil, Mal&aacute;sia, &Aacute;frica do Sul e M&eacute;xico, se abstinham. &quot;O voto de Nova D&eacute;lhi vai contra o interesse nacional e reduzir&aacute; muito a estatura global e a credibilidade do pa&iacute;s. Se a &Iacute;ndia pode apunhalar pelas costas um pa&iacute;s amig&aacute;vel como o Ir&atilde;, apesar de suas poucas rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e pol&iacute;ticas, muitas outras na&ccedil;&otilde;es deixar&atilde;o de confiar nela&quot;, disse Dietl.<\/p>\n<p> De fato, &eacute; prov&aacute;vel que esta decis&atilde;o coloque em perigo um grande projeto em negocia&ccedil;&atilde;o: a constru&ccedil;&atilde;o de um gasoduto entre Ir&atilde; e &Iacute;ndia, passando pelo Paquist&atilde;o, que tem grande apoio interno e &eacute; considerado fundamental para promover a paz e a prosperidade em toda a regi&atilde;o da &Aacute;sia ocidental e meridional, bem como a abertura de uma via &agrave;s riquezas energ&eacute;ticas da &Aacute;sia central. A decis&atilde;o do governo de Manmohan Singh se materializou sob en&eacute;rgicos ataques internos, tanto da esquerda quanto da direita.<br \/> A esquerda, aliada crucial da coaliz&atilde;o governante que o Partido do Congresso lidera, considera o voto na AIEA como uma &quot;trai&ccedil;&atilde;o&quot; &agrave; tradicional solidariedade com os pa&iacute;ses n&atilde;o-alinhados e em desenvolvimento e um sinal de ter sucumbido &agrave; press&atilde;o dos Estados Unidos. Esse voto converte &quot;virtualmente&quot; a &Iacute;ndia em aliada e prostituta de Washington, afirmou a esquerda. O partido direitista e pr&oacute;-hindu Bharatiya Janata tamb&eacute;m rejeitou a decis&atilde;o de votar favoravelmente &agrave; resolu&ccedil;&atilde;o do UE-3, e acusou o governo de ter dado &quot;sub-repticiamente&quot; um giro em sua pol&iacute;tica externa.<\/p>\n<p> Jaswant Singh, que foi ministro de Rela&ccedil;&otilde;es Exteriores nos anos em que o Bharatiya Janata esteve no poder (1998-2004), disse que o governo estava &quot;propalando a confus&atilde;o sobre assuntos pol&iacute;ticos muito importantes que afetam diretamente a seguran&ccedil;a nacional&quot;. Segundo Singh, um sinal de interroga&ccedil;&atilde;o agora paira sobre a proposta do gasoduto, especialmente porque o governo se negou a explicar &quot;se o projeto continua ou n&atilde;o valendo&quot;. Um ex-funcion&aacute;rio do Conselho de Seguran&ccedil;a, durante o governo do Bharatiya Janata, manifestou o temor de que &quot;o voto (na AIEA) reduza o poder de negocia&ccedil;&atilde;o da &Iacute;ndia perante os Estados Unidos e cause suspeitas na China&quot;.<\/p>\n<p> Nova D&eacute;lhi nega energicamente que seu voto estivesse vinculado ao seu desejo de que o Congresso norte-americano aprove um tratado de coopera&ccedil;&atilde;o nuclear de longo alcance, assinado em julho entre &Iacute;ndia e Estados Unidos. Entretanto, o jornal The New York Times e outros meios de imprensa informaram que Washington estabeleceu explicitamente esse v&iacute;nculo e, em meados de setembro, informou Singh de que a &Iacute;ndia &quot;devia escolher entre Ir&atilde; e Estados Unidos&quot;. A preocupa&ccedil;&atilde;o indiana em &quot;clarear&quot; a situa&ccedil;&atilde;o de seus armamentos nucleares se tornou uma obsess&atilde;o. &quot;Isto est&aacute; levando Nova D&eacute;lhi a se colar ao regime global baseado no TNP, embora este pa&iacute;s nem mesmo seja signat&aacute;rio desse tratado&quot;, disse Dietl. &quot;Definitivamente, o voto na AIEA &eacute; notoriamente um mau neg&oacute;cio e anuncia a capitula&ccedil;&atilde;o da &Iacute;ndia diante dos Estados Unidos&quot;, concluiu. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova D&eacute;lhi, 28\/09\/2005 &ndash; Ao votar a favor do pux&atilde;o de orelhas no Ir&atilde;, promovido pelo Ocidente na Ag&ecirc;ncia Internacional de Energia At&ocirc;mica (AIEA), a &Iacute;ndia afastou-se de sua tradicional pol&iacute;tica de n&atilde;o-alinhamento. Com exce&ccedil;&atilde;o dos &uacute;ltimos acordos firmados com os Estados Unidos sobre coopera&ccedil;&atilde;o nuclear civil e militar, parte de uma &quot;alian&ccedil;a estrat&eacute;gica&quot; cada vez mais estreita, a decis&atilde;o a respeito do Ir&atilde; constitui a maior mudan&ccedil;a na pol&iacute;tica externa indiana, desde a independ&ecirc;ncia do regime colonial brit&acirc;nico em 1947. Segundo Gulshan Dietl, um especialista em &Aacute;sia ocidental na Escola de Estudos Internacionais da Universidade Jawaharlal Nehru, ao dar &quot;este passo vergonhoso&quot;, a &Iacute;ndia se mostra como uma prostituta que defende os interesses de Washington mais dos que os seus pr&oacute;prios.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/09\/mundo\/energia-a-ndia-se-afasta-do-no-alinhamento\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":827,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-1050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/827"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1050"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1050\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}