{"id":10551,"date":"2012-08-27T12:15:30","date_gmt":"2012-08-27T12:15:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10551"},"modified":"2012-08-27T12:15:30","modified_gmt":"2012-08-27T12:15:30","slug":"palestinos-encontram-refgio-cruzando-o-atlntico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/america-latina\/palestinos-encontram-refgio-cruzando-o-atlntico\/","title":{"rendered":"Palestinos encontram ref&uacute;gio cruzando o Atl&acirc;ntico"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 27\/08\/2012 &ndash; Issam Ali Hassan tem a exist&ecirc;ncia prec&aacute;ria de um refugiado. Filho de palestinos, vivia com esse status em Bagd&aacute;, de onde teve que fugir quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_10551\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/meninos.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10551\" class=\"size-medium wp-image-10551\" title=\"Meninos refugiados no alambrado de Ruweished. - Acnur\/A.van Genderen Stort\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/meninos.jpg\" alt=\"Meninos refugiados no alambrado de Ruweished. - Acnur\/A.van Genderen Stort\" width=\"200\" height=\"146\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10551\" class=\"wp-caption-text\">Meninos refugiados no alambrado de Ruweished. - Acnur\/A.van Genderen Stort<\/p><\/div>  Passou mais de quatro anos em um acampamento na fronteira da Jord&acirc;nia, at&eacute; que viajou para o Brasil ap&oacute;s ser aceito pelo Programa de Reassentamento Solid&aacute;rio, do governo Dilma Rousseff com apoio do Alto Comissariado das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados (Acnur).<\/p>\n<p>Aos 30 anos, Hassan n&atilde;o esquece a ang&uacute;stia, a solid&atilde;o e a desesperan&ccedil;a do acampamento des&eacute;rtico de Ruweished, a 70 quil&ocirc;metros da fronteira com o Iraque, onde compartilhou pen&uacute;rias e barracas improvisadas com outros palestinos, somalianos, iranianos, curdos, sudaneses e argelinos. Aceitou contar sua vida &agrave; IPS, mas n&atilde;o quis saber de fotos. &quot;Em 2003, quando a guerra estava no 15&ordm; dia, tive que ir embora. &Eacute; muito dif&iacute;cil tirar da cabe&ccedil;a esse tempo porque sofri muito. Vivia sozinho no acampamento. N&atilde;o tinha trabalho nem estudo, estava longe da minha fam&iacute;lia e sem contato com o mundo exterior&quot;, explicou.<\/p>\n<p>Refugiados de v&aacute;rios pa&iacute;ses que estavam h&aacute; anos no Iraque fugiram da guerra com destino &agrave; Jord&acirc;nia, que lhes negou autoriza&ccedil;&atilde;o de entrada. Milhares ficaram perdidos na des&eacute;rtica terra de ningu&eacute;m fronteiri&ccedil;a ou acabaram em Ruweished. Apesar dos esfor&ccedil;os do Acnur, o acampamento tinha condi&ccedil;&otilde;es singulares de isolamento. No ver&atilde;o des&eacute;rtico, o calor dentro das barracas chegava aos 60 graus, e no inverno o frio era congelante. N&atilde;o havia eletricidade, e a &aacute;gua e a comida estavam racionadas.<\/p>\n<p>Hassan recordou que &quot;tinha direito a 20 litros de &aacute;gua por dia. Nos davam legumes tr&ecirc;s vezes por semana, mas depois reduziram para duas. Para comprar comida, a gente trabalhava limpando banheiros e outras instala&ccedil;&otilde;es&quot;. Certa noite uma das barracas pegou fogo e uma menina de cinco anos morreu queimada. &quot;Quando falo disso as imagens aparecem na minha cabe&ccedil;a como em um filme. N&atilde;o quero acordar, mas n&atilde;o posso evitar&quot;, afirmou.