{"id":10765,"date":"2012-10-04T09:39:52","date_gmt":"2012-10-04T09:39:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10765"},"modified":"2012-10-04T09:39:52","modified_gmt":"2012-10-04T09:39:52","slug":"renunciar-violncia-para-demonstrar-a-boa-vontade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/mundo\/renunciar-violncia-para-demonstrar-a-boa-vontade\/","title":{"rendered":"Renunciar &agrave; viol&ecirc;ncia para demonstrar a boa vontade"},"content":{"rendered":"<p>San Jos&eacute;, Costa Rica, 04\/10\/2012 &ndash; Por mais desolador que pare&ccedil;a, o relato de nossa esp&eacute;cie &eacute; escrito com pontua&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia. Medimos a passagem dos anos com o calend&aacute;rio da for&ccedil;a. <!--more--> Poucos s&atilde;o os epis&oacute;dios de conc&oacute;rdia entre todos os seres humanos. Poucas s&atilde;o as &eacute;pocas de harmonia e fraternidade. Neste vasto invent&aacute;rio de viv&ecirc;ncias humanas, raramente nos permitimos uma oportunidade para a paz duradoura.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria humana pode ser lida como a tens&atilde;o entre duas for&ccedil;as, entre o poder dos falc&otilde;es e as pombas da pol&iacute;tica. Ao ritmo desse p&ecirc;ndulo escrevemos as passagens mais cruciais de nossa vida coletiva. H&aacute; 25 anos esse p&ecirc;ndulo inclinou-se para o lado da paz na Am&eacute;rica Central e p&ocirc;s fim a 30 anos de enfrentamentos b&eacute;licos.<\/p>\n<p>Quais feitos distinguiram nossa hist&oacute;ria da de tantos outros que ainda sofrem a dor de um conflito armado? Quanto influiu o contexto, o momento, os atores, ou a sorte na produ&ccedil;&atilde;o do resultado? As circunst&acirc;ncias que antecederam a assinatura do Plano de Paz s&atilde;o bem conhecidas. Os n&uacute;meros dos mortos e feridos, dos refugiados e dos desaparecidos, povoam as prateleiras das bibliotecas. Mas h&aacute; tantas coisas que as cifras n&atilde;o mostram! Tantas coisas que se esfumam na recontagem oficial! H&aacute; algo intang&iacute;vel na dor de uma guerra, algo que envenena o ar com a ang&uacute;stia e a consci&ecirc;ncia insuport&aacute;veis da morte.<\/p>\n<p>O Plano de Paz nasceu em meio a este emaranhado de frustra&ccedil;&otilde;es, ap&oacute;s o fracasso final dos processos de media&ccedil;&atilde;o de alguns governos latino-americanos. Nossas probabilidades de &ecirc;xito t&ecirc;m a ver com o que assinamos, quem assinou, quando assinamos e sob quais condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O que assinamos? O Plano de Paz &eacute; um documento curto e preciso. Tem como &uacute;nico prop&oacute;sito alcan&ccedil;ar a paz e a democracia na regi&atilde;o, e n&atilde;o se det&eacute;m nos detalhes operacionais. Quando existem m&uacute;ltiplas partes em uma negocia&ccedil;&atilde;o, com interesses distintos e frequentemente contradit&oacute;rios, &eacute; vital definir a meta e reduzir o ru&iacute;do, porque cada parte apresenta suas contrapropostas e pretende implantar sua pr&oacute;pria agenda.<\/p>\n<p>O grande m&eacute;rito do Plano de Paz n&atilde;o foi o de ser um documento ideal, mas o de ter sido um documento poss&iacute;vel, que garantiu sua pr&oacute;pria sobreviv&ecirc;ncia ao exigir que as na&ccedil;&otilde;es realizassem elei&ccedil;&otilde;es livres e aperfei&ccedil;oassem suas institui&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas.<\/p>\n<p>Quem assinou? Apesar da press&atilde;o de Washington para excluir a Nicar&aacute;gua das negocia&ccedil;&otilde;es, o Plano de Paz incluiu desde o princ&iacute;pio o governo de Man&aacute;gua, porque n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel conduzir uma negocia&ccedil;&atilde;o de sucesso se n&atilde;o est&atilde;o presentes os leg&iacute;timos interlocutores de um conflito; por isso foi assinado por todos os governos centro-americanos.