{"id":10621,"date":"2012-09-06T11:50:38","date_gmt":"2012-09-06T11:50:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10621"},"modified":"2012-09-06T11:50:38","modified_gmt":"2012-09-06T11:50:38","slug":"amrica-central-tijolo-a-tijolo-fomos-construindo-a-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/09\/mundo\/amrica-central-tijolo-a-tijolo-fomos-construindo-a-paz\/","title":{"rendered":"AM&Eacute;RICA CENTRAL: Tijolo a tijolo, fomos construindo a paz"},"content":{"rendered":"<p>San Jos&eacute;, Costa Rica, 06\/09\/2012 &ndash; No dia 12, o governo da Costa Rica estar&aacute; comemorando 25 anos da assinatura do Acordo de Esquipulas II, que devolveu a paz &agrave; Am&eacute;rica Central ao acabar com um conflito b&eacute;lico que se prolongou durante 30 anos. <!--more--> O acordo foi assinado por todos os pa&iacute;ses centro-americanos.<\/p>\n<p>O ser humano abrigar a prodigiosa virtude da mem&oacute;ria &eacute; muito mais que um capricho po&eacute;tico da hist&oacute;ria. &Eacute; um sinal evolutivo e talvez uma das mais cruciais habilidades da esp&eacute;cie que abandonou o abrigo das cavernas para empreender a maravilha da civiliza&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o lembramos para encher as caixas dos arquivos, nem para povoar os contos dos av&oacute;s. Recordamos para tornar poss&iacute;vel uma vida melhor. Isto &eacute;, a mem&oacute;ria tem sentido com refer&ecirc;ncia &agrave; atualidade: nos d&aacute; uma vantagem sobre o tempo anterior. A lembran&ccedil;a n&atilde;o &eacute; escriv&atilde; do passado, mas assessora do futuro.<\/p>\n<p>Pode ser que esta data passe despercebida para milh&otilde;es de jovens centro-americanos. Isto, mais do que um descuido, &eacute; um privil&eacute;gio. Ser incapaz de reconhecer o tremor da terra estremecida pela passagem de um tanque &eacute; um privil&eacute;gio. Jamais ter sentido o cheiro de sangue trazido pelo vento &eacute; um privil&eacute;gio. Desconhecer o gosto da p&oacute;lvora, a cor da morte, o choro que se ouve atr&aacute;s da parede do vizinho &eacute; um privil&eacute;gio. Talvez a import&acirc;ncia deste dia possa ser entendida somente em termos de aus&ecirc;ncias: os soldados que j&aacute; n&atilde;o morrem, as fam&iacute;lias que j&aacute; n&atilde;o fogem, os navios que j&aacute; n&atilde;o trazem ninhos de metralha.<\/p>\n<p>Para os que unicamente conhecem a Am&eacute;rica Central de nossos dias, seria dif&iacute;cil acreditar nas hist&oacute;rias contadas pelos milh&otilde;es de refugiados que cruzavam as fronteiras em meados da d&eacute;cada de 1980. Povos aniquilados por m&atilde;os irm&atilde;s, com armas norte-americanas ou sovi&eacute;ticas. Bases de treinamento secretas, onde rapazes que apenas compreendiam as raz&otilde;es da guerra se formavam no &oacute;dio e na viol&ecirc;ncia. Um conflito convertido em uma contenda pela preemin&ecirc;ncia militar de duas superpot&ecirc;ncias, cujas ambi&ccedil;&otilde;es extenuavam os esfor&ccedil;os pela paz promovidos no contexto do Grupo de Contadora (Col&ocirc;mbia, M&eacute;xico, Panam&aacute;, Venezuela) e do Grupo de Apoio (Argentina, Brasil, Peru, Uruguai), esfor&ccedil;os que ao fracassarem deram espa&ccedil;o para que a Costa Rica propusesse o tamb&eacute;m chamado Plano de Paz.<\/p>\n<p>Foi em meio a este redemoinho de ang&uacute;stias que o povo da Costa Rica emitiu seu voto, em fevereiro de 1986. A guerra centro-americana havia sido um tema central da campanha eleitoral. Era cada vez mais evidente que nosso pa&iacute;s n&atilde;o poderia permanecer muito tempo &agrave; margem do conflito na regi&atilde;o. A disjuntiva era t&atilde;o crua quanto franca: ou a Costa Rica pegava em armas ou deveria colocar todo seu empenho em alcan&ccedil;ar a paz.<\/p>\n<p>Uma e outra vez insisti que a paz centro-americana era parte essencial da agenda de desenvolvimento costarriquenho. Nenhuma iniciativa no interior do pa&iacute;s poderia compensar o caos em que nos encontr&aacute;vamos imersos. Isto &eacute; algo que ainda hoje &eacute; dif&iacute;cil de entender para alguns: a pol&iacute;tica exterior n&atilde;o &eacute; um atavio com que se adorna a conveni&ecirc;ncia das na&ccedil;&otilde;es. A diplomacia &eacute; parte essencial do esfor&ccedil;o de um governo para construir um futuro mais digno para seu povo. Assim entenderam os costarriquenhos e esse foi o mandato que recebi ao vencer as elei&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Minha inten&ccedil;&atilde;o foi propor um plano de paz que reiniciasse o di&aacute;logo e promovesse uma