<\/p>\n<p>&quot;Queria que algu&eacute;m me salvasse daquela terra. Todo mundo queria ir embora, buscar um pa&iacute;s rico que ajudasse os refugiados, com Austr&aacute;lia, Su&eacute;cia, Noruega ou Canad&aacute;&quot;. Ent&atilde;o, &quot;apareceu uma luz, que era o Brasil, e corri para ela. Mas fui sem esperan&ccedil;as. Nossos sonhos tinham acabado&quot;, conta Hassan. Em outubro de 2007, ele somou-se a um contingente de 108 palestinos que sa&iacute;ram de Ruweished com destino ao Brasil. No dia 5 de novembro daquele ano, com a partida da &uacute;ltima fam&iacute;lia, o acampamento foi fechado.<\/p>\n<p>Foram os primeiros n&atilde;o latino-americanos a se beneficiarem de um programa de reassentamento proposto como uma das solu&ccedil;&otilde;es duradouras do Plano de A&ccedil;&atilde;o do M&eacute;xico para Fortalecer a Prote&ccedil;&atilde;o Internacional dos Refugiados na Am&eacute;rica Latina, adotado por 20 pa&iacute;ses da regi&atilde;o em 2004. Uma parte do grupo se dirigiu, junto com Hassan, para o Rio Grande do Sul, sob assist&ecirc;ncia da jesu&iacute;ta Associa&ccedil;&atilde;o Ant&ocirc;nio Vieira, e outros foram para o interior de S&atilde;o Paulo, com ajuda da C&aacute;ritas Brasil.<\/p>\n<p>A viagem de quase 20 horas o deixou em Porto Alegre, juntamente com outros 50 palestinos, a maioria homens solteiros e sem fam&iacute;lia. Foram recebidos por autoridades brasileiras, do Acnur e da comunidade &aacute;rabe local. Hassan passou um m&ecirc;s morando em uma igreja, at&eacute; que lhe destinaram um pequeno apartamento e uma ajuda mensal equivalente a US$ 170 durante dois anos. &quot;Aprendi a falar portugu&ecirc;s no trabalho. A religi&atilde;o &eacute; diferente, os costumes e at&eacute; o clima; a l&iacute;ngua &eacute; dif&iacute;cil&quot;, comentou.<\/p>\n<p>Hassan percorreu a extensa geografia do Brasil buscando trabalho, de Porto Alegre ao Rio de Janeiro, passando por S&atilde;o Paulo, Mato Grosso e Rond&ocirc;nia. Trabalhou como seguran&ccedil;a em lojas de roupa, unidades de processamento de frango e carne, na cozinha de um restaurante &aacute;rabe. Hoje, de volta ao Rio de Janeiro, tem uma vida est&aacute;vel. Foi acolhido pela fam&iacute;lia de sua mulher, brasileira de origem &aacute;rabe, que est&aacute; gr&aacute;vida de seu segundo filho. H&aacute; um ano e meio &eacute; dono de uma pequena loja de roupas infantis no bairro da Tijuca, da qual se orgulha porque a construiu com as pr&oacute;prias m&atilde;os.<\/p>\n<p>Embora esteja h&aacute; cinco anos no Brasil, ainda n&atilde;o tem resid&ecirc;ncia permanente e por isso n&atilde;o pode tirar passaporte para visitar seus familiares, espalhados pelo mundo, os quais n&atilde;o v&ecirc; h&aacute; 12 anos. Seus sete irm&atilde;os vivem na Su&eacute;cia, Noruega, Gr&eacute;cia e Jord&acirc;nia, e sua m&atilde;e e sua irm&atilde; no Iraque. Ele se queixa da escassa ajuda que recebeu como refugiado. A maioria das fam&iacute;lias que permaneceram em Porto Alegre ainda hoje continuam recebendo assist&ecirc;ncia, mas os solteiros ficaram por conta pr&oacute;pria, afirmou.<\/p>\n<p>&quot;Depois de dois anos n&atilde;o recebi mais ajuda e o sal&aacute;rio do meu trabalho era muito baixo&quot;, contou. Hassan pouco sabe sobre o paradeiro dos demais palestinos que chegaram com ele, mas tem conhecimento de que alguns n&atilde;o tiveram a mesma sorte. &quot;Houve quem mendigou nas ruas ou caiu nas drogas. Outros encontraram emprego fixo e h&aacute; os que trabalham duro&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>O Programa de Reassentamento Solid&aacute;rio prev&ecirc; cobertura de dois anos, mas em alguns casos chega a quatro anos, conforme o &quot;grau de integra&ccedil;&atilde;o na sociedade&quot; do benefici&aacute;rio, explicou &agrave; IPS o porta-voz do Acnur no Brasil, Luiz Fernando Godinho. No Brasil, os refugiados gozam de seus direitos fundamentais e t&ecirc;m acesso aos servi&ccedil;os p&uacute;blicos de educa&ccedil;&atilde;o e sa&uacute;de. Apenas um pequeno grupo de palestinos continua recebendo assist&ecirc;ncia do Acnur. S&atilde;o pessoas doentes e vulner&aacute;veis que contam com hospedagem, um subs&iacute;dio e acompanhamento psicossocial, detalhou Godinho.