{"id":10925,"date":"2012-11-02T03:10:35","date_gmt":"2012-11-02T03:10:35","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10925"},"modified":"2012-11-02T03:10:35","modified_gmt":"2012-11-02T03:10:35","slug":"convencer-os-rebeldes-na-costa-do-marfim-a-entregarem-as-armas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/convencer-os-rebeldes-na-costa-do-marfim-a-entregarem-as-armas\/","title":{"rendered":"Convencer os Rebeldes na Costa do Marfim a Entregarem as Armas"},"content":{"rendered":"<p>ABIDJAN, 02\/11\/2012 &ndash; Com as suas botas pretas e farda verde &#8211; incluindo bra&ccedil;adeiras ostentando o nome do ex&eacute;rcito nacional, as For&ccedil;as Republicanas da Costa do Marfim &#8211; Ousmane Kone parecia realmente um soldado enquanto guardava uma companhia de distribui&ccedil;&atilde;o de electricidade e &aacute;gua numa ter&ccedil;a-feira &agrave; tarde em Abidjan. <!--more--> Mas a sua apar&ecirc;ncia era algo enganadora. Este soldado de 22 anos n&atilde;o recebera qualquer treino formal antes de lhe entregarem a espingarda Kalashnikov no ano passado, nem nunca esteve inscrito no ex&eacute;rcito da Costa do Marfim.<\/p>\n<p>Ainda por cima, o pr&eacute;dio que estava a guardar n&atilde;o era propriedade do estado mas antes de uma companhia privada pertencente ao seu &quot;comandante&quot;, antigo rebelde do grupo de for&ccedil;as rebeldes Novas For&ccedil;as da C&ocirc;te d&#39;Ivoire (FNCI).<\/p>\n<p>Kone &eacute; um dos muitos combatentes que pegaram em armas durante o recente conflito p&oacute;s-eleitoral na Costa do Marfim, que teve lugar depois do antigo Presidente Laurent Gbago se ter recusado a abandonar o cargo apesar de ter perdido as elei&ccedil;&otilde;es de Novembro de 2010 a favor do actual Presidente Alassane Ouattara. <\/p>\n<p>A ang&uacute;stia que sentiu ao ouvir relatos que membros do seu grupo &eacute;tnico, os Dioula, estavam a ser queimados vivos junto das barreiras montadas por combatentes que apoiavam Gbagbo em estradas em Abdijan levou Kone a n&atilde;o hesitar a juntar-se &agrave; fac&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel a Ouattara durante a batalha decisiva na capital comercial em Abril de 2011 que culminou na pris&atilde;o de Gbagbo.<\/p>\n<p>&quot;Os nossos amigos estavam a ser massacrados, e n&atilde;o tinhamos for&ccedil;a porque n&atilde;o tinhamos armas,&quot; contou. &quot;Escond&iacute;amo-nos todos os dias at&eacute; que as for&ccedil;as favor&aacute;veis a Ouattara lan&ccedil;aram o ataque contra Abidjan (em Abril de 2011).&quot;<\/p>\n<p>Hoje enfrenta um futuro incerto. Na mesma altura em que Costa do Marfim se est&aacute; a preparar para o longamente esperado programa de desarmamento, desmobiliza&ccedil;&atilde;o e reintegra&ccedil;&atilde;o (DDR), a realizar-se em concerta&ccedil;&atilde;o com reformas generalizadas no sector da seguran&ccedil;a, milhares the jovens est&atilde;o preocupados que as armas lhes v&atilde;o ser retiradas das m&atilde;os. <\/p>\n<p>Os analistas dizem que este tipo de ansiedade pode, em parte, ter provovado a onda de recentes ataques que causaram a morte a 12 soldados em Agosto, marcando alguma da viol&ecirc;ncia mais feroz desde que o conflito terminou h&aacute; mais de um ano.<\/p>\n<p>A nova campanha de DDR, que foi revista pelo governo de Ouattara mas ainda n&atilde;o come&ccedil;ou, n&atilde;o ser&aacute; a primeira na Costa do Marfim. Em 2002, na sequ&ecirc;ncia da tentativa de golpe falhado contra Gbagbo, o pa&iacute;s ficou dividido em dois durante oito anos, com as FNCI a controlarem o norte.<\/p>\n<p>Apesar de se ter tentado efectuar o desarmamento, desmobiliza&ccedil;&atilde;o e reintegra&ccedil;&atilde;o durante esse per&iacute;odo, o esfor&ccedil;o falhou por diversos motivos, at&eacute; porque o conflito n&atilde;o tinha ainda sido resolvido. <\/p>\n<p>Alain-Richard Donwahi, assessor de defesa e seguran&ccedil;a de Ouattara e secret&aacute;rio do seu conselho de seguran&ccedil;a nacional, disse &agrave; IPS que, antes do recente conflito, o governo calculara que aproximadamente 70.000 combatentes tinham de ser desarmados &#8211; 32.000 das FNCI e, segundo ele, 38.000 dos chamados &quot;grupos de mil&iacute;cias pro-Gbagbo.&quot;<\/p>\n<p>Disