{"id":10514,"date":"2012-08-20T11:25:30","date_gmt":"2012-08-20T11:25:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10514"},"modified":"2012-08-20T11:25:30","modified_gmt":"2012-08-20T11:25:30","slug":"hidreltrica-inundar-santurio-indgena-na-amaznia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/america-latina\/hidreltrica-inundar-santurio-indgena-na-amaznia\/","title":{"rendered":"Hidrel&eacute;trica inundar&aacute; santu&aacute;rio ind&iacute;gena na Amaz&ocirc;nia"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 20\/08\/2012 &ndash; As Sete Quedas do Rio Teles Pires, que corre entre os Estados amaz&ocirc;nicos de Mato Grosso e Par&aacute;, no centro do Brasil, s&atilde;o um o&aacute;sis espiritual venerado pelos ind&iacute;genas kayabi. <!--more--> Mas esses saltos rochosos, com cascatas de 20 metros de altura, podem ficar definitivamente cobertos pela represa de uma central hidrel&eacute;trica que inundaria uma superf&iacute;cie de 95 quil&ocirc;metros quadrados. &quot;&Eacute; uma &aacute;rea sagrada, nossa m&atilde;e criadora. O pag&eacute; diz que &eacute; ali que os peixes desovam&quot;, declarou &agrave; IPS por telefone desde a regi&atilde;o Jo&atilde;o Kayabi, de 52 anos. Ele &eacute; cacique da aldeia Kururuzinho, onde vivem 106 habitantes desse povo que fala uma l&iacute;ngua da fam&iacute;lia tupi-guarani.<\/p>\n<p>Para os kayabis, a paisagem de Sete Quedas &eacute; um dos lugares que os humanos jamais deveriam tocar, porque &eacute; a morada de um deus respons&aacute;vel pelo equil&iacute;brio natural. &quot;Estar&aacute; sob a &aacute;gua e somente permanecer&aacute; a lembran&ccedil;a. Tentamos impedir isso&quot;, lamentou Jo&atilde;o. Outros dois povos veneram as rochas de Sete Quedas: os apiak&aacute;s e os mundurukus. Para estes &uacute;ltimos, s&atilde;o a &quot;m&atilde;e dos peixes&quot; e a morada de seus antepassados. &quot;Os mundurukus dizem que o rio vai secar, que faltar&aacute; alimento e os peixes acabar&atilde;o. Espero que n&atilde;o&quot;, disse Jo&atilde;o.<\/p>\n<p>Estudos sobre a biodiversidade do curso do rio, feitos pela estatal Empresa de Pesquisa Energ&eacute;tica, identificaram quase 700 esp&eacute;cies vegetais e mais de 200 peixes, como surubi pintado, dourado e ja&uacute;, entre outros. Estima-se que o Teles Pires seja um dos melhores rios do mundo para a pesca. Na terra ind&iacute;gena onde fica a aldeia de Jo&atilde;o Kayabi, 293 pessoas vivem da ca&ccedil;a, pesca e coleta de frutos. &quot;At&eacute; agora nossa terra &eacute; bastante abundante, mas nos preocupa como ser&aacute; daqui para frente e se faltar&aacute; alimento Receio muito por meus filhos, n&atilde;o sei o que ser&aacute; de suas vidas&quot;, afirmou o cacique e pai de sete filhos.<\/p>\n<p>A hidrel&eacute;trica de Teles Pires ter&aacute; capacidade de gera&ccedil;&atilde;o de 1.820 megawatts (MW). Contudo, a empresa concession&aacute;ria enfrenta uma batalha judicial para finalizar as obras. A justi&ccedil;a vai e vem com senten&ccedil;as de paralisa&ccedil;&atilde;o da constru&ccedil;&atilde;o. A obra colide com as cren&ccedil;as, os costumes e as tradi&ccedil;&otilde;es dos kayabis, mundurukus e apiak&aacute;s (12 mil pessoas no total), explicou a indigenista Juliana de Paula Batista, que assessora organiza&ccedil;&otilde;es abor&iacute;gines do sudoeste amaz&ocirc;nico.