{"id":1066,"date":"2005-10-03T00:00:00","date_gmt":"2005-10-03T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1066"},"modified":"2005-10-03T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-03T00:00:00","slug":"ambiente-uzbequisto-paga-hoje-os-pecados-do-passado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/ambiente-uzbequisto-paga-hoje-os-pecados-do-passado\/","title":{"rendered":"Ambiente: Uzbequist&atilde;o paga hoje os pecados do passado"},"content":{"rendered":"<p>Urgench,  Uzbequist&atilde;o, 03\/10\/2005 &ndash; Uma morbi-mortalidade sem precedentes &eacute; parte do desastre ambiental, sanit&aacute;rio, social e humano causado pelo abuso de agroqu&iacute;micos na regi&atilde;o do mar Aral, no noroeste do Uzbequist&atilde;o. O problema &eacute; legado da &eacute;poca em que este pa&iacute;s da &Aacute;sia central fazia parte da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, quando houve uma campanha maci&ccedil;a para produzir algod&atilde;o, uma importante fonte de divisas, e come&ccedil;ou-se a utilizar fertilizantes artificiais em grande escala. O Uzbequist&atilde;o ainda lida com a transi&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica do sistema socialista para o capitalista e n&atilde;o consegue se sobrepor ao desastre ambiental, uma mostra do que pode ocorrer quando os seres humanos usam a tecnologia para prejudicar a natureza.<br \/> <!--more--> <br \/> As necessidades b&aacute;sicas de sa&uacute;de s&atilde;o evidentes em uma popula&ccedil;&atilde;o de 26,3 milh&otilde;es de pessoas, especialmente pelo impacto do desastre do mar Aral, que provocou numerosos casos de tifo, doen&ccedil;as respirat&oacute;rias, c&acirc;ncer e tuberculose. Os moradores da regi&atilde;o do mar Aral temem a tuberculose e a icter&iacute;cia muito mais do que a aids. Os m&eacute;dicos tamb&eacute;m falam de deformidades e as atribuem ao dano gen&eacute;tico causado pelos produtos qu&iacute;micos usados no passado. &quot;Freq&uuml;entemente me trazem beb&ecirc;s sem m&atilde;os ou pernas e, inclusive, sem genitais, ou com macro encefalia. Como posso ajud&aacute;-los?&quot;, pergunta o m&eacute;dico Tohtabay Baltabaevk, que atende funcion&aacute;rios governamentais de alto escal&atilde;o em um dos distritos austrais de Karakalpakst&aacute;n. S&oacute; nesse distrito h&aacute; cerca de 17 mil meninos e meninas com diversas defici&ecirc;ncias e deformidades, segundo os m&eacute;dicos.<\/p>\n<p> No Uzbequist&atilde;o, falar dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil&ecirc;nio &#8211; s&eacute;rie de compromissos assumidos pelos governos em 2000 para reduzir a pobreza, a fome, a mortalidade infantil e materna e promover a sustentabilidade ambiental, entre outras coisas &#8211; &eacute; totalmente estranho. Mas os sentimentos da popula&ccedil;&atilde;o refletem os mesmo problemas que os governos se comprometeram a melhorar at&eacute; 2015. &quot;A renda atual de muitas pessoas apenas excedem os US$ 30 mensais. As pessoas preferem n&atilde;o ir ao m&eacute;dico para receber tratamento em um hospital&quot;, disse Baltabaevk. A mortalidade infantil e a materna diminu&iacute;ram na &uacute;ltima d&eacute;cada, segundo o Fundo de Popula&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas (Fnuap), que situam a mortalidade infantil em 41 para cada mil nascimentos.<\/p>\n<p> Segundo a Comiss&atilde;o Nacional Uzbeka de Estat&iacute;sticas, a mortalidade de menores de um ano no pa&iacute;s foi de 18,7 por mil nascimentos em 2000, enquanto em 2004 caiu para 16,5\/mil. Noventa por cento das mulheres gr&aacute;vidas na regi&atilde;o de Khorezm (nordeste) e em Karakalpakst&aacute;n, uma regi&atilde;o aut&ocirc;noma do norte que constitui quase 40% do territ&oacute;rio do pa&iacute;s, s&atilde;o an&ecirc;micas e a metade sofre doen&ccedil;as da gl&acirc;ndula tire&oacute;ide e dos rins. Mais de 40% da mortalidade materna do Uzbequist&atilde;o afeta as m&atilde;es de primeira viagem, segundo Nariman H., pediatra em Khorezm.<\/p>\n<p> Nos anos 60, a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica ordenou ao Uzbequist&atilde;o que desviasse &aacute;guas de dois rios do mar Aral, o quarto maior do mundo. A inten&ccedil;&atilde;o era irrigar extensas &aacute;reas que haviam sido transformadas em planta&ccedil;&otilde;es de algod&atilde;o. Para esse cultivo foram usadas enormes doses de fertilizantes qu&iacute;micos, pesticidas e desflolhantes, que se filtraram para as &aacute;guas subterr&acirc;neas e alcan&ccedil;aram as bacias dos rios. A popula&ccedil;&atilde;o usava essa &aacute;gua para beber e cozinhar, e dessa maneira contraiu as doen&ccedil;as. Na d&eacute;cada de 80, a quantidade m&eacute;dia de fertilizante qu&iacute;mico empregada em cada hectare de terra agr&iacute;cola no Uzbequist&atilde;o superava os 300 quilos, quase tr&ecirc;s vezes a quantidade m&eacute;dia de toda a Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica. <\/p>\n<p> Como resultado, a superf&iacute;cie do mar na regi&atilde;o Aral diminuiu quase a metade de seu tamanho original, a &aacute;gua ficou insalubre e seu volume sofreu redu&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s quartos. Os bancos de pesca quase desapareceram e as pastagens que dependiam das &aacute;guas do Aral tamb&eacute;m diminu&iacute;ram. Extensas por&ccedil;&otilde;es de terra se transformaram em deserto, e alguns dizem que este processo continua. Os rios Syr e Um ficaram cheios de agroqu&iacute;micos. Hoje, os ventos anuais da &Aacute;sia central e Europa ocidental trazem o sal residual do leito do mar, seco e t&oacute;xico, com pesticidas e metais pesados. &Eacute; um problema que transcende fronteiras, come&ccedil;ando pelo vizinho Cazaquist&atilde;o.