{"id":10691,"date":"2012-09-19T09:38:40","date_gmt":"2012-09-19T09:38:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10691"},"modified":"2012-09-19T09:38:40","modified_gmt":"2012-09-19T09:38:40","slug":"pacificao-de-favelas-no-chega-a-ser-poltica-pblica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/09\/america-latina\/pacificao-de-favelas-no-chega-a-ser-poltica-pblica\/","title":{"rendered":"&quot;Pacifica&ccedil;&atilde;o de favelas n&atilde;o chega a ser pol&iacute;tica p&uacute;blica&quot;"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 19\/09\/2012 &ndash; A pacifica&ccedil;&atilde;o das favelas do Rio de Janeiro, como forma de enfrentar os grupos armados e eliminar o tr&aacute;fico de drogas, n&atilde;o &eacute; uma pol&iacute;tica p&uacute;blica efetiva, afirma Eliana Sousa Silva, que viveu quase 30 anos em uma dessas comunidades pobres e super-habitadas.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_10691\" style=\"width: 164px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Eliana.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10691\" class=\"size-medium wp-image-10691\" title=\"A pol\u00c3\u00adcia carioca n&atilde;o mudou sua atitude, afirma Eliana Sousa Silva. - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Eliana.jpg\" alt=\"A pol\u00c3\u00adcia carioca n&atilde;o mudou sua atitude, afirma Eliana Sousa Silva. - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS\" width=\"154\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10691\" class=\"wp-caption-text\">A pol\u00c3\u00adcia carioca n&atilde;o mudou sua atitude, afirma Eliana Sousa Silva. - Fab\u00c3\u00adola Ortiz\/IPS<\/p><\/div>  A chamada pacifica&ccedil;&atilde;o come&ccedil;a com a entrada de batalh&otilde;es de elite da Pol&iacute;cia Militar para reprimir o tr&aacute;fico. Uma vez expulsas as m&aacute;fias, s&atilde;o instaladas de forma permanente Unidades de Pol&iacute;cia Pacificadora (UPP), um modelo comunit&aacute;rio, e come&ccedil;am a ser realizados investimentos em sa&uacute;de, educa&ccedil;&atilde;o, esporte e gera&ccedil;&atilde;o de renda para seus moradores.<\/p>\n<p>Apesar da desconfian&ccedil;a inicial, a estrat&eacute;gia obteve alguns &ecirc;xitos. Entretanto, os habitantes n&atilde;o foram incorporados ao processo de pacifica&ccedil;&atilde;o, destaca Eliana, assistente social e fundadora das organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais Observat&oacute;rio de Favelas e Redes da Mar&eacute;. Ap&oacute;s viver quase 30 anos no complexo de favelas da Mar&eacute; e presenciar viol&ecirc;ncia e abusos de direitos humanos, Eliana acaba de lan&ccedil;ar o livro Testemunhos da Mar&eacute;, que exp&otilde;e a realidade do conjunto de comunidades pobres mais povoado da cidade. No livro, apresentado no dia 23 de agosto, a autora exp&otilde;e os pontos de vista de habitantes, policiais e traficantes sobre como veem a viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>IPS: A partir de 2008, o Rio de Janeiro vive uma onda de mudan&ccedil;as com a instala&ccedil;&atilde;o das UPP nas favelas. Com v&ecirc; esse processo?<\/p>\n<p>Eliana Sousa Silva: As UPP s&atilde;o uma resposta do Estado, que formulou um projeto elaborado pela Secretaria da Seguran&ccedil;a do governo estadual. &Eacute; uma a&ccedil;&atilde;o ainda em curso e tem um lado positivo: tenta intervir no contexto dos grupos armados e desarm&aacute;-los. Contudo, ao mesmo tempo, deixa a desejar. &Eacute; preciso que d&ecirc; um passo adiante para constituir-se como pol&iacute;tica p&uacute;blica. E falta o aspecto importante de entender a popula&ccedil;&atilde;o dessas favelas e como ela se relaciona de maneira diferente com a pr&oacute;pria pol&iacute;cia. O avan&ccedil;o se dar&aacute; quando se conseguir que as pessoas vejam a chegada do Estado, por interm&eacute;dio da pol&iacute;cia, como garantia de seu direito &agrave; seguran&ccedil;a e n&atilde;o para fazer do habitante uma v&iacute;tima. Os moradores devem ser incorporados ao processo de pacifica&ccedil;&atilde;o e devem se tornar sujeitos.