{"id":10620,"date":"2012-09-06T06:42:16","date_gmt":"2012-09-06T06:42:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10620"},"modified":"2012-09-06T06:42:16","modified_gmt":"2012-09-06T06:42:16","slug":"tempos-difceis-ficam-ainda-mais-difceis-no-norte-da-costa-do-marfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/09\/africa\/tempos-difceis-ficam-ainda-mais-difceis-no-norte-da-costa-do-marfim\/","title":{"rendered":"Tempos dif&iacute;ceis ficam ainda mais dif&iacute;ceis no norte da Costa do Marfim"},"content":{"rendered":"<p>KORHOGO, Costa do Marfim, 06\/09\/2012 &ndash; Salimata Coulibaly, directora de um centro m&eacute;dico na cidade de Korhogo, na regi&atilde;o de Savanes, na Costa do Marfim, parou diante de um gr&aacute;fico com fotografias de crian&ccedil;as do tipo &quot;antes&quot; e &quot;depois&quot; &#8211; uma tirada quando cada crian&ccedil;a chegou ao centro e outra tirada depois de a crian&ccedil;a ter reagido ao tratamento contra a subnutri&ccedil;&atilde;o. <!--more--> Nas &uacute;ltimas semanas, n&atilde;o tem havido falta de fotografias. O n&uacute;mero de crian&ccedil;as trazidas para o centro para serem pesadas est&aacute; a subir, tendo aumentado drasticamente de 162 em Abril para 674 em Julho.<\/p>\n<p>&quot;Come&ccedil;ou uma crise. Estamos na &eacute;poca da escassez,&quot; afimou Coulibaly &agrave; IPS, referindo-se ao per&iacute;odo entre Junho a Agosto, quando as reservas alimentares nesta parte deste pa&iacute;s da &Aacute;frica Ocidental normalmente diminuem antes das pr&oacute;ximas colheitas.<\/p>\n<p>Christina de Bruin, representante adjunta do Fundo das Na&ccedil;&otilde;es Unidas Para a Inf&acirc;ncia (UNICEF) na Costa do Marfim ,disse &agrave; IPS que aquela ag&ecirc;ncia tinha notado um aumento semelhante de crian&ccedil;as subnutridas em centros de alimenta&ccedil;&atilde;o em todo o norte. <\/p>\n<p>A fome sazonal n&atilde;o &eacute; nada de novo no norte da Costa do Marfim, uma regi&atilde;o onde as fam&iacute;lias lidam com elevados n&iacute;veis de pobreza e solos pouco produtivos. Mas este ano surgiram novos desafios que podem agravar o problema.<\/p>\n<p>A regi&atilde;o foi duramente atingida pela crise p&oacute;s-eleitoral na Costa do Marfim, um conflito civil que ceifou pelo menos 3.000 vidas e que come&ccedil;ou quando o antigo Presidente Laurent Gbagbo se recusou a suspender o mandato depois de ter perdido a elei&ccedil;&atilde;o de Novembro de 2010.<\/p>\n<p>Centenas de milhares de cidad&atilde;os da Costa do Marfim ficaram desalojados e dezenas de milhares refugiaram-se na regi&atilde;o do norte de Savanes, onde a grande maioria foi recebida por fam&iacute;lias de acolhimento, de acordo com as Na&ccedil;&otilde;es Unidas. Embora a crise tenha terminado h&aacute; mais de um ano, permitindo o regresso de alguns desalojados, ainda continua a sentir-se a press&atilde;o exercida sobre as reservas alimentares das fam&iacute;lias de acolhimento.<\/p>\n<p>Entretanto, os dist&uacute;rbios pol&iacute;ticos foram substitu&iacute;dos pela crise alimentar regional na regi&atilde;o do Sahel em pa&iacute;ses como o Senegal, Maurit&acirc;nia, Mali, Burkina Faso, N&iacute;ger e Chade, causada por chuvas irregulares e subsequentes colheitas fracas e faltas de &aacute;gua. A Oxfam International afirma que 18 milh&otilde;es de pessoas enfrentam uma crise alimentar este ano na &Aacute;frica Ocidental e Central, incuindo o Burkina Faso e o Mali, que fazem fronteira com a Costa do Marfim. <\/p>\n<p>De Bruin afirmou que a escassez de alimentos a n&iacute;vel regional tinha, com efeito &quot;esgotado uma parte das colheitas locais&quot; na Costa do Marfim ao aumentar de forma dr&aacute;stica o custo dos alimentos b&aacute;sicos.<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, as chuvas irregulares na Costa do Marfim no ano passado traduziram-se em colheitas particularmente m&aacute;s, o que significa que a esta&ccedil;&atilde;o dif&iacute;cil se tornou ainda mais dura que o normal para muitas fam&iacute;lias.<\/p>\n<p>Tudo isto tem o potencial de eliminar as recentes conquistas nutricionais na regi&atilde;o. De acordo com informa&ccedil;&otilde;es citadas pelas Na&ccedil;&otilde;es Unidas, a subnutri&ccedil;&atilde;o aguda mundial baixou de 17.5 por cento em 2008 para 5.8 por cento no in&iacute;cio deste ano.