<\/p>\n<p>Nos primeiros dias de agosto o Tribunal Regional Federal da Primeira Regi&atilde;o ordenou a suspens&atilde;o das obras. Por&eacute;m, ap&oacute;s uma apela&ccedil;&atilde;o da Procuradoria Geral da Uni&atilde;o e do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama), no dia 14 a suspens&atilde;o ficou sem efeito. Existe um despojo dos &quot;recursos naturais imprescind&iacute;veis para que os ind&iacute;genas possam manter sua vida e sua cultura&quot;, alertou Juliana. No come&ccedil;o deste ano, o Minist&eacute;rio P&uacute;blico Federal entrou com uma a&ccedil;&atilde;o civil para anular a licen&ccedil;a ambiental, concedida pelo Ibama em agosto de 2011, e dispor sua paralisa&ccedil;&atilde;o imediata.<\/p>\n<p>Segundo a advogada, o processo de autoriza&ccedil;&atilde;o ambiental tem falhas. &quot;Em momento algum foram corretamente dimensionados os impactos nas terras ind&iacute;genas&quot;, alegou. &quot;A central coloca em risco os peixes, o s&iacute;tio sagrado, a qualidade da &aacute;gua, as esp&eacute;cies raras e end&ecirc;micas, a vegeta&ccedil;&atilde;o geral e a ca&ccedil;a&quot;, ressaltou. Apesar de n&atilde;o haver reassentamento das tribos, em suas aldeias h&aacute; o temor de permanecer na &aacute;rea &quot;porque, em caso de acidentes, como rompimento da represa, as &aacute;guas as arrasariam&quot;, detalhou. Os kayabis est&atilde;o a apenas 50 quil&ocirc;metros da represa. &quot;N&atilde;o h&aacute; rem&eacute;dio quando &eacute; um plano do governo, n&atilde;o temos como nos opor. A &uacute;nica forma &eacute; buscar apoio e orienta&ccedil;&atilde;o. A obra vai sair e o preju&iacute;zo ser&aacute; nosso, podemos perder nossos direitos&quot;, lamentou Jo&atilde;o.<\/p>\n<p>Uma das irregularidades apontadas pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico &eacute; a falta de consulta pr&eacute;via com os povos afetados. Em mar&ccedil;o as obras j&aacute; haviam sido suspensas em resposta ao pedido fiscal. A empresa concession&aacute;ria, Companhia Hidrel&eacute;trica Teles Pires, respondeu que &quot;todas as audi&ecirc;ncias p&uacute;blicas foram realizadas na presen&ccedil;a dos interessados e foram gravadas&quot;, segundo uma nota divulgada pela justi&ccedil;a. A Teles Pires faz parte do Programa de Acelera&ccedil;&atilde;o do Crescimento (PAC), iniciado pelo governo de Luiz In&aacute;cio Lula da Silva (2003-2011). Seu cronograma indica que dever&aacute; estar conclu&iacute;da em agosto de 2015, com custo de US$ 1,97 bilh&atilde;o. Segundo a empresa, ter&aacute; capacidade para abastecer 2,7 milh&otilde;es de fam&iacute;lias. A energia gerada se somar&aacute; ao sistema interligado nacional.<\/p>\n<p>Na Amaz&ocirc;nia, h&aacute; uma luta aberta contra dezenas de centrais hidrel&eacute;tricas, travada principalmente nos tribunais. No dia 13, o mesmo Tribunal Regional Federal ordenou a paralisa&ccedil;&atilde;o da constru&ccedil;&atilde;o de Belo Monte, no Rio Xingu. A constru&ccedil;&atilde;o de 30 centrais na regi&atilde;o amaz&ocirc;nica deve ser alvo de &quot;urgente debate na sociedade&quot;, opinou a coordenadora do Observat&oacute;rio de Investimentos na Amaz&ocirc;nia, Alessandra Cardoso. Esta pesquisadora do Instituto de Estudos Socioecon&ocirc;micos, &eacute; autora de A Corrida por Megawatts: 30 Hidrel&eacute;tricas na Amaz&ocirc;nia Legal, uma nota t&eacute;cnica publicada em 26 de julho.