{"id":10798,"date":"2012-10-10T03:44:31","date_gmt":"2012-10-10T03:44:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10798"},"modified":"2012-10-10T03:44:31","modified_gmt":"2012-10-10T03:44:31","slug":"lenta-ajuda-mdica-para-as-crianas-atormentadas-do-uganda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/africa\/lenta-ajuda-mdica-para-as-crianas-atormentadas-do-uganda\/","title":{"rendered":"Lenta ajuda m&eacute;dica para as crian&ccedil;as &#39;atormentadas&#39; do Uganda"},"content":{"rendered":"<p>KAMPALA, 10\/10\/2012 &ndash; Na terra molhada cheia de fruta fresca proveniente de uma grande mangueira na aldeia de Tumangu, no norte do Uganda, Betty Olana (42) senta-se num tapete de papiro e toma conta de quatro crian&ccedil;as macilentas infectadas com o misterioso s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a que deixa as vit&iacute;mas mentalmente deficientes e a abanar a cabe&ccedil;a repetidamente quando v&ecirc;em comida ou &aacute;gua fria. <!--more--> Uma delas &eacute; a sua filha, Joyce Laram (15), que se senta com a boca aberta com saliva a escorrer pelo queixo. As crian&ccedil;as doentes raramente falam e, quando o fazem, emitem palavras inintelig&iacute;veis apenas compreendidas pelos pais.<\/p>\n<p>&quot;Na maior parte das vezes &eacute; &agrave; noite, quando a lua est&aacute; vis&iacute;vel, que ela delira. Dificilmente consegue dormir &agrave; noite. Grita de repente e por isso temos de amarr&aacute;-la. Agora est&aacute; a dizer: &#39;Estou a ver fantasmas. Os fantasmas est&atilde;o aqui. Estou a v&ecirc;-los com os meus pr&oacute;prios olhos. Por favor protejam-me.&quot; Olana disse &agrave; IPS que a filha era completamente normal at&eacute; aos 10 anos. <\/p>\n<p>As v&iacute;timas desta condi&ccedil;&atilde;o neurol&oacute;gica inexplic&aacute;vel apresentam numerosos sintomas, incluindo abanar a cabe&ccedil;a continuamente, atraso mental, epilepsia, erup&ccedil;&otilde;es cut&acirc;neas e m&atilde;os tr&eacute;mulas. Muitos dos infectados tamb&eacute;m sofrem de subnutri&ccedil;&atilde;o visto que as suas convuls&otilde;es s&atilde;o desencadeadas pela comida.<\/p>\n<p>&quot;No in&iacute;cio come&ccedil;ou a abanar a cabe&ccedil;a. H&aacute; muito tempo que toma medicamentos (para a epilepsia). Os m&eacute;dicos dizem que &eacute; epilepsia, mas eu acho que n&atilde;o. Penso que esta crian&ccedil;a, tal como acontece com as outras na aldeia, &eacute; atormentada pelos esp&iacute;ritos dos mortos,&quot; disse Olana.<\/p>\n<p>Os especialistas de sa&uacute;de afirmam que a doen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; contagiosa. Mas os cientistas sabem pouco acerca desta doen&ccedil;a fatal que n&atilde;o tem cura e que apareceu primeiro na Tanz&acirc;nia na d&eacute;cada de 60. O governo do Uganda calcula que desde Janeiro j&aacute; morreram 200 crian&ccedil;as com esta doen&ccedil;a.<\/p>\n<p>As crian&ccedil;as t&ecirc;m de ser vigiadas constantemente porque algumas j&aacute; cairam em fogos e rios, enquanto que outras foram comidas por animais selvagens. Alguns pais amarram os filhos &agrave;s &aacute;rvores ou fecham-nos &agrave; chave quando t&ecirc;m de trabalhar nos campos ou ir ao mercado. Mas muitos foram abandonados.<\/p>\n<p>Agora, os pais e os trabalhadores humanit&aacute;rios no norte do Uganda, onde o &#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39; &eacute; prevalecente, est&atilde;o furiosos pelo facto de o governo n&atilde;o fazer o suficiente para combater a doen&ccedil;a. <\/p>\n<p>A regi&atilde;o ficou devastada pela guerra contra os rebeldes do Ex&eacute;rcito de Resist&ecirc;ncia do Senhor (LRA), dirigido por Joseph Kony. Foi um dos conflitos mais longos em &Aacute;frica, que come&ccedil;ou em 1978 e passou para o vizinho Sul do Sud&atilde;o e para a Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo. <\/p>\n<p>O LRA foi acusado de abusos de direitos humanos, incluindo o rapto de 20.000 crian&ccedil;as, o assassinato de quase 100.000 civis, mutila&ccedil;&atilde;o, escravatura, tortura e viola&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>O &#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39;, que afecta principalmente crian&ccedil;as entre os tr&ecirc;s e os 18 anos, foi oficialmente referido pela primeira vez no distrito de Kitgum, no norte do Uganda, em 2008.