{"id":10535,"date":"2012-08-23T09:10:42","date_gmt":"2012-08-23T09:10:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10535"},"modified":"2012-08-23T09:10:42","modified_gmt":"2012-08-23T09:10:42","slug":"67-minutos-de-vergonha-no-aniversrio-dos-94-anos-de-nelson-mandela-cone-sul-africano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/africa\/67-minutos-de-vergonha-no-aniversrio-dos-94-anos-de-nelson-mandela-cone-sul-africano\/","title":{"rendered":"67 minutos de vergonha no anivers&aacute;rio dos 94 anos de Nelson Mandela, &iacute;cone Sul-Africano"},"content":{"rendered":"<p>Joanesburgo, 23\/08\/2012 &ndash; Wendy Hlophe* ainda est&aacute; visivelmente entristecida com a morte da sua amiga de longa data, Sanna Supa, de 28 anos, que foi assassinada a tiro fora de casa em Braamficherville, uma cidade sul-africana. <!--more--> Hlophe culpa-se a si pr&oacute;pria pela morte inesperada de Supa. Supa, uma l&eacute;sbica que tinha tornado p&uacute;blica a sua identidade sexual h&aacute; tr&ecirc;s anos, era uma das poucas mulheres l&eacute;sbicas que assumira publicamente a sua identidade a residir naquela na cidade. Era administradora escolar no Liceu de Snake Park em Dobsonville, no Soweto, e foi assassinada quando parava o seu carro &agrave; porta de casa no dia 1 de Julho. Hlophe disse &agrave; IPS que se sentia respons&aacute;vel pela morte de Supa porque era conhecida como l&eacute;sbica na sua cidade e que tinha apoiado Supa quando esta revelara a sua identidade publicamente. Supa receia que o facto de serem amigas pode ter levado Supa a ser vista como um alvo. <\/p>\n<p>&quot;Crescemos na mesma rua e muitas vezes as pessoas viam-nos juntas,&quot; contou &agrave; IPS. <\/p>\n<p>&quot;Fiquei chocada e n&atilde;o podia acreditar que ela tinha morrido. Era uma pessoa muito boa,&quot; acrescentou.<\/p>\n<p>Na altura da morte de Supa, o F&oacute;rum para a Autonomiza&ccedil;&atilde;o das Mulheres (FEW) referiu que o motivo do crime se baseava na identidade sexual da v&iacute;tima, uma vez que nem o seu ve&iacute;culo nem os seus pertences tinham sido roubados.<\/p>\n<p>&quot;Ser&aacute; que somos as &uacute;nicas pessoas neste pa&iacute;s que falamos destas mortes &#8230; as pessoas que s&atilde;o assassinadas n&atilde;o s&atilde;o suficientemente humanas ou cidad&atilde;os de pleno direito?&quot; perguntou a FEW num comunicado emitido na altura. <\/p>\n<p>O crime certamente que n&atilde;o &eacute; algo de novo na &Aacute;frica do Sul. Supa &eacute; uma das 10 l&eacute;sbicas que foram mortas em toda a &Aacute;frica do Sul no &uacute;ltimo m&ecirc;s devido &agrave; sua identidade sexual, afirmou Jabu Pereira, activista dos direitos humanos e do g&eacute;nero. Os homossexuais s&atilde;o vitimizados diariamente em toda a &Aacute;frica do Sul. <\/p>\n<p>Em Fevereiro, quatro homens sul-africanos foram condenados a penas de 18 anos por terem apredejado e esfaqueado at&eacute; &agrave; morte em 2006, Zoliswa Nkonyana, uma adolescente l&eacute;sbica de 19 anos que tinha assumido abertamente a sua identidade sexual. A viol&ecirc;ncia contra as l&eacute;sbicas &eacute; comum num pa&iacute;s com elevados ind&iacute;ces de &quot;viola&ccedil;&otilde;es correctivas&quot; cometidas por homens que acreditam que podem &quot;curar&quot; as l&eacute;sbicas da sua orienta&ccedil;&atilde;o sexual. <\/p>\n<p>Portanto, quando o anivers&aacute;rio que marcou os 94 anos do primeiro presidente eleito democraticamente na &Aacute;frica do Sul e &iacute;cone mundial teve lugar no dia 18 de Julho, os activistas que defendem os direitos dos homossexuais afirmaram que n&atilde;o tinham nada a celebrar. <\/p>\n<p>E os 67 minutos que os Sul-Africanos s&atilde;o encorajados a contribuir para um servi&ccedil;o comunit&aacute;rio neste dia, s&iacute;mbolo dos 67 anos que Mandela passou a lutar pela liberdade do seu povo, foram considerados um falhan&ccedil;o. <\/p>\n<p>Os activistas do g&eacute;nero e as organiza&ccedil;&otilde;es de direitos humanos apelidaram o anivers&aacute;rio como um dia de vergonha para o governo sul-africano e o Congresso Nacional Africano (ANC) no poder, do qual Mandela ainda &eacute; membro, devido &agrave; incapacidade de impedirem crimes de &oacute;dio contra as pessoas l&eacute;sbicas, homossexuais, bissexuais e transexuais (LGBT).