<\/p>\n<p>IPS: Voc&ecirc; viveu quase 30 anos no Complexo da Mar&eacute; e em seu livro aborda essa realidade a partir de diferentes pontos de vista: dos habitantes, policiais e traficantes. Com est&aacute; a Mar&eacute; hoje?<\/p>\n<p>ESS: At&eacute; os anos 1980, a Mar&eacute; tinha seis favelas, hoje s&atilde;o 16. A partir dessa d&eacute;cada, somaram-se v&aacute;rias comunidades, devido a uma pol&iacute;tica habitacional baseada em construir conjuntos habitacionais. O governo financiou as ocupa&ccedil;&otilde;es. Isto, talvez, explique as quest&otilde;es que caracterizam a Mar&eacute;, convertida em uma grande favela, a maior do Rio de Janeiro quanto ao n&uacute;mero de habitantes. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica indicam 129.400 habitantes. Em compara&ccedil;&atilde;o, 80% das cidades deste pa&iacute;s n&atilde;o chegam a ter essa dimens&atilde;o. &Eacute; um conjunto de favelas, mas com popula&ccedil;&atilde;o do tamanho de uma cidade m&eacute;dia, com problemas estruturais de urbaniza&ccedil;&atilde;o, saneamento, rede pluvial, conserva&ccedil;&atilde;o, meio ambiente, espa&ccedil;os de arte e cultura, e qualidade de suas 16 escolas. Por estar perto da Ba&iacute;a de Guanabara e de vias expressas, como a Linha Vermelha e a Avenida Brasil, o ar que se respira na Mar&eacute; &eacute; o pior da cidade. H&aacute; uma conflu&ecirc;ncia de problemas determinados por sua pr&oacute;pria forma&ccedil;&atilde;o: a chegada de popula&ccedil;&atilde;o sem a devida infraestrutura.<\/p>\n<p>IPS: Em breve, a Mar&eacute; receber&aacute; a primeira UPP. Qual a expectativa da popula&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>ESS: H&aacute; expectativa e medo. A UPP pode trazer um aspecto positivo, mas a falta de clareza sobre como se dar&aacute; esse processo deixa uma incerteza nos moradores. A pol&iacute;cia n&atilde;o mudou de atitude. Espera-se uma a&ccedil;&atilde;o muito violenta.<\/p>\n<p>IPS: No ato de lan&ccedil;amento de seu livro foram vendidos mais de 200 exemplares. O que a levou a escrev&ecirc;-lo?<\/p>\n<p>ESS: A motiva&ccedil;&atilde;o maior foi entender o processo da viol&ecirc;ncia de Estado por meio da pol&iacute;cia, algo que tinha dentro de mim desde crian&ccedil;a. Eu a via e n&atilde;o entendia a raz&atilde;o. Minha atua&ccedil;&atilde;o na Mar&eacute; &eacute; de milit&acirc;ncia e ativismo em quest&otilde;es comunit&aacute;rias para melhorar a qualidade de vida. Ajudei a criar o Observat&oacute;rio de Favelas e a Redes da Mar&eacute; para incidir nessa realidade social. Por&eacute;m, era necess&aacute;rio tratar o tema da viol&ecirc;ncia e da seguran&ccedil;a para que as a&ccedil;&otilde;es no campo social surtissem efeito. E se tornou fundamental entender a seguran&ccedil;a p&uacute;blica.<\/p>\n<p>IPS: No livro voc&ecirc; aborda a banaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia e a compara com a aceita&ccedil;&atilde;o registrada na l&oacute;gica do Estado nazista: a viol&ecirc;ncia como um ato institucional para manter a ordem. Como justifica essa compara&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>ESS: &Eacute; importante trabalhar nas favelas a compreens&atilde;o da seguran&ccedil;a como um direito, semelhante &agrave; sa&uacute;de ou &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, porque seus habitantes n&atilde;o t&ecirc;m no&ccedil;&atilde;o de seu direito &agrave; seguran&ccedil;a. &Eacute; preciso