{"id":10785,"date":"2012-10-09T06:01:30","date_gmt":"2012-10-09T06:01:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10785"},"modified":"2012-10-09T06:01:30","modified_gmt":"2012-10-09T06:01:30","slug":"fazer-agricultura-entre-o-lixo-nos-camares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/africa\/fazer-agricultura-entre-o-lixo-nos-camares\/","title":{"rendered":"Fazer agricultura entre o lixo nos camar&otilde;es"},"content":{"rendered":"<p>Yaound&eacute;, 09\/10\/2012 &ndash; Juliana Numfor, agricultora urbana cameronesa, possui seis parcelas de terra onde planta milho, mandioca, batata doce e produtos hort&iacute;colas de folha, incluindo couves-repolho, quiabos selvagens e verduras. <!--more--> O solo onde as colheitas s&atilde;o plantadas &eacute; h&uacute;mido e visivelmente pantanoso, com um curso de &aacute;gua bastante pr&oacute;ximo. Mas se se olhar mais de perto, verifica-se que a &aacute;gua &eacute; escura e tem mau cheiro.<\/p>\n<p>Na realidade, s&atilde;o &aacute;guas residuais provenientes de um bairro residencial para estudantes em Yaound&eacute;, popularmente designado &quot;Cradat&quot;, e que se encontra a menos de 400 metros das suas parcelas de terra. <\/p>\n<p>Mas &eacute; precisamente devido a estas &aacute;guas residuais que Numfor cultiva estas parcelas p&uacute;blicas.<\/p>\n<p>Ela disse &agrave; IPS que preferia plantar as suas culturas em locais onde h&aacute; &aacute;guas residuais urbanas porque pode irrig&aacute;-las com facilidade uma vez que estavam imediatamente dispon&iacute;veis. Segundo Numfor, esta situa&ccedil;&atilde;o devia-se ao facto das chuvas se terem tornado cada vez mais irregulares &#8211; apareciam e desapareciam quando menos ela esperava. <\/p>\n<p>&quot;O tipo de culturas nesta parcela de terra pode crescer em qualquer terra f&eacute;rtil se for bem irrigada. Mas durante este per&iacute;odo em Agosto, que supostamente &eacute; uma altura muito chuvosa em Yaound&eacute;, a pluviosidade foi extremamente escassa, tornando imposs&iacute;vel o crescimento das culturas hort&iacute;colas sem uma irriga&ccedil;&atilde;o adequada,&quot; disse Numfor.<\/p>\n<p>E Numfor n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica agricultora a faz&ecirc;-lo. Os pequenos agricultores que vivem perto do centro da cidade de Yaound&eacute; cultivam cada vez mais em s&iacute;tios onde h&aacute; &aacute;guas residuais.<\/p>\n<p>Muito embora n&atilde;o existam n&uacute;meros oficiais que indiquem quantas pessoas est&atilde;o a cultivar estas &aacute;reas, o Minist&eacute;rio da Agricultura e Desenvolvimento Rural (MINADER) admitiu que a pr&aacute;tica era muito comum. <\/p>\n<p>Actualmente &eacute; poss&iacute;vel ver-se pequenos agricultores dentro e em redor de Yaound&eacute; a plantarem as suas culturas em terrenos p&uacute;blicos, ao longo das vias f&eacute;rreas, em zonas de conserva&ccedil;&atilde;o e mesmo perto das estradas.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; uma pr&aacute;tica de longa data que se intensificou devido a uma s&eacute;rie de causas, sendo as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas uma delas. Muitos agricultores voltaram-se para a agricultura urbana com &aacute;guas residuais,&quot; contou &agrave; IPS Collette Ekobo, uma inspectora do MINADER.