<\/p>\n<p>Os activistas acusaram o actual governo de ter virado as costas a tudo o que o Presidente Mandela defendeu, durante uma manifesta&ccedil;&atilde;o pac&iacute;fica nos Jardins da Biblioteca no centro da cidade de Joanesburgo no dia 18 de Julho. <\/p>\n<p>Mais de cem pessoas LGBT e v&aacute;rias organiza&ccedil;&otilde;es civis e de direitos humanos juntaram-se para protestar contra a crescente viol&ecirc;ncia, viola&ccedil;&atilde;o, intoler&acirc;ncia e falta de resposta por parte do governo para resolver este problema. Referiram que o sil&ecirc;ncio do governo, no meio da crescente onda de crimes de &oacute;dio, tinha exacerbado a situa&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>&quot;Temos vergonha dos nossos l&iacute;deres e estamos fartos do seu sil&ecirc;ncio,&quot; disse Pereira, referindo-se &agrave; falta de resposta do governo. <\/p>\n<p>Os organizadores dos protestos tamb&eacute;m condenaram os coment&aacute;rios homof&oacute;bicos feitos por um membro do ANC no parlamento, Nkosi Patekile Holomisa, depois da apresenta&ccedil;&atilde;o de um documento apresentado pela C&acirc;mara dos L&iacute;deres Tradicionais e entregue ao Comit&eacute; de Revis&atilde;o Constitucional do parlamento, que prop&otilde;e a elimina&ccedil;&atilde;o das cl&aacute;usulas constitucionais que protegem as pessoas da discrimina&ccedil;&atilde;o com base na sua orienta&ccedil;&atilde;o ou identidade sexual. <\/p>\n<p>Holomisa &eacute; um advogado que trabalha no Tribunal Supemo, l&iacute;der tradicional, presidente do Comit&eacute; de Revis&atilde;o Constitucional e ainda presidente do Congresso dos L&iacute;deres Tradicionais da &Aacute;frica do Sul. <\/p>\n<p>Holomisa disse igualmente numa entrevista em Maio de 2012: &quot;O ANC sabe que a grande maioria dos Sul-Africanos n&atilde;o quer promover ou proteger os direitos dos homossexuais ou l&eacute;sbicas.&quot; Na entrevista, afirmou que n&atilde;o iria retrair os seus coment&aacute;rios, acrescentando que &quot;Na regi&atilde;o de onde venho, estas coisas n&atilde;o s&atilde;o apoiadas nem aceites.&quot; <\/p>\n<p>Contudo, o partido no poder distanciou-se destas opini&otilde;es. &quot;O ANC acredita que qualquer lei que recusa &agrave;s pessoas o seu direito de express&atilde;o sexual as desvaloriza na nossa sociedade abrangente e, como tal, &eacute; uma afronta &agrave; sua dignidade e uma viola&ccedil;&atilde;o do Artigo 9&deg; da nossa Constitui&ccedil;&atilde;o.&quot; <\/p>\n<p>Entretanto, Wandile Ntubeni* sentou-se perto dos Jardins da Biblioteca a ver o grupo de manifestantes a cantar e a dan&ccedil;ar na pra&ccedil;a. <\/p>\n<p>Ntubeni, de 35 anos e com tr&ecirc;s filhos, afirmou que o que ouvira sobre a discrimina&ccedil;&atilde;o e a viol&ecirc;ncia contra os homossexuais o deixara aborrecido. &Eacute; trabalhador migrante do Cabo Oriental onde, segundo afirma, n&atilde;o tinha contacto com homossexuais e l&eacute;sbicas. Disse ainda &agrave; IPS que era errado o governo continuar a manter o sil&ecirc;ncio sobre esta quest&atilde;o. <\/p>\n<p>&quot;Culpo o governo, precisa de desempenhar um papel de lideran&ccedil;a no debate sobre como resolver a quest&atilde;o e ajudar-nos a compreender como devemos lidar com este problema. Algumas coisas s&oacute; podem ser aceites se o governo ou o partido no poder nos der lideran&ccedil;a.