<\/p>\n<p>Mas agora espalhou-se a quatro outros distritos vizinhos. Uma organiza&ccedil;&atilde;o de caridade, o F&oacute;rum Kitgum NGO, que foi a primeira a anunciar o surto epid&eacute;mico na &aacute;rea, estima que quase 5.000 crian&ccedil;as estejam infectadas com a doen&ccedil;a, mas os funcion&aacute;rios de sa&uacute;de governamentais dizem que s&oacute; existem 3.200.<\/p>\n<p>Na aldeia de Tumangu, localizada numa plan&iacute;cie pontilhada com arbustos espinhosos, mangueiras e jardins com mandioca, virtualmente cada lar tem uma crian&ccedil;a com o &#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39;.<\/p>\n<p>Alguns pais em Tumangu, que se sentem divididos entre repartir o seu tempo a trabalhar nas suas pequenas explora&ccedil;&otilde;es agr&iacute;colas de subsist&ecirc;ncia ou cuidar dos filhos, criaram uma rede comunit&aacute;ria onde as pessoas se revezam para supervisionar os grupos de crian&ccedil;as infectadas.<\/p>\n<p>Isto tornou-se cada vez mais necess&aacute;rio porque tem havido relatos de casos de abuso sexual de raparigas com o &#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39;.<\/p>\n<p>Gladys Laker, que dirige o F&oacute;rum Kitgum NGO, afirmou que, apesar do governo ter intervindo para conter a doen&ccedil;a na &aacute;rea no final do ano passado, &quot;a aten&ccedil;&atilde;o dedicada ao &#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39; est&aacute; a diminuir e agora vemos v&iacute;timas do sexo feminino a serem violadas.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Temos informa&ccedil;&atilde;o de um relat&oacute;rio recente que indica que as raparigas doentes foram abusadas sexualmente e ficaram gr&aacute;vidas. Os homens aproveitam a condi&ccedil;&atilde;o destas crian&ccedil;as para as violar,&quot; disse Laker &agrave; IPS. <\/p>\n<p>&quot;Embora estas crian&ccedil;as estejam doentes, as que n&atilde;o est&atilde;o completamente dominadas pelos sintomas da doen&ccedil;a s&atilde;o encorajadas a ir &agrave; escola. E &eacute; nessa altura que os homens as atacam. Os pais n&atilde;o as podem vigiar a toda a hora e, quando v&atilde;o trabalhar nos campos, algumas destas crian&ccedil;as s&atilde;o abusadas sexualmente,&quot; contou.<\/p>\n<p>A situa&ccedil;&atilde;o deixou William Owacha preocupado com o futuro da filha de 17 anos, Susan. <\/p>\n<p>&quot;Isto &eacute; grave,&quot; disse, referindo-se aos incidentes de viola&ccedil;&atilde;o. &quot;O governo devia tomar conta da situa&ccedil;&atilde;o rapidamente porque isto &eacute; neglig&ecirc;ncia.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Estou preocupado porque ela n&atilde;o tem futuro. A Susan agora &eacute; in&uacute;til. N&atilde;o consegue comunicar adequadamente, n&atilde;o tem apetite, contempla sempre o v&aacute;cuo de forma abstracta e de repente cai no ch&atilde;o. N&atilde;o &eacute; uma pessoa normal. A situa&ccedil;&atilde;o aqui &eacute; alarmante porque os nossos filhos est&atilde;o cada vez mais infectados. Aqui na aldeia de Lameiti (no norte do Uganda), n&oacute;s, os pais, choramos,&quot; disse Owacha.<\/p>\n<p>Mas a Directora-Geral dos Servi&ccedil;os de Sa&uacute;de do Uganda, a Dr&ordf; Jane Achen, disse &agrave; IPS que o n&uacute;mero de casos de viola&ccedil;&atilde;o era m&iacute;nimo <\/p>\n<p>&quot;Ouvimos falar de alguns casos. Mas n&atilde;o s&atilde;o incidentes generalizados e n&atilde;o devem causar alarme porque ser&atilde;o resolvidos,&quot; declarou.<\/p>\n<p>Rejeitou as alega&ccedil;&otilde;es que o governo n&atilde;o estava a fazer o suficiente para combater a doen&ccedil;a. A Dr&ordf; Achen disse &agrave; IPS que no in&iacute;cio de 2012 o governo disponibilizou 1.4 milh&otilde;es de d&oacute;lares para a aquisi&ccedil;&atilde;o de medicamentos contra a epilepsia, suplementos contra a subnutri&ccedil;&atilde;o e alimentos para as v&iacute;timas. O governo planeava disponibilizar mais 1.6 milh&otilde;es de d&oacute;lares, acrescentou.