<\/p>\n<p>Enfrentamos press&otilde;es ingentes da parte do governo do presidente Ronald Reagan e dos regimes de Mikhail Gorbachov e Fidel Castro. Contudo, defendemos nossa vontade. N&atilde;o apenas porque era nossa, mas porque nenhuma guerra ideol&oacute;gica justifica a morte de seres inocentes. A paz foi decidida unicamente pelas partes signat&aacute;rias, porque, embora um l&iacute;der deva cercar-se de opini&otilde;es, ouvir argumentos e estudar a cr&iacute;tica, no final do dia precisa decidir exclusivamente com sua consci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Quando assinamos? Ao apresentar meu Plano de Paz aos presidentes centro-americanos compreendi que o tempo corria contra n&oacute;s. As pot&ecirc;ncias mundiais pressionavam para redobrar a presen&ccedil;a militar, enquanto a paci&ecirc;ncia internacional se esgotava, produto da frustra&ccedil;&atilde;o e do desgaste. Ao nos reunirmos na cidade de Guatemala, em agosto de 1987, de alguma maneira entendemos que aquela seria nossa &uacute;nica oportunidade. Saber isso, sentir que a vida de milh&otilde;es de centro-americanos estava atada ao des&iacute;gnio de umas tantas horas, nos infundiu a for&ccedil;a que precis&aacute;vamos. Desde o momento em que apresentei o Plano de Paz at&eacute; o dia em que o assinamos transcorreu pouco mais de meio ano. Se houv&eacute;ssemos prolongado o di&aacute;logo, talvez tiv&eacute;ssemos terminado por nos render.<\/p>\n<p>A l&oacute;gica do Plano de Paz era exigir o cessar-fogo como condi&ccedil;&atilde;o para dialogar. Renunciar &agrave; viol&ecirc;ncia para demonstrar a boa vontade. Assim, assinamos um acordo que transformou a vida de milh&otilde;es de seres humanos. Oxal&aacute; os l&iacute;deres do mundo se atrevessem a renunciar &agrave; viol&ecirc;ncia como ficha de jogo. Talvez se surpreendessem com a autoridade que tem a palavra desarmada. Talvez se assombrassem em saber o quanto pode fazer uma pessoa quando tem ao seu lado nada mais do que a raz&atilde;o e a verdade.<\/p>\n<p>&quot;A hist&oacute;ria &eacute; um pesadelo do qual tento acordar&quot;, dizia o her&oacute;i do Ulisses, de James Joyce. Durante muitos anos a humanidade tentou acordar de um pesadelo de guerra. A viol&ecirc;ncia que alimentou os mitos e inspirou as epopeias continua ditando a saga do mundo. Muito r&aacute;pido e com demasiada frequ&ecirc;ncia baixamos os bra&ccedil;os, voltamos a vista e damos a ordem de fogo. Muito r&aacute;pido e com demasiada frequ&ecirc;ncia, renunciamos &agrave; via diplom&aacute;tica. Mas n&atilde;o h&aacute; escrito um destino de dor para o homem. Ningu&eacute;m ainda ditou as p&aacute;ginas futuras desta linhagem deslumbrante, que, mesmo em meio &agrave;s armas, &eacute; capaz de amar e perdoar, capaz de construir e imaginar.<\/p>\n<p>Os &uacute;ltimos 25 anos na Am&eacute;rica Central foram um instante de quietude, um momento de sil&ecirc;ncio &agrave; beira do mar. Entretanto, por esse momento, por essa quietude, vale a pena viver e lutar. Por fazer da paz a op&ccedil;&atilde;o principal. Por fazer do di&aacute;logo a &uacute;nica sa&iacute;da. Por fazer dos pr&oacute;ximos s&eacute;culos o final de um longo pesadelo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* Oscar Arias S&aacute;nchez &eacute; ex-presidente da Costa Rica (1986-1990\/2006-2010) e Pr&ecirc;mio Nobel da Paz 1987.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>San Jos&eacute;, Costa Rica, 04\/10\/2012 &ndash; Por mais desolador que pare&ccedil;a, o relato de nossa esp&eacute;cie &eacute; escrito com pontua&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia. Medimos a passagem dos anos com o calend&aacute;rio da for&ccedil;a. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/mundo\/renunciar-violncia-para-demonstrar-a-boa-vontade\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13,4],"tags":[],"class_list":["post-10765","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-colunistas","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10765","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10765"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10765\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10765"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10765"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10765"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}