<\/p>\n<p>Contudo, um estudo realizado em Abril pelo Programa Alimentar Mundial das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, pela Organiza&ccedil;&atilde;o da Na&ccedil;&otilde;es Unidas Para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura e pelo Minist&eacute;rio da Agricultura, calculou que cerca de 110.000 pessoas na regi&atilde;o de Savanes corriam o risco de inseguran&ccedil;a alimentar, e que &quot;o cen&aacute;rio mais prov&aacute;vel em 2012 podia ser comparado &agrave; situa&ccedil;&atilde;o em 2008&quot;, quando a regi&atilde;o estava sob o controlo dos rebeldes e sofria o impacto do decl&iacute;nio dos servi&ccedil;os sociais b&aacute;sicos.<\/p>\n<p>No centro m&eacute;dico de Korhogo, Coulibaly afirmou que tinha visto as condi&ccedil;&otilde;es a tornarem-se gradualmente mais dif&iacute;ceis. N&atilde;o apenas muitas fam&iacute;lias comiam uma &uacute;nica refei&ccedil;&atilde;o por dia, contou, mas frequentemente eram t&atilde;o pressionadas a trabalhar por essa refei&ccedil;&atilde;o que demoravam mais tempo a procurar tratamento m&eacute;dico quando os primeiros sinais de subnutri&ccedil;&atilde;o apareciam.<\/p>\n<p>&quot;S&oacute; v&ecirc;m aos centros de nutri&ccedil;&atilde;o quandoa situa&ccedil;&atilde;o &eacute; realmente grave,&quot; disse. &quot;Tendem a esperar at&eacute; ser demasiado tarde porque n&atilde;o querem perder tempo a obter tratamento.&quot;<\/p>\n<p>Num centro de nutri&ccedil;&atilde;o em M&#39;Benguebougou, aldeia perto de Korhogo, Fatoumata Yire Soro, de 22 anos, descreve a press&atilde;o a que foi sujeita quando decidiu trazer a filha de dois anos para tratamento h&aacute; cerca de dois meses. <\/p>\n<p>&quot;Estava muito preocupada com a sa&uacute;de da minha filha, que sabia estar subnutrida,&quot; disse Soro, que vende carv&atilde;o. &quot;Mas, ao mesmo tempo, tinha de lidar com a press&atilde;o em casa porque n&atilde;o estava no campo (a ganhar a vida). No fim, a sa&uacute;de da minha filha foi a coisa mais importante.&quot; <\/p>\n<p>A quest&atilde;o do atraso em obter tratamento m&eacute;dico para os filhos &eacute; apenas um dos adversos mecanismos de sobreviv&ecirc;ncia adoptados pelas fam&iacute;lias que lutam para se alimentarem. Tamb&eacute;m &eacute; mais prov&aacute;vel que os pais retirem os filhos da escola &#8211; algo que De Bruin afirmou ter visto em toda a regi&atilde;o devido &agrave; crise alimentar no Sahel. <\/p>\n<p>&quot;Infelizmente muitas crian&ccedil;as abandonaram o sistema de ensino,&quot; explicou. &quot;Devido &agrave; crise no Sahel, muitas crian&ccedil;as est&atilde;o a abandonar a escola mais cedo.&quot;<\/p>\n<p>Um problema enraizado<\/p>\n<p>Thomas Bassett, professor de geografia na Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e co-autor do livro O Atlas da Fome Mundial publicado em 2010, disse &agrave; IPS que &eacute; importante lembrar os factores estruturais que contribu&iacute;ram para a fome na Costa do Marfim. <\/p>\n<p>Mais de 40 por cento das crian&ccedil;as com menos de cinco anos de idade sofrem de crescimento atrofiado, o que quer dizer que n&atilde;o ingerem alimentos suficientes para um crescimento normal.<\/p>\n<p>&quot;Sabemos que cerca de 45 por cento da popula&ccedil;&atilde;o vive com dois dol&aacute;res por dia. Isso &eacute; quase metade da popula&ccedil;&atilde;o (de quase de 20 milh&otilde;es de pessoas) que est&aacute; vulner&aacute;vel &agrave; fome,&quot; afirmou Bassett.<\/p>\n<p>&quot;Se uma pessoa vive com dois dol&aacute;res por dias, qualquer tipo de evento extremo &#8211; pode ser uma seca, a instabilidade pol&iacute;tica, o baixo pre&ccedil;o pago pelas culturas de rendimento &#8211; pode colocar essa pessoa numa situa&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria.&quot; Bassett faz trabalho de campo em Korhogo e redondezas h&aacute; mais de 30 anos.<\/p>\n<p>Segundo Bassett, uma das principais raz&otilde;es para esta pobreza &eacute; o facto de os agricultores n&atilde;o receberem dinheiro suficiente pelas culturas de rendimento, especialmente o algod&atilde;o e a castanha de caj&uacute;.