{"id":1079,"date":"2005-10-07T00:00:00","date_gmt":"2005-10-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1079"},"modified":"2005-10-07T00:00:00","modified_gmt":"2005-10-07T00:00:00","slug":"afeganisto-quatro-anos-depois-da-invaso-os-perigos-continuam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/afeganisto-quatro-anos-depois-da-invaso-os-perigos-continuam\/","title":{"rendered":"Afeganist&atilde;o: Quatro anos depois da invas&atilde;o, os perigos continuam"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 07\/10\/2005 &ndash; Quatro anos depois da invas&atilde;o norte-americana que desalojou o regime isl&acirc;mico talib&atilde; do Afeganist&atilde;o, o governo do presidente Hamid Karzai goza de certa estabilidade, mas a situa&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a e da economia continua desesperadora. A estabilidade pol&iacute;tica, refor&ccedil;ada pelas exitosas elei&ccedil;&otilde;es do m&ecirc;s passado para as legislaturas regionais e nacional, d&aacute; lugar a declara&ccedil;&otilde;es de satisfa&ccedil;&atilde;o por parte das autoridades dos Estados Unidos. Entretanto, especialistas advertem que o Afeganist&atilde;o continua extremamente dependente de ajuda externa e sofre s&eacute;rias amea&ccedil;as, desde um ressurgimento da insurg&ecirc;ncia do Talib&atilde; at&eacute; a consolida&ccedil;&atilde;o do narcotr&aacute;fico como base da economia dom&eacute;stica.<br \/> <!--more--> <br \/> Os programas de treinamento para o ex&eacute;rcito e a pol&iacute;cia est&atilde;o atrasados em rela&ccedil;&atilde;o ao cronograma estabelecido, o que deixa vastas &aacute;reas distantes de Cabul sob o controle dos senhores da guerra. E nos &uacute;ltimos meses aumentou a quantidade de civis e soldados norte-americanos mortos por integrantes do movimento Talib&atilde; e das for&ccedil;as de seu principal aliado, Gulbuddin Hekmatyar. Este ano j&aacute; morreram em a&ccedil;&atilde;o 86 soldados norte-americanos, um n&uacute;mero enorme em rela&ccedil;&atilde;o aos 55 que ca&iacute;ram entre 7 de outubro de 2001, quando come&ccedil;ou a invas&atilde;o, e 31 de dezembro de 2002. Mais de 1.200 pessoas, no total, morreram em raz&atilde;o do conflito nos primeiros seis meses deste ano, segundo o Grupo Internacional de Crise (ICG).<\/p>\n<p> &quot;A guerra no Afeganist&atilde;o est&aacute; adquirindo um ritmo que n&atilde;o se previa&quot;, disse Michael Scheuer, ex-funcion&aacute;rio da Ag&ecirc;ncia Central de Intelig&ecirc;ncia norte-americana (CIA) que se dedicou durante boa parte de sua carreira a seguir o rastro do l&iacute;der da rede terrorista Al Qaeda, Osama bin Laden. O atentado que matou tr&ecirc;s mil pessoas em 11 de setembro de 2001 em Nova York, Washington e Pennsylvania, atribu&iacute;do &agrave; Al Qaeda &#8211; ent&atilde;o protegida em territ&oacute;rio afeg&atilde;o pelo Talib&atilde; &#8211; desatou com resposta um m&ecirc;s mais tarde a invas&atilde;o do Afeganist&atilde;o, a cargo de uma coaliz&atilde;o internacional encabe&ccedil;ada pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p> Os ataques insurgentes se tornaram cada vez mais complexos no &uacute;ltimo ano. Al&eacute;m disso, surgem evid&ecirc;ncias de que os islamitas radicais que combatem contra as for&ccedil;as norte-americanas no Iraque possuem equipamentos e experi&ecirc;ncia adquiridos na luta no Afeganist&atilde;o. Por outro lado, o comparecimento &agrave;s urnas marcou certa desilus&atilde;o dos cidad&atilde;os, pois ficou em 70% dos habilitados a votar nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 2004 e em 53% nas elei&ccedil;&otilde;es legislativas de agosto. Aqueles que obtiveram mais votos nas zonas mais seguras do territ&oacute;rio, como Ramyan Bachardost, em Cabul, protagonizaram campanhas populistas contra a corrup&ccedil;&atilde;o e o desperd&iacute;cio de assist&ecirc;ncia internacional, segundo Barnett Rubin, especialista da Universidade de Nova York.