{"id":10534,"date":"2012-08-23T09:08:33","date_gmt":"2012-08-23T09:08:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10534"},"modified":"2012-08-23T09:08:33","modified_gmt":"2012-08-23T09:08:33","slug":"em-moambique-as-chamadas-pessoas-da-alemanha-esto-espera-dos-seus-salrios-h-22-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/africa\/em-moambique-as-chamadas-pessoas-da-alemanha-esto-espera-dos-seus-salrios-h-22-anos\/","title":{"rendered":"Em Mo&ccedil;ambique, as chamadas &quot;Pessoas da Alemanha&quot; est&atilde;o &agrave; espera dos seus sal&aacute;rios h&aacute; 22 anos"},"content":{"rendered":"<p>MAPUTO, 23\/08\/2012 &ndash; Todas as quartas-feiras &agrave;s 11 da manh&atilde; Jos&eacute; Alfredo Cossa desfralda a bandeira da Alemanha de Leste e lidera uma marcha com perto de 150 homens e mulheres pelas principais ruas de Maputo, a capital mo&ccedil;ambicana. <!--more--> Numa luta pela justi&ccedil;a que remonta a mais de 20 anos, este grupo, conhecido como &quot;Magermans&quot;, representa os 16.000 a 20.000 Mo&ccedil;ambicanos que foram enviados para a antiga Alemanha de Leste no in&iacute;cio dos anos 80 para trabalharem e servirem o seu pa&iacute;s. <\/p>\n<p> &quot;H&aacute; 22 anos que fazemos manifesta&ccedil;&otilde;es para recebermos o sal&aacute;rio que ganh&aacute;mos na Alemanha. Continuamos a faz&ecirc;-lo porque temos a certeza que um dia v&atilde;o pagar,&quot; explicou Cossa. &quot;Na Europa aprendemos a fazer manifesta&ccedil;&otilde;es pac&iacute;ficas. Onde &eacute; que em &Aacute;frica &eacute; que se faz uma manifesta&ccedil;&atilde;o como esta?&quot; perguntou. &quot;Magermans&quot; &eacute; um nome local para os que vieram da Alemanha. <\/p>\n<p>Os transeuntes viram-se para olhar enquanto passa a prociss&atilde;o. Soprando apitos, batendo tambores, cantando e dan&ccedil;ando, o ambiente carnavalesco desta manifest&ccedil;&atilde;o contradiz a luta cont&iacute;nua quea anima. <\/p>\n<p>Quando Mo&ccedil;ambique conquistou a independ&ecirc;ncia em 1975, centenas de milhares de trabalhadores portugueses qualificados deixaram o pa&iacute;s quase de um dia para o outro, com um impacto devastador na economia do pa&iacute;s. Em 1979 o novo governo de esquerda do Presidente Samora Machel firmou um acordo com a Alemanha de Leste socialista no sentido de enviar homens e algumas mulheres mo&ccedil;ambicanas para aquele pa&iacute;s europeu para estudarem, receberem forma&ccedil;&atilde;o como aprendizes e trabalharem nas empresas estatais da antiga Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica Alem&atilde;, ou RDA, as chamadas Volkseigener Betriebe, com o objectivo de um dia regressarem ao seu pa&iacute;s com novas t&eacute;cnicas para ajudar a reconstru&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&quot;Fui para a Alemanha de Leste para aprender carpintaria quando tinha 21 anos e na altura deram-me um contrato de quatro anos. Os outros foram contratados para cortarem &aacute;rvores e trabalharem em matadouros ou na ind&uacute;stria do carv&atilde;o,&quot; disse Cossa. <\/p>\n<p>L&aacute;zaro Magalh&atilde;es a Escova &eacute; outro &quot;Magerman&quot; que agora trabalha como administrador na ICMA, o Instituto Cultural Mo&ccedil;ambique-Alemanha em Maputo. &quot;Havia muitas raz&otilde;es para os homens quererem partir para a Alemanha de Leste. Vinham de prov&iacute;ncias diferentes para escapar &agrave; guerra, &agrave; fome ou ao recrutamento for&ccedil;ado nas for&ccedil;as armadas. Quanto a mim, queria ver a Europa. Antes de partir recebi dois dias de forma&ccedil;&atilde;o inicial antes de entrar no avi&atilde;o.