<\/p>\n<p>A Dr&ordf; Achen disse ainda que o Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de tinha criado quatro centros de recep&ccedil;&atilde;o regionais para pacientes e planeava construir instala&ccedil;&otilde;es de reabilita&ccedil;&atilde;o para cuidar das crian&ccedil;as com atraso mental.<\/p>\n<p>&quot;As infec&ccedil;&otilde;es n&atilde;o t&ecirc;m aumentado e o n&uacute;mero &eacute; 3.200. Fizemos tudo para conter a dissemina&ccedil;&atilde;o da doen&ccedil;a e cuidar das v&iacute;timas. O resultado &eacute; que as pessoas est&atilde;o sensibilizadas para esta doen&ccedil;a e avisam as autoridades logo que um caso suspeito aparece,&quot; referiu.<\/p>\n<p>Yeko Lupa, que chefia o Grupo Operacional do&#39;S&iacute;ndroma de Abanar a Cabe&ccedil;a&#39; em Kitgum, disse &agrave; IPS que estavam a ser envidados esfor&ccedil;os para proteger as crian&ccedil;as doentes.<\/p>\n<p>&quot;Os pais deixam as crian&ccedil;as em casa e os b&ecirc;bados aproveitam-se delas e violam-nas. Conhe&ccedil;o tr&ecirc;s raparigas que foram abusadas sexualmente e que ficaram gr&aacute;vidas, e duas j&aacute; deram &agrave; luz,&quot; disse Lupa.<\/p>\n<p>&quot;Estamos a tentar resolver este problema &#8211; a sensibilizar as pessoas para n&atilde;o abusarem das crian&ccedil;as. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil porque n&atilde;o conseguimos descobrir quem s&atilde;o os homens que fazem isto. As reparigas n&atilde;o sabem quem &eacute; que as (violou) porque t&ecirc;m uma mem&oacute;ria muito fraca,&quot; disse.<\/p>\n<p>Entretanto, parece que h&aacute; provas de uma liga&ccedil;&atilde;o entre o &#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39;.e a oncorcecose ou &#39;doen&ccedil;a da cegueira dos rios&#39;. A &#39;doen&ccedil;a da cegueira dos rios&#39; &eacute; uma doen&ccedil;a dos olhos e da pele que se propaga atrav&eacute;s da mosca-negra. Os especialistas da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de (OMS) e do Centro de Controlo das Doen&ccedil;as dos Estados Unidos fizeram testes em amostras das v&iacute;timas, na sequ&ecirc;ncia de um pedido de ajuda apresentado pelo governo do Uganda no ano passado. <\/p>\n<p>O Director da OMS no Uganda, Dr Joachim Saweka, disse &agrave; IPS que, apesar dos testes n&atilde;o serem conclusivos, existem provas de uma liga&ccedil;&atilde;o entre as duas doen&ccedil;as. H&aacute; anos que a &#39;doen&ccedil;a da cegueira dos rios&#39; se propaga rapidamente no norte do Uganda em &aacute;reas localizadas ao longo das margens dos rios.<\/p>\n<p>&quot;Noventa e tr&ecirc;s por cento dos casos do&#39;s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a&#39; ocorrem em &aacute;reas ao longo das margens dos rios onde a &#39;doen&ccedil;a da cegueira dos rios&#39; &eacute; comum. Temos casos que demonstram uma forte liga&ccedil;&atilde;o entre esta doen&ccedil;a e a &#39;doen&ccedil;a da cegueira dos rios&#39;, mas n&atilde;o estabelecemos uma liga&ccedil;&atilde;o neurol&oacute;gica. As investiga&ccedil;&otilde;es continuam,&quot; afirmou Saweka.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KAMPALA, 10\/10\/2012 &ndash; Na terra molhada cheia de fruta fresca proveniente de uma grande mangueira na aldeia de Tumangu, no norte do Uganda, Betty Olana (42) senta-se num tapete de papiro e toma conta de quatro crian&ccedil;as macilentas infectadas com o misterioso s&iacute;ndroma de abanar a cabe&ccedil;a que deixa as vit&iacute;mas mentalmente deficientes e a abanar a cabe&ccedil;a repetidamente quando v&ecirc;em comida ou &aacute;gua fria. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/africa\/lenta-ajuda-mdica-para-as-crianas-atormentadas-do-uganda\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1321,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10798","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10798","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1321"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10798"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10798\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}