<\/p>\n<p> Rubin, junto com Scheuer e outros especialistas, participaram na quarta-feira de um f&oacute;rum sobre a situa&ccedil;&atilde;o no Afeganist&atilde;o patrocinada pela Universidade George Washington e pelo Centro para o Progresso dos Estados Unidos. As queixas da maioria da popula&ccedil;&atilde;o do interior do pa&iacute;s n&atilde;o cessam, apesar do grande crescimento econ&ocirc;mico registrado desde a instala&ccedil;&atilde;o, em dezembro de 2001, do governo interino de Karzai, confirmado no ano passado no cargo de Presidente. O Afeganist&atilde;o continua entre a meia d&uacute;zia de pa&iacute;ses mais pobres do mundo e, segundo informou em julho o Departamento de Estado norte-americano, 70% de sua popula&ccedil;&atilde;o sofrem desnutri&ccedil;&atilde;o, o maior &iacute;ndice do mundo.<\/p>\n<p> O fato de a atividade econ&ocirc;mica n&atilde;o estar atada &agrave; ajuda internacional se deve ao narcotr&aacute;fico, que, segundo Karzai, &eacute; o principal problema do pa&iacute;s junto com a corrup&ccedil;&atilde;o. A Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas calculou no come&ccedil;o do ano que o cultivo e tr&aacute;fico de papoula (insumo do &oacute;pio, da morfina e da hero&iacute;na) representam 60% da economia, isto &eacute;, US$ 2,8 bilh&otilde;es. O Departamento de Estado advertiu no ano passado que o Afeganist&atilde;o estava &quot;prestes a se converter em um Estado narc&oacute;tico&quot;, pois concentrava 90% da produ&ccedil;&atilde;o de papoula do mundo. As colheitas diminu&iacute;ram um pouco este ano, segundo a ONU, mas o pa&iacute;s se dedica cada vez mais ao processamento de hero&iacute;na.<\/p>\n<p> A grande depend&ecirc;ncia do narcotr&aacute;fico que sofre a economia afeg&atilde; origina um grande paradoxo para os Estados Unidos e outros doadores internacionais, segundo Rubin. &quot;N&atilde;o se pode estabelecer uma pol&iacute;tica de consolida&ccedil;&atilde;o nacional, por um lado, e, por outro, uma pol&iacute;tica de aniquilamento de um grande setor da economia&quot;, afirmou o especialista. O cultivo de papoula, acrescenta, encontra-se estendido a todas as prov&iacute;ncias. &quot;N&atilde;o h&aacute; sinais de uma estrat&eacute;gia completa de desenvolvimento, de constru&ccedil;&atilde;o de uma economia legal&quot;, acrescentou Rubin, que assessorou a ONU nas reuni&otilde;es de doadores realizadas em Bonn (Alemanha) em 2001.<\/p>\n<p> Tampouco o diplomata norte-americano James Dobbins, que representou seu pa&iacute;s nas reuni&otilde;es em Bonn, v&ecirc; &quot;uma estrat&eacute;gia para curto prazo&quot; que reduza a depend&ecirc;ncia do narcotr&aacute;fico. Qualquer medida para erradicar os cultivos neste momento n&atilde;o s&oacute; empobreceria ainda mais a popula&ccedil;&atilde;o rural, como tamb&eacute;m aprofundaria a desconex&atilde;o entre o governo em Cabul e o resto do pa&iacute;s, segundo Rubin. Isso aumentaria o sentimento de &quot;grande brecha institucional&quot; entre organiza&ccedil;&otilde;es locais e de base, a maioria das quais est&atilde;o nucleadas em torno de mesquitas, e o governo central.<\/p>\n<p> Outro motivo de vulnerabilidade institucional &eacute; a falta de consenso entre as mesquitas quanto &agrave; legitimidade do governo, advertiu Rubin. Os l&iacute;deres religiosos contam com uma ampla rede nacional que pode realizar mobiliza&ccedil;&otilde;es populares, algo que falta &agrave;s autoridades centrais e locais. Outro problema &eacute; a incoer&ecirc;ncia entre &quot;tr&ecirc;s ou quatro governos&quot; que incluem o escrit&oacute;rio da ONU em Cabul, a embaixada dos Estados Unidos, as organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-governamentais que administram a maior parte da ajuda internacional, o governo de Karzai e, &quot;em quinto lugar, o parlamento&quot;, disse o antrop&oacute;logo afeg&atilde;o Nazif Sharani, da Universidade de Indiana (EUA).