<\/p>\n<p>Cada central, em especial grandes obras &quot;como Jirau, Santo Ant&ocirc;nio, Belo Monte, Teles Pires, S&atilde;o Luiz do Tapaj&oacute;s, j&aacute; exigem isoladamente uma grande discuss&atilde;o sobre seus custos sociais e ambientais e quanto aos impactos que s&atilde;o imposs&iacute;veis de mitigar&quot;, disse Alessandra em entrevista &agrave; IPS. &quot;Como medir e avaliar, por exemplo, a destrui&ccedil;&atilde;o de Sete Quedas? Como avaliar as consequ&ecirc;ncias socioambientais de milhares de migrantes que deixam a regi&atilde;o onde &eacute; instalada uma dessas grandes obras?&quot;, questionou.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, deve-se avaliar os efeitos do conjunto destas obras e o desordenamento territorial que provocam em &quot;zonas de floresta densa, de alt&iacute;ssima concentra&ccedil;&atilde;o de biodiversidade, que se mant&eacute;m assim justamente pela ocupa&ccedil;&atilde;o dispersa e ecologicamente amig&aacute;vel das popula&ccedil;&otilde;es tradicionais&quot;, ressaltou. Estas quest&otilde;es limitam a capacidade que tem o processo de licen&ccedil;a ambiental de obter uma avalia&ccedil;&atilde;o realista de custos e impactos das hidrel&eacute;tricas amaz&ocirc;nicas, explicou a especialista.<\/p>\n<p>Uma estrat&eacute;gia para fazer crescer o PIB<\/p>\n<p>Como contribui&ccedil;&atilde;o ao debate, o Instituto de Estudos Socioecon&ocirc;micos est&aacute; construindo uma base de dados sobre cada uma das obras, &quot;para que n&atilde;o sejam perdidas informa&ccedil;&otilde;es relevantes que tornam expl&iacute;citas muitas contradi&ccedil;&otilde;es, disputas e tens&otilde;es que ocorrem ao longo do desenvolvimento de cada uma&quot;, pontuou Alessandra. Tamb&eacute;m s&atilde;o inclu&iacute;dos dados econ&ocirc;micos e financeiros, composi&ccedil;&atilde;o acion&aacute;ria das empresas, volume de investimentos e financiamentos.<\/p>\n<p>O governo de Dilma Rousseff pretende investir US$ 50 bilh&otilde;es nas hidrel&eacute;tricas da Amaz&ocirc;nia. Entretanto, este c&aacute;lculo &quot;considera apenas as obras maiores. Se for contabilizado o conjunto de 30 projetos, os valores s&atilde;o muito maiores&quot;, acrescentou a coordenadora do Observat&oacute;rio. Em sua opini&atilde;o, isto mostra que &quot;a vis&atilde;o do governo vai muito al&eacute;m da gera&ccedil;&atilde;o el&eacute;trica. Trata-se de uma estrat&eacute;gia de crescimento do produto interno bruto baseada na demanda gerada por esse enorme canteiro de obras em que a Amaz&ocirc;nia est&aacute; sendo transformada&quot;. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 20\/08\/2012 &ndash; As Sete Quedas do Rio Teles Pires, que corre entre os Estados amaz&ocirc;nicos de Mato Grosso e Par&aacute;, no centro do Brasil, s&atilde;o um o&aacute;sis espiritual venerado pelos ind&iacute;genas kayabi. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/america-latina\/hidreltrica-inundar-santurio-indgena-na-amaznia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,10],"tags":[27],"class_list":["post-10514","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-energia","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10514","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10514"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10514\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10514"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10514"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10514"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}