<\/p>\n<p>Uma mulher de 45 anos disse &agrave; IPS que conhecia outras 11 mulheres que cultivavam as suas culturas em terrenos localizados perto de &aacute;guas residuais. &quot;Tudo o que sei &eacute; que a terra &eacute; muito f&eacute;rtil. Penso que, devido ao facto de as pessoas esvaziarem os colectores de esgotos e outros res&iacute;duos dom&eacute;sticos nestas &aacute;guas, isso torna a terra muito f&eacute;rtil para a agricultura. E h&aacute; &aacute;gua em todas as esta&ccedil;&otilde;es do ano,&quot; afirmou. <\/p>\n<p>Acredita-se que a migra&ccedil;&atilde;o rural-urbana, agravada pelos efeitos adversos das altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas na agricultura rural, seja uma das raz&otilde;es principais para o crescente n&uacute;mero de agricultores urbanos na cidade.<\/p>\n<p>Em 2011, o MINADER come&ccedil;ou a avisar os agricultores acerca da variabilidade clim&aacute;tica que afecta a agricultura em todo o pa&iacute;s. Yaound&eacute;, cidade situada na Regi&atilde;o Centro dos Camar&otilde;es, tem sentido uma pluviosidade reduzida. <\/p>\n<p>&quot;Ao longo dos anos, em Yaound&eacute;, o padr&atilde;o da pluviosidade tem variado muito e n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil compreend&ecirc;-lo. A pluviosidade tornou-se muito irregular, imprevis&iacute;vel e reduzida&#8230; esta situa&ccedil;&atilde;o conduz &agrave; seca prolongada e ao desaparecimento dos cursos de &aacute;gua, acompanhado por condi&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas extremamente quentes &#8211; resultando num fraco desempenho da produ&ccedil;&atilde;o agr&iacute;cola e baixa produtividade,&quot; disse o Minist&eacute;rio. <\/p>\n<p>Ekobo afirmou que, devido &agrave;s altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas, muitos agricultores t&ecirc;m dificuldade em prever quando devem come&ccedil;ar a plantar.<\/p>\n<p>&quot;Tradicionalmente, o m&ecirc;s de Mar&ccedil;o marca o in&iacute;cio da esta&ccedil;&atilde;o de plantio na Regi&atilde;o Centro dos Camar&otilde;es, que se segue ao in&iacute;cio das chuvas. Mas devido &agrave; mudan&ccedil;a do padr&atilde;o de pluviosidade, os agricultores tiveram de reajustar os seus per&iacute;odos de planta&ccedil;&atilde;o, fen&oacute;meno que &eacute; dif&iacute;cil de compreender na totalidade e que tem causado muita confus&atilde;o entre os agricultores,&quot; explicou Ekobo.  Acrescentou que a agricultura urbana estava integrada no sistema econ&oacute;mico urbano e ecol&oacute;gico dos Camar&otilde;es.<\/p>\n<p>&quot;A terra &eacute; rica em recursos urbanos, como res&iacute;duos org&acirc;nicos, que s&atilde;o usados como adubo, e em &aacute;guas residuais, que s&atilde;o usadas na irriga&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m existem liga&ccedil;&otilde;es directas aos consumidores urbanos,&quot; afirmou Ekobo.<\/p>\n<p>Mas a actividade agr&iacute;cola em locais onde existem &aacute;guas residuais n&atilde;o &eacute; uma pr&aacute;tica segura, de acordo com Foongang Mathias, especialista em agricultura junto do Minist&eacute;rio do Meio Ambiente, Protec&ccedil;&atilde;o da Natureza e Desenvolvimento Sustent&aacute;vel.<\/p>\n<p>&quot;A irriga&ccedil;&atilde;o feita com &aacute;guas residuais oferece os nutrientes necess&aacute;rios &agrave;s plantas, especialmente o nitrog&eacute;nio e o azoto que as culturas necessitam para o seu crescimento. Mas a agricultura feita com &aacute;guas residuais cria amea&ccedil;as ambientais e para a sa&uacute;de, n&atilde;o s&oacute; para os agricultores nas zonas urbanas mas tamb&eacute;m para os consumidores das culturas que crescem nesses campos,&quot; apontou Mathias. <\/p>\n<p>Disse ainda &agrave; IPS que os res&iacute;duos t&oacute;xicos de casas, hospitais e ind&uacute;strias eram provavelmente depositados ou transferidos para as &aacute;guas residuais. <\/p>\n<p>&quot;Estas &aacute;guas cont&ecirc;m organismos patog&eacute;nicos e vectores de doen&ccedil;as que s&atilde;o semelhantes aos que existem nos dejectos humanos. Estes organismos patog&eacute;nicos que s&atilde;o transportados pelas &aacute;guas residuais podem sobreviver no solo ou nas culturas e s&atilde;o respons&aacute;veis por doen&ccedil;as contra&iacute;das pelos seres humanos,&quot; explicou Mathias.