<\/p>\n<p> Os Estados Unidos e o resto dos doadores cometeram um grave erro ao tratar de consolidar o governo central, em particular o ex&eacute;rcito e a pol&iacute;cia &#8211; aos quais se destina quase a metade do or&ccedil;amento central &#8211; &agrave;s custas das autonomias locais e organiza&ccedil;&otilde;es de base, segundo Sharani. &quot;Este governo continuar&aacute; n&atilde;o porque tem o apoio do povo, mas porque o povo teme a volta do Talib&atilde;&quot;, afirmou Sharani. O regime do Talib&atilde;, do qual participavam estudantes de teologia refugiados no Paquist&atilde;o durante a ocupa&ccedil;&atilde;o sovi&eacute;tica do Afeganist&atilde;o (1979-1989), proibiu a partir de 1996 a atividade art&iacute;stica, ignorou os direitos fundamentais das mulheres e destruiu antigos monumentos budistas.<\/p>\n<p> A vers&atilde;o fundamentalista do Isl&atilde; praticada pelo Talib&atilde; foi rejeitada por acad&ecirc;micos e pol&iacute;ticos de todo o mundo mu&ccedil;ulmano. A Confer&ecirc;ncia Isl&acirc;mica, integrada por 56 pa&iacute;ses, do Pac&iacute;fico ao Atl&acirc;ntico, nunca o apoiou. As mulheres eram proibidas de estudar, trabalhar e sa&iacute;rem sozinhas de casa. As que n&atilde;o usavam a burka, a tradicional vestimenta que as cobre dos p&eacute;s &agrave; cabe&ccedil;a, eram insultadas e espancadas. Muitas vi&uacute;vas morriam de fome porque, sem a companhia de um parente homem, eram impedidas de sa&iacute;rem de casa.<\/p>\n<p> A tentativa de criar uma sociedade isl&acirc;mica &quot;pura&quot; incluiu amputa&ccedil;&otilde;es e execu&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, com a inten&ccedil;&atilde;o de erradicar o crime. Foram tamb&eacute;m proibidos os enfeites e as maquiagens, o xadrez, a televis&atilde;o, o cinema, o teatro e a m&uacute;sica. O regime terminou em 2001, depois da opera&ccedil;&atilde;o militar liderada pelos Estados Unidos. A coaliz&atilde;o vencedora imp&ocirc;s, em dezembro desse ano, Karzai como presidente, um magnata exilado. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 07\/10\/2005 &ndash; Quatro anos depois da invas&atilde;o norte-americana que desalojou o regime isl&acirc;mico talib&atilde; do Afeganist&atilde;o, o governo do presidente Hamid Karzai goza de certa estabilidade, mas a situa&ccedil;&atilde;o da seguran&ccedil;a e da economia continua desesperadora. A estabilidade pol&iacute;tica, refor&ccedil;ada pelas exitosas elei&ccedil;&otilde;es do m&ecirc;s passado para as legislaturas regionais e nacional, d&aacute; lugar a declara&ccedil;&otilde;es de satisfa&ccedil;&atilde;o por parte das autoridades dos Estados Unidos. Entretanto, especialistas advertem que o Afeganist&atilde;o continua extremamente dependente de ajuda externa e sofre s&eacute;rias amea&ccedil;as, desde um ressurgimento da insurg&ecirc;ncia do Talib&atilde; at&eacute; a consolida&ccedil;&atilde;o do narcotr&aacute;fico como base da economia dom&eacute;stica.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/10\/america-latina\/afeganisto-quatro-anos-depois-da-invaso-os-perigos-continuam\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":104,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-1079","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1079"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1079\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}