&quot; <\/p>\n<p>Os trabalhadores receberam 40 por cento dos seus sal&aacute;rios em numer&aacute;rio e os outros 60 por cento eram enviados para Mo&ccedil;ambique. &quot;Disseram-nos que, quando regress&aacute;ssemos, haveria uma conta banc&aacute;ria &agrave; nossa espera,&quot; contou Magalh&atilde;es. <\/p>\n<p>Trabalharam at&eacute; ao final dessa d&eacute;cada, altura em que as tens&otilde;es na Alemanha de Leste aumentaram, culminando na queda do Muro de Berlim em 1989. &quot;Fic&aacute;mos contentes quando as barreiras foram eliminadas mas tinhamos receio dos cabe&ccedil;as rapadas e dos neo-nazis que n&atilde;o gostavam de estrangeiros. Est&aacute;vamos preocupados com o que poderia acontecer se deix&aacute;ssemos de ter protec&ccedil;&atilde;o governamental,&quot; disse Magalh&atilde;es.<\/p>\n<p>&quot;Depois da unifica&ccedil;&atilde;o ouvimos dizer que as f&aacute;bricas estatais iriam ser encerradas e que o governo mo&ccedil;ambicano nos dava uma escolha. &quot;Ou voc&ecirc;s ficam por conta pr&oacute;pria ou pagamos o vosso bilhete de regresso.&quot;<\/p>\n<p>Muitos decidiram regressar mas a decis&atilde;o n&atilde;o foi f&aacute;cil. &quot;Algumas das mulheres e filhos vieram at&eacute; ao aeroporto. As mulheres choravam pediam aos maridos que n&atilde;o partissem,&quot; recordou Magalh&atilde;es.<\/p>\n<p>Apesar disso, aqueles que regressaram pensavam que era o in&iacute;cio de um novo e pr&oacute;spero futuro. &quot;Tinhamos muitas expectativas. Eu planeava estabelecer a minha pr&oacute;pria empresa de carpintaria a fazer janelas, portas e mob&iacute;lia antes de trazer a minha namorada da Alemanha. Mas, quando cheg&aacute;mos, o dinheiro tinha desaparecido. O governo gastara tudo e as minhas esperan&ccedil;as esfumaram-se,&quot; afirmou Cossa. <\/p>\n<p>Embora o governo alem&atilde;o tenha mantido registos demonstrando que o dinheiro foi enviado, parece que as contas individuais nunca foram abertas pelo governo em Mo&ccedil;ambique. <\/p>\n<p>Os &quot;Magermans&quot; tamb&eacute;m tiveram dificuldade em adaptar-se &agrave; vida no seu pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&quot;Os nossos vizinhos vestiam trapos e n&oacute;s cheg&aacute;mos vestidos como senhores. N&atilde;o havia televis&otilde;es nem v&iacute;deos em Mo&ccedil;ambique. Fomos n&oacute;s que os trouxemos,&quot; disse Cossa.<\/p>\n<p>Muitos tamb&eacute;m verificaram que as suas compet&ecirc;ncias de trabalho recentemente adquiridas n&atilde;o podiam ser usadas. &quot;V&aacute;rios homens tinham trabalhado em f&aacute;bricas de montagem de autom&oacute;veis para a Trabant, mas quando chegaram a Mo&ccedil;ambique verificaram que mal se viam autom&oacute;veis e n&atilde;o havia ind&uacute;stria autom&oacute;vel,&quot; explicou Magalh&atilde;es. Com os seus &quot;modos europeus&quot;, sobressaiam dos demais e foi nessa altura que ficaram conhecidos localmente como &quot;Magermans&quot;.