{"id":10892,"date":"2012-10-29T08:30:48","date_gmt":"2012-10-29T08:30:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10892"},"modified":"2012-10-29T08:30:48","modified_gmt":"2012-10-29T08:30:48","slug":"brasil-o-futebol-derruba-museu-indgena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/america-latina\/brasil-o-futebol-derruba-museu-indgena\/","title":{"rendered":"BRASIL: O futebol derruba museu ind&iacute;gena"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 29\/10\/2012 &ndash; Entre o musgo e as ra&iacute;zes, que avan&ccedil;am sobre as ru&iacute;nas do ex-Museu do &Iacute;ndio, ainda &eacute; poss&iacute;vel &quot;ouvir&quot; as vozes de tribos em extin&ccedil;&atilde;o no Brasil, que tentam guardar a mem&oacute;ria de sua cultura. <!--more--> Contudo, o golpe fatal de picareta da remodela&ccedil;&atilde;o do est&aacute;dio do Maracan&atilde; n&atilde;o respeitar&aacute; nem esse espa&ccedil;o &quot;sagrado&quot;. &quot;&Eacute; como se matassem uma parte de n&oacute;s, como se estiv&eacute;ssemos perdendo um peda&ccedil;o, porque neste lugar nossos antepassados deixaram sua mem&oacute;ria, sua luta&quot;, lamenta Garapira Patax&oacute;, da etnia patax&oacute;, em entrevista &agrave; IPS, depois que o governo do Estado do Rio de Janeiro confirmou a decis&atilde;o de demolir o lugar.<\/p>\n<p>As autoridades alegam que &eacute; necess&aacute;rio para a constru&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de &quot;circula&ccedil;&atilde;o e mobilidade&quot; ao redor do Est&aacute;dio Jornalista M&aacute;rio Filho, onde, em 2014, pela segunda vez na hist&oacute;ria, ser&aacute; jogada uma final de copa do mundo. O pr&eacute;dio, constru&iacute;do h&aacute; 147 anos, foi desde 1953 a primeira sede do Museu do &Iacute;ndio, criado pelo antrop&oacute;logo Darcy Ribeiro (1992-1997), at&eacute; que, em 1978, passou a ocupar um antigo casar&atilde;o no bairro de Botafogo. Tamb&eacute;m abrigou em sua origem o Servi&ccedil;o de Prote&ccedil;&atilde;o ao &Iacute;ndio, que mais tarde passou a ser a atual Funda&ccedil;&atilde;o Nacional do &Iacute;ndio (Funai).<\/p>\n<p>Abandonado desde ent&atilde;o e em avan&ccedil;ado estado de deteriora&ccedil;&atilde;o, o edif&iacute;cio foi ocupado em 2006 por cerca de 20 ind&iacute;genas de diferentes etnias, como &quot;s&iacute;mbolo de resist&ecirc;ncia cultural&quot;, recorda o l&iacute;der ind&iacute;gena Doitir&oacute; Tukano, do povo amaz&ocirc;nico tukano. &quot;Estamos presentes aqui para mostrar o que temos de diferente em nossa cultura, porque n&atilde;o &eacute; c&oacute;pia, mas pr&oacute;pria. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat&iacute;stica, h&aacute; 305 grupos ind&iacute;genas com 186 l&iacute;nguas diferentes no Brasil, e &eacute; isso o que queremos mostrar. Esta &eacute; nossa resist&ecirc;ncia&quot;, explicou Tukano &agrave; IPS.<\/p>\n<p>Uma das vers&otilde;es, ainda n&atilde;o confirmada, &eacute; que ser&aacute; constru&iacute;do um centro comercial e esportivo e um estacionamento no antigo museu, vizinho ao hist&oacute;rico est&aacute;dio, onde o Brasil perdeu a final do Mundial de 1950 para o Uruguai. O governador do Rio de Janeiro, S&eacute;rgio Cabral, atribuiu a necessidade demolir o Museu do &Iacute;ndio a uma exig&ecirc;ncia da Fifa, mas a entidade negou.<\/p>\n<p>Renato Cosentino, porta-voz do Comit&ecirc; Popular do Mundial de Futebol 2014 e dos Jogos Ol&iacute;mpicos 2016, comentou a contradi&ccedil;&atilde;o. &quot;Muitas vezes &eacute; usada a desculpa do esporte para desalojar pessoas de &aacute;reas de alto valor imobili&aacute;rio&quot;, disse &agrave; IPS, referindo-se ao Rio de Janeiro e &agrave;s outras 11 cidades que ser&atilde;o sede da Copa. Foram desalojadas cerca de 170 mil pessoas em todo o pa&iacute;s, e cerca de 30 mil no Rio de Janeiro, que tamb&eacute;m receber&aacute; as Olimp&iacute;adas de 2016.<\/p>\n<p>Precisamente, duas das favelas onde isso aconteceu s&atilde;o vizinhas do Maracan&atilde;, um &quot;s&iacute;mbolo de todo o processo de viola&ccedil;&atilde;o de direitos que estamos vivendo no Brasil&quot;, afirmou o representante do Comit&ecirc;, que re&uacute;ne pessoas prejudicadas pelos megaencontros esportivos. &quot;&Eacute; uma grande tristeza ver que nosso sonho acaba. &Eacute; uma refer&ecirc;ncia que gostar&iacute;amos de guardar para as futuras gera&ccedil;&otilde;es&quot;, disse o l&iacute;der Tukano, ap&oacute;s explicar que n&atilde;o &eacute; &quot;contra a alegria do povo brasileiro pelo futebol. Mas, para n&oacute;s, o Mundial n&atilde;o traz nada. Claro que dar&aacute; benef&iacute;cios &agrave;s grandes empresas patrocinadoras&quot;.