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, de acordo com a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de: &quot;Os dados dispon&iacute;veis indicam que quase todos os agentes patog&eacute;nicos excretados podem sobreviver no solo durante um per&iacute;odo de tempo suficientemente longo para criar riscos potenciais aos trabalhadores agr&iacute;colas.&quot;<\/p>\n<p>Pese embora os riscos contra a sua sa&uacute;de e a dos seus clientes, Numfor disse &agrave; IPS que os benef&iacute;cios econ&oacute;micos decorrentes da actividade agr&iacute;cola em &aacute;guas residuais ultrapassavam em larga medida os perigos. <\/p>\n<p>Iria continuar a vender os seus produtos aos clientes, que incluem propriet&aacute;rios de restaurantes e retalhistas. Numfor disse que ganhava uma m&eacute;dia de oito d&oacute;lares por dia, mas &agrave;s vezes conseguia mais quando vendia os produtos a mulheres que exportavam legumes dos Camar&otilde;es para os Estados Unidos e para a Europa. <\/p>\n<p>Num mercado local de Obili, um bairro em Yaound&eacute;, os vendedores exibem grandes quantidades de legumes cujo pre&ccedil;o varia entre 200 francos CFA (50 c&ecirc;ntimos) e 300 francos CFA (75 c&ecirc;ntimos) por cada molho. E aqui os consumidores n&atilde;o est&atilde;o interessados onde &eacute; que os produtos foram cultivados. <\/p>\n<p>&quot;Ignoro completamente o facto de terem sido cultivados em &aacute;guas residuais porque, mesmo se contiverem micr&oacute;bios, esses organismos n&atilde;o conseguem sobreviver &agrave;s elevadas temperaturas na panela,&quot; disse uma mulher &agrave; IPS, ao comprar tr&ecirc;s molhos de hortali&ccedil;a tipo folha amarga ou Vernonia Amygdalina.<\/p>\n<p>Outra disse acreditar que os legumes eram seguros se fossem cozinhados em condi&ccedil;&otilde;es higi&eacute;nicas e al&eacute;m disso, &quot;nunca ningu&eacute;m tinha protestado depois de ter consumido estes legumes.&quot; <\/p>\n<p>Entretanto, Ekobo afirmou que o governo n&atilde;o planeava regulamentar a agricultura praticada perto das &aacute;guas residuais. <\/p>\n<p>&quot;A agricultura urbana feita com &aacute;guas residuais n&atilde;o &eacute; uma actividade regulamentada nos Camar&otilde;es, apesar de constituir uma importante parte do sistema de alimenta&ccedil;&atilde;o urbano. Ainda n&atilde;o &eacute; considerada um problema potencial, mas antes um meio de subsist&ecirc;ncia para as mulheres.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Yaound&eacute;, 09\/10\/2012 &ndash; Juliana Numfor, agricultora urbana cameronesa, possui seis parcelas de terra onde planta milho, mandioca, batata doce e produtos hort&iacute;colas de folha, incluindo couves-repolho, quiabos selvagens e verduras. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/africa\/fazer-agricultura-entre-o-lixo-nos-camares\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1306,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10785","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10785","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1306"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10785"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10785\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10785"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10785"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10785"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}