solu&ccedil;&atilde;o centro-americana para o conflito. O documento continha dez a&ccedil;&otilde;es priorit&aacute;rias, uma das quais dizia textualmente: &quot;simultaneamente com o in&iacute;cio do di&aacute;logo, as partes beligerantes de cada pa&iacute;s suspender&atilde;o as a&ccedil;&otilde;es militares&quot;. A tend&ecirc;ncia mundial em solu&ccedil;&atilde;o de conflitos, nessa &eacute;poca e ainda agora, pretende que as negocia&ccedil;&otilde;es aconte&ccedil;am precisamente para conseguir o cessar-fogo. O Plano de Paz para a Am&eacute;rica Central, pelo contr&aacute;rio, propunha o cessar-fogo como uma das condi&ccedil;&otilde;es necess&aacute;rias para poder dialogar sem press&otilde;es, em um ambiente verdadeiramente prop&iacute;cio para uma paz duradoura.<\/p>\n<p>O cessar-fogo servia, ent&atilde;o, como abertura da paz. Seu leitmotiv, por outro lado, era a democratiza&ccedil;&atilde;o da regi&atilde;o. Este foi o ponto de distin&ccedil;&atilde;o do acordo e, em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, sua caracter&iacute;stica decisiva. O governo norte-americano via com simpatia o estabelecimento de um regime democr&aacute;tico como uma condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para alcan&ccedil;ar uma paz duradoura, mas insistia que a &uacute;nica sa&iacute;da para o conflito emanaria do enfrentamento armado entre os Contra nicaraguense e o governo sandinista.<\/p>\n<p>O governo da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica e o regime cubano, por outro lado, recha&ccedil;aram desde o princ&iacute;pio a proposta costarriquenha de incluir o estabelecimento da democracia dentro do acordo. N&atilde;o havia ponto de encontro, j&aacute; que tanto Ronald Reagan quanto Mikhail Gorbachov desconfiavam da via diplom&aacute;tica. Para eles, a paz esperava atr&aacute;s de um extenso campo de batalha.<\/p>\n<p>Como conseguimos aprovar um plano que era objetado pelas na&ccedil;&otilde;es mais poderosas do mundo? Se tivesse que mencionar uma &uacute;nica caracter&iacute;stica que ent&atilde;o compartilhamos, os cinco presidentes centro-americanos, seria um profundo senso de responsabilidade hist&oacute;rica. A capacidade de reconhecer que aquele n&atilde;o era um pulso de poder, mas um ato da mais elementar humanidade. O destino de milh&otilde;es de pessoas pendia de nossa disposi&ccedil;&atilde;o para dialogar, de nossa vontade para transigir, e de nossa convic&ccedil;&atilde;o de um futuro de paz para a Am&eacute;rica Central.<\/p>\n<p>O acordo que alcan&ccedil;amos na Cidade de Guatemala, no dia 7 de agosto de 1987, foi apenas um passo na luta para conseguir que se respeitasse a vontade centro-americana. A implanta&ccedil;&atilde;o do Plano de Paz foi espreitado por fac&otilde;es em busca do fracasso. Mas j&aacute; hav&iacute;amos colocado a pedra fundamental, e cont&aacute;vamos com o apoio da comunidade internacional. Tijolo a tijolo, fomos construindo uma paz que ainda necessita de arquitetos e pedreiros.<\/p>\n<p>Nestes dias a Am&eacute;rica Central celebra um acordo, mas tamb&eacute;m ati&ccedil;a os carv&otilde;es de um sonho que ainda constru&iacute;mos como uma esp&eacute;cie. A pretens&atilde;o que formularam os gregos e que recordou Robert Kennedy no dia da morte de Martin Luther King Jr.: domar a selvageria do homem e tornar agrad&aacute;vel a vida neste mundo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Oscar Arias S&aacute;nchez, ex-presidente da Costa Rica (1986-1990\/2006-2010) e Pr&ecirc;mio Nobel da Paz em 1987.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>San Jos&eacute;, Costa Rica, 06\/09\/2012 &ndash; No dia 12, o governo da Costa Rica estar&aacute; comemorando 25 anos da assinatura do Acordo de Esquipulas II, que devolveu a paz &agrave; Am&eacute;rica Central ao acabar com um conflito b&eacute;lico que se prolongou durante 30 anos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/09\/mundo\/amrica-central-tijolo-a-tijolo-fomos-construindo-a-paz\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,4],"tags":[14],"class_list":["post-10621","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-mundo","tag-america-do-norte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10621","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10621"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10621\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10621"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10621"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10621"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}