<\/p>\n<p>O grupo ind&iacute;gena se prepara para &quot;resistir&quot; &agrave; demoli&ccedil;&atilde;o de seu espa&ccedil;o, enquanto a defensoria p&uacute;blica prepara sua contraofensiva judicial, alegando o valor patrimonial hist&oacute;rico do pr&eacute;dio. Na &aacute;rea que rodeia o edif&iacute;cio em ru&iacute;nas, os ind&iacute;genas constru&iacute;ram casas, com materiais b&aacute;sicos como adobe, para viverem, e assim recriaram o que chamaram de Aldeia Maracan&atilde;, onde reproduzem seus costumes em meio a uma cidade que avan&ccedil;a sobre eles. Entre escadas enferrujadas e ra&iacute;zes se entrela&ccedil;ando com paredes destru&iacute;das, os ind&iacute;genas organizam atividades culturais como dan&ccedil;as, cerim&ocirc;nias, exposi&ccedil;&otilde;es fotogr&aacute;ficas, rituais e at&eacute; desfiles de roupa ancestral.<\/p>\n<p>Antes de ser confirmada a demoli&ccedil;&atilde;o, no lugar era preparado um ritual de &quot;metamorfose de menina para mulher&quot;, para a qual viriam adolescentes de v&aacute;rias aldeias do interior do pa&iacute;s. &quot;Veja como o &iacute;ndio gosta de comer mandioca&quot;, brinca Afonso Chamakiri, da etnia apurin&aacute; do Amazonas, enquanto almo&ccedil;a com sua nova fam&iacute;lia pescado na brasa e farinha de mandioca.<\/p>\n<p>A hist&oacute;ria deste ind&iacute;gena apurin&aacute; &eacute; muito particular. Chegou ao Rio de Janeiro com o sonho de ser ator. &quot;Minha m&atilde;e veio uma vez para a cidade e voltou para casa impressionada por uma caixa onde havia gente que falava&quot;, conta &agrave; IPS se referindo &agrave; &quot;descoberta&quot; da televis&atilde;o por sua m&atilde;e no dia em que saiu pela primeira vez de sua aldeia amaz&ocirc;nica. Chamakiri concretizou seu sonho e participou de v&aacute;rios filmes. O &uacute;ltimo foi Vermelho Brasil, coprodu&ccedil;&atilde;o do Brasil com Fran&ccedil;a e Canad&aacute;.<\/p>\n<p>Sobre o muro levantado pela construtora respons&aacute;vel pela reforma do Maracan&atilde;, alguns oper&aacute;rios espiam a cerim&ocirc;nia dos ind&iacute;genas ao receber a IPS, pedindo aos seus ancestrais que iluminem o governo a respeito de seu &quot;espa&ccedil;o sagrado&quot;. Chamakiri afirma que &quot;n&atilde;o temos nada contra eles. Muitos s&atilde;o &iacute;ndios como n&oacute;s. Outros negros, povo como n&oacute;s&quot;. Chamakiri gosta de contar uma hist&oacute;ria que poucos recordam sobre a origem do nome que primeiro batizou um rio e depois o bairro carioca e, em seguida, popularizou o est&aacute;dio.<\/p>\n<p>Maracan&atilde; &eacute; uma ave da regi&atilde;o que ainda &quot;vem comer o fruto dessa &aacute;rvore&quot;, afirma, apontando para uma das muitas esp&eacute;cies que se mant&ecirc;m milagrosamente em p&eacute; em meio &agrave; urbaniza&ccedil;&atilde;o. O p&aacute;ssaro sobreviveu &agrave; civiliza&ccedil;&atilde;o, mas o &quot;antigo povo ind&iacute;gena maracan&atilde;, que dominava este territ&oacute;rio j&aacute; est&aacute; extinto&quot;, contou Chamakiri. Por isso, para ele &eacute; t&atilde;o importante manter o centro cultural, que &quot;representa o registro de todas as culturas ancestrais que come&ccedil;aram aqui e que foram destru&iacute;das neste espa&ccedil;o. Queremos que se converta em um espa&ccedil;o ind&iacute;gena sagrado&quot;. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, Brasil, 29\/10\/2012 &ndash; Entre o musgo e as ra&iacute;zes, que avan&ccedil;am sobre as ru&iacute;nas do ex-Museu do &Iacute;ndio, ainda &eacute; poss&iacute;vel &quot;ouvir&quot; as vozes de tribos em extin&ccedil;&atilde;o no Brasil, que tentam guardar a mem&oacute;ria de sua cultura. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/10\/america-latina\/brasil-o-futebol-derruba-museu-indgena\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[19,27],"class_list":["post-10892","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica","tag-arte-y-cultura","tag-brasil"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10892","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10892"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10892\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10892"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10892"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10892"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}