&quot; <\/p>\n<p>O pr&oacute;prio Ntubeni n&atilde;o conseguiu explicar a raz&atilde;o porque o assassinato violento parece ser a &uacute;nica resposta que alguns dirigem contra as l&eacute;sbicas. <\/p>\n<p>&quot;As pessoas t&ecirc;m o direito de decidir o que querem fazer com o corpo,&quot; concluiu. <\/p>\n<p>Quando falava, a directora do Projecto de Igualdade dos Homossexuais e L&eacute;sbicas, Virginia Setshedi, orientava os manifestantes que protestavam para os escrit&oacute;rios do ANC, em local directamente oposto aos Jardins da Biblioteca. <\/p>\n<p>&quot;J&aacute; chega!&quot; gritou a alguns funcion&aacute;rios do ANC, incluindo pol&iacute;cias, que estavam de costas para as paredes do pr&eacute;dio. Alguns tro&ccedil;avam enquanto que outros davam risadinhas e murmuravam &quot;Isto &eacute; uma perca de tempo&quot;, quanto ela leu as exig&ecirc;ncias dos manifestantes, que apelaram ao governo que quebrasse o seu sil&ecirc;ncio sobre esta quest&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;Isto n&atilde;o &eacute; uma brincadeira!&quot; gritou ela com a voz a fraquejar. &quot;Isto &eacute; uma quest&atilde;o de vida ou de morte e n&oacute;s n&atilde;o vamos desaparecer.&quot; <\/p>\n<p>O director eleitoral do ANC, Mandla Dlamini, recebeu o memorando e afirmou que o partido iria examinar o documento e formular uma resposta a seu devido tempo.<\/p>\n<p>Entretanto, a trag&eacute;dia do tratamento frequentemente violento e humilhante das pessoas LGBT na &Aacute;frica do Sul continua a ser uma dura realidade. <\/p>\n<p>E a morte violenta de Supa &eacute; algo que Hlophe n&atilde;o vai esquecer. <\/p>\n<p>&quot;Era como uma irm&atilde; para mim e continuo a n&atilde;o conseguir falar com a m&atilde;e,&quot; disse quase a chorar. <\/p>\n<p>&quot;Ela estava contente quando veio visitar a m&atilde;e,&quot; acrescentou. <\/p>\n<p>Uma vig&iacute;lia nocturna teve lugar no dia 18 de Julho no museu da Pris&atilde;o das Mulhere,s no Tribunal Constitucional, em Joanesburgo. <\/p>\n<p>Foi a altura de relembrar todos aqueles que foram assassinados violentamente durante crimes de &oacute;dio entre 2001 e Julho de 2012:<\/p>\n<p>Ivan Johannes, Zoliswa Nkonyana, Madoe Mafubedu, Simangele Nhlapho, Sizakele Sigasa, Salome Massoa, Thokozane Qwade, Waldo Bester, Eudy Simelane, Khanyiswa Loyi Hani, Desmond &quot;Daisy&quot; Dube, Neil Daniels, Sibongile Mphelo, Girly S&#39;Gelane Nkosi, Noxolo Magwaza, Nqobile Khumalo, Pessoa n&atilde;o identificada, Nontsikelelo Tyatyeka, Pessoa n&atilde;o identificada, Thapelo Makhutle, Phumeza Nkolozi, Sasha Lee Gordon, Andrithat Thapelo Morifi, e Sanna Supa.<\/p>\n<p> * Alteraram-se os nomes para proteger a identidade das pessoas<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joanesburgo, 23\/08\/2012 &ndash; Wendy Hlophe* ainda est&aacute; visivelmente entristecida com a morte da sua amiga de longa data, Sanna Supa, de 28 anos, que foi assassinada a tiro fora de casa em Braamficherville, uma cidade sul-africana. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/africa\/67-minutos-de-vergonha-no-aniversrio-dos-94-anos-de-nelson-mandela-cone-sul-africano\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":485,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10535","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10535","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/485"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10535"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10535\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10535"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10535"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10535"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}