tra&ccedil;ar essa ideia do direito para pensar pol&iacute;ticas p&uacute;blicas. A atua&ccedil;&atilde;o policial na favela segue uma l&oacute;gica b&eacute;lica. O exemplo do Estado nazista &eacute; para dar uma dimens&atilde;o da gravidade. Embora seja inaceit&aacute;vel, nesse contexto h&aacute; um comando e uma ordem que naturaliza as pr&aacute;ticas violentas, com a justi&ccedil;a do tr&aacute;fico de drogas. Inclusive eu, que experimentava inquieta&ccedil;&atilde;o diante dessa l&oacute;gica, tinha um olhar atravessado por esses atos de viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>IPS: Em sua pesquisa voc&ecirc; colheu depoimentos de moradores, e tamb&eacute;m seguiu a rotina de policiais e de membros dos grupos armados ilegais. Com foi essa experi&ecirc;ncia?<\/p>\n<p>ESS: Queria entender como esses tr&ecirc;s grupos lidavam com a ideia de seguran&ccedil;a p&uacute;blica. Como se sentiam a pol&iacute;cia, protagonista importante deste processo; o morador, que deveria ser o destinat&aacute;rio deste servi&ccedil;o; e quem se move no terreno do il&iacute;cito. Detectei o vazio e a falta de di&aacute;logo entre os tr&ecirc;s protagonistas e um forte preconceito por parte dos agentes de seguran&ccedil;a com rela&ccedil;&atilde;o aos moradores das favelas, que leva a uma vis&atilde;o distorcida sobre quem s&atilde;o as pessoas que ali vivem, como se toda a comunidade estivesse impregnada de condutas ilegais.<\/p>\n<p>O Complexo da Mar&eacute;<\/p>\n<p>O Complexo da Mar&eacute; fica na zona norte do Rio de Janeiro, perto da contaminada Ba&iacute;a de Guanabara e de importantes vias expressas que cortam a cidade em dire&ccedil;&atilde;o ao centro. Sua origem remonta a um longo processo de mudan&ccedil;as urbanas, vinculadas a atividades industriais e grandes obras de infraestrutura, como a Avenida Brasil. Para a constru&ccedil;&atilde;o dessa importante via de acesso &agrave; cidade, aprovada em 1939, chegaram centenas de trabalhadores do Nordeste. Inaugurada no final da d&eacute;cada de 1940, muitos dos oper&aacute;rios que trabalharam nela ficaram pelas proximidades.<\/p>\n<p>At&eacute; a d&eacute;cada de 1980, a Mar&eacute; compreendia seis favelas, mas absorveu muitas mais devido &agrave; pol&iacute;tica urbana da ditadura militar (1964-1985), que removia esses assentamentos das &aacute;reas nobres da cidade e expulsava seus moradores para a periferia, neste caso conjuntos habitacionais constru&iacute;dos em florestas de mangue pr&oacute;ximos da Ba&iacute;a de Guanabara. Dessa forma, a Mar&eacute; se converteu em fruto do fracasso das pol&iacute;ticas habitacionais de sucessivos governos do Rio de Janeiro, cujo objetivo era erradicar as favelas. Hoje somam 16, com quase 130 mil moradores. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 19\/09\/2012 &ndash; A pacifica&ccedil;&atilde;o das favelas do Rio de Janeiro, como forma de enfrentar os grupos armados e eliminar o tr&aacute;fico de drogas, n&atilde;o &eacute; uma pol&iacute;tica p&uacute;blica efetiva, afirma Eliana Sousa Silva, que viveu quase 30 anos em uma dessas comunidades pobres e super-habitadas. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/09\/america-latina\/pacificao-de-favelas-no-chega-a-ser-poltica-pblica\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,11],"tags":[],"class_list":["post-10691","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10691","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10691"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10691\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10691"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10691"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10691"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}