<\/p>\n<p>Alguns destes trabalhadores encontraram empregos, havendo pelo menos um &quot;Magerman&quot; que abriu uma s&eacute;rie de padarias bem sucedidas em v&aacute;rias partes de Maputo. Por&eacute;m, &agrave; medida que passavam os meses, a maioria n&atilde;o conseguiu arranjar trabalho ou dinheiro e, um ano depois de regressarem, come&ccedil;aram a fazer manifesta&ccedil;&otilde;es de protesto &agrave; porta do Minist&eacute;rio do Trabalho. <\/p>\n<p>&quot;Est&aacute;vamos s&oacute; a pedir aquilo que, por direito, nos pertencia mas o governo enviou pol&iacute;cias armados para lidar connosco,&quot; lembrou Magalh&atilde;es. Os protestos continuaram at&eacute; hoje, sendo o problema empurrado de um Minist&eacute;rio para outro sem qualquer resolu&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Em 2002 foram feitos inqu&eacute;ritos oficiais junto das autoridades alem&atilde;s para verificar se a quest&atilde;o podia ser resolvida. Um documento em posse dos &quot;Magermans&quot;, divulgado pelo Minist&eacute;rio Federal das Finan&ccedil;as da Alemanha, indica que a antiga RDA pagou 74.4 milh&otilde;es de dol&aacute;res em sal&aacute;rios e 18.6 milh&otilde;es de dol&aacute;res para a seguran&ccedil;a social, montantes estes que equivalem aproximadamente a perto de 5.000 dol&aacute;res por cada trabalhador. O governo mo&ccedil;ambicano concordou que devia um montante mais pequeno e come&ccedil;ou a fazer pagamentos de 10.000 a 15.000 meticais (entre 370 a 550 dol&aacute;res) a alguns dos trabalhadores. <\/p>\n<p>Ao longo dos anos, muitos dos homens perderam o contacto com as fam&iacute;lias que deixaram para tr&aacute;s. Agora, com quase trinta anos, alguns filhos t&ecirc;m visitado Mo&ccedil;ambique &agrave; procura dos seus pais. O ICMA &eacute; um dos locais que contactam primeiro. <\/p>\n<p>&quot;Recebemos e-mails das fam&iacute;lias quase todos os dias. Uma rapariga chegou a Mo&ccedil;ambique e encontrou o pai a viver numa palhota feita de tijolos de barro e folhas de palmeira. Ficou junto dele durante algum tempo mas acabou por lev&aacute;-lo de volta para a Alemanha,&quot; disse Magalh&atilde;es. <\/p>\n<p>Cossa explicou que a pr&oacute;xima etapa dos &quot;Magermans&quot; era conseguir agendar uma reuni&atilde;o com a Primeira-Ministra, Luisa Diogo. <\/p>\n<p>&quot;J&aacute; fizemos um pedido formal nesse sentido mas ainda nada foi agendado. Pode ser que demore algum tempo antes de o conseguirmos, mas j&aacute; estamos &agrave; espera h&aacute; 22 anos. Que diferen&ccedil;a faz se demorarmos mais alguns meses? N&atilde;o vamos desistir enquanto tivermos for&ccedil;a.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAPUTO, 23\/08\/2012 &ndash; Todas as quartas-feiras &agrave;s 11 da manh&atilde; Jos&eacute; Alfredo Cossa desfralda a bandeira da Alemanha de Leste e lidera uma marcha com perto de 150 homens e mulheres pelas principais ruas de Maputo, a capital mo&ccedil;ambicana. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/africa\/em-moambique-as-chamadas-pessoas-da-alemanha-esto-espera-dos-seus-salrios-h-22-anos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1282,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10534","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10534","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1282"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10534"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10534\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10534"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10534"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10534"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}