<\/p>\n<p>Karin Wapechowski, coordenadora da Associa&ccedil;&atilde;o Ant&ocirc;nio Vieira, em Porto Alegre, foi quem, em 2007, recebeu refugiados como Hassan. Na &eacute;poca entrou em contato com as comunidades &aacute;rabe-palestinas da regi&atilde;o para que colaborassem na acolhida dos rec&eacute;m-chegados. No Rio Grande do Sul h&aacute; 68 deles, disse Wapechowski &agrave; IPS. &quot;No come&ccedil;o foi dif&iacute;cil. Mas agora falam portugu&ecirc;s e seus filhos tamb&eacute;m se adaptaram e dominam a l&iacute;ngua. Est&atilde;o bem integrados. As pessoas mais velhas t&ecirc;m mais dificuldades, j&aacute; os jovens se casaram, t&ecirc;m filhos brasileiros e est&atilde;o enraizados&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Para ajudar a entender a cultura, o tipo de alimenta&ccedil;&atilde;o e a religi&atilde;o dos palestinos foi criada uma rede de apoio, prosseguiu a coordenadora. Segundo Wapechowski, &quot;foi um desafio. At&eacute; ent&atilde;o t&iacute;nhamos experi&ecirc;ncia apenas em receber colombianos. Preparamos um pacote com aulas de portugu&ecirc;s e informa&ccedil;&otilde;es geogr&aacute;ficas e culturais do Brasil. A ideia do reassentamento era incluir as pessoas, e at&eacute; hoje fazemos acompanhamentos das fam&iacute;lias&quot;.<\/p>\n<p>Embora j&aacute; esteja se adaptado, Hassan reconhece que ser refugiado &eacute; uma cicatriz que n&atilde;o desaparece. &quot;Vivi toda minha vida nessa condi&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o sou visto por minha nacionalidade, mas como refugiado&quot;. Este &eacute; o problema dos palestinos, cujos territ&oacute;rios est&atilde;o ocupados por Israel. &quot;N&atilde;o h&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica para seu status&quot;, explicou &agrave; IPS o comiss&aacute;rio-geral da Ag&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para os Refugiados da Palestina, Rilippo Grandi. Quase cinco milh&otilde;es de palestinos, eternos refugiados, vivem no L&iacute;bano, S&iacute;ria, Jord&acirc;nia e nos territ&oacute;rios ocupados. Dezenas de milhares vivem em outros pa&iacute;ses do Oriente M&eacute;dio e do norte da &Aacute;frica. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 27\/08\/2012 &ndash; Issam Ali Hassan tem a exist&ecirc;ncia prec&aacute;ria de um refugiado. Filho de palestinos, vivia com esse status em Bagd&aacute;, de onde teve que fugir quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, em 2003. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/08\/america-latina\/palestinos-encontram-refgio-cruzando-o-atlntico\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[25,16],"class_list":["post-10551","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica","tag-ibsa","tag-oriente-medio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10551","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10551"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10551\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10551"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10551"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10551"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}