<\/p>\n<p> A carga dos cuidados com a sa&uacute;de, em um momento em que as pessoas t&ecirc;m de suportar os custos por conta pr&oacute;pria, tamb&eacute;m continua. Os n&uacute;meros da tuberculose chegaram a estar seis vezes acima dos padr&otilde;es da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de. Novos n&uacute;meros da OMS indicam que os pacientes com bacilo da tuberculose na &Aacute;sia central s&atilde;o 10 vezes mais propensos a desenvolver uma cepa mais resistente a m&uacute;ltiplos medicamentos do que o resto do mundo. A preval&ecirc;ncia da doen&ccedil;a &eacute; de 156 para cada 100 mil pessoas. O impacto do desastre do mar Aral &eacute; uma tema que conseguiu arrecadar fundos internacionais e provocou reuni&otilde;es de l&iacute;deres na regi&atilde;o ao longo dos anos.<\/p>\n<p> Em 1992, o presidente uzbeko, Islam Karimo, solicitou coopera&ccedil;&atilde;o internacional para salvar o mar Aral, mas alguns dizem que o foco continua na produ&ccedil;&atilde;o de algod&atilde;o. As compras estatais de algod&atilde;o cru s&atilde;o muito baixas, mas a l&atilde; de algod&atilde;o processada e acabada &eacute; vendida no mercado mundial a pre&ccedil;os altos.&quot;A regularidade do trabalho infantil nas planta&ccedil;&otilde;es de algod&atilde;o, a cada outono, &eacute; a melhor imagem para representar a indiferen&ccedil;a do governo em rela&ccedil;&atilde;o aos cidad&atilde;os&quot;, disse Marat Zahidov, um ativista uzbeko pelos direitos humanos.<\/p>\n<p> Mas hoje as dores e os problemas do mar Aral n&atilde;o parecem comover nem a comunidade internacional nem as autoridades locais tanto quanto no passado. Perdeu-se muito tempo, lamentou Oral Ataniyazov, m&eacute;dica e l&iacute;der da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental Perzent, de Nukus, tamb&eacute;m no nordeste do pa&iacute;s. Ataniyazov explicou que uma regulamenta&ccedil;&atilde;o do governo sobre preserva&ccedil;&atilde;o gen&eacute;tica na &aacute;rea do Aral foi aprovada em abril de 2004 e que se o fundo for usado com efici&ecirc;ncia para seu prop&oacute;sito, pode representar importante avan&ccedil;o.<\/p>\n<p> Nargiza Jurabaeva, coordenadora do Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), disse que este ano a organiza&ccedil;&atilde;o est&aacute; preparando um relat&oacute;rio sobre o avan&ccedil;o do pa&iacute;s rumo aos Objetivos de Desenvolvimento do Mil&ecirc;nio. &quot;Agora estamos na &uacute;ltima etapa. O trabalho de avalia&ccedil;&atilde;o do desempenho em cada regi&atilde;o e seus correspondentes relat&oacute;rios come&ccedil;ar&aacute; no pr&oacute;ximo ano. O que realmente necessitamos &eacute; uma base de dados estat&iacute;sticos confi&aacute;vel para cada regi&atilde;o, e &eacute; nisso que estamos trabalhando&quot;, disse.<\/p>\n<p> No relat&oacute;rio da ONU &quot;Um futuro ao alcance da m&atilde;o&quot;, o Uzbequist&atilde;o figura na lista de na&ccedil;&otilde;es que progridem &quot;lentamente&quot; rumo &agrave;s metas do mil&ecirc;nio de reduzir a mortalidade infantil em dois ter&ccedil;os e a materna em tr&ecirc;s quartos (em rela&ccedil;&atilde;o a 1990) at&eacute; 2015. Al&eacute;m disso, o documento diz que o Uzbequist&atilde;o experimentou uma &quot;regress&atilde;o&quot; quanto &agrave; preval&ecirc;ncia e a mortalidade relacionada &agrave; tuberculose. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Urgench,  Uzbequist&atilde;o, 03\/10\/2005 &ndash; Uma morbi-mortalidade sem precedentes &eacute; parte do desastre ambiental, sanit&aacute;rio, social e humano causado pelo abuso de agroqu&iacute;micos na regi&atilde;o do mar Aral, no noroeste do Uzbequist&atilde;o. O problema &eacute; legado da &eacute;poca em que este pa&iacute;s da &Aacute;sia central fazia parte da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, quando houve uma campanha maci&ccedil;a para produzir algod&atilde;o, uma importante fonte de divisas, e come&ccedil;ou-se a utilizar fertilizantes artificiais em grande escala. O Uzbequist&atilde;o ainda lida com a transi&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica do sistema socialista para o capitalista e n&atilde;o consegue se sobrepor ao desastre ambiental, uma mostra do que pode ocorrer quando os seres humanos usam a tecnologia para prejudicar a natureza.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/ambiente-uzbequisto-paga-hoje-os-pecados-do-passado\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1066","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1066\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}