<\/p>\n<p>Os pre&ccedil;os para ambos estes produtos s&atilde;o decididos por organiza&ccedil;&otilde;es colectivas compostas por produtores e compradores sediados em Abidjan. Bassett afirmou que este problema pode ser parcialmente resolvido por uma maior mobiliza&ccedil;&atilde;o dos agricultores no sentido de exigirem os pre&ccedil;os mais altos poss&iacute;veis pelos seus produtos. Uma interven&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria, segundo Bassett, seria aumentar o acesso a insumos agr&iacute;colas como adubos. <\/p>\n<p>No entanto, Bassett acrescentou que n&atilde;o era prov&aacute;vel que o governo de Alassane Ouattara tentasse resolver o problema da fome no norte com grande energia, especialmente se a administra&ccedil;&atilde;o se sentisse segura quanto &agrave; reten&ccedil;&atilde;o de um forte apoio por parte dos eleitores na regi&atilde;o.<\/p>\n<p>A seguir &agrave; tentativa de golpe de estado dirigido contra o antigo presidente Gbagbo em 2002, o norte ficou separado do sul e foi administrado pelos rebeldes das Forces Nouvelles (Novas For&ccedil;as) at&eacute; &agrave; elei&ccedil;&atilde;o de 2010. Os habitantes do norte votaram esmagadoramente a favor de Ouattara, que &eacute; origin&aacute;rio da regi&atilde;o. <\/p>\n<p>&quot;A meu ver, devido ao facto de n&atilde;o haver fome extrema, o governo vai tolerar a fome cr&oacute;nica,&quot; disse Bassett. &quot;N&atilde;o acredito que isto seja um assunto que o governo se sinta necessariamente obrigado a resolver e n&atilde;o creio que o governo de Ouattara v&aacute; necessariamente perder qualquer apoio na &aacute;rea devido a esta quest&atilde;o.&quot;<\/p>\n<p>De Bruin afirmou que o governo estava a trabalhar com ONGs no sentido de prestar alguma assist&ecirc;ncia, designadamente ajudando a educar as comunidades acerca dos perigos da subnutri&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as, que n&atilde;o eram inteiramente reconhecidos. <\/p>\n<p>&quot;As pessoas n&atilde;o se apercebem do risco dos filhos estarem gravemente subnutridos,&quot; disse. &quot;Se tiverem um filho severamente subnutrido com diarreia, as hip&oacute;teses de sobreviv&ecirc;ncia s&atilde;o muito, muito baixas.&quot;<\/p>\n<p>Afirmou ainda que as pessoas na regi&atilde;o estavam &agrave; espera de melhorias significativas com Ouattara, especialmente depois da crise que durou uma d&eacute;cada, durante a qual foram desmantelados os servi&ccedil;os sociais b&aacute;sicos, como sa&uacute;de e educa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;As pessoas est&atilde;o definitivamente &agrave; espera de melhorias com Ouattara,&quot; disse De Bruin. &quot;Garantir que as crian&ccedil;as cres&ccedil;am saud&aacute;veis e tenham acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o &#8211; penso que s&oacute; isso poder&aacute; quebrar o ciclo de pobreza e de viol&ecirc;ncia.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KORHOGO, Costa do Marfim, 06\/09\/2012 &ndash; Salimata Coulibaly, directora de um centro m&eacute;dico na cidade de Korhogo, na regi&atilde;o de Savanes, na Costa do Marfim, parou diante de um gr&aacute;fico com fotografias de crian&ccedil;as do tipo &quot;antes&quot; e &quot;depois&quot; &#8211; uma tirada quando cada crian&ccedil;a chegou ao centro e outra tirada depois de a crian&ccedil;a ter reagido ao tratamento contra a subnutri&ccedil;&atilde;o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/09\/africa\/tempos-difceis-ficam-ainda-mais-difceis-no-norte-da-costa-do-marfim\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":414,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10620","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10620","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/414"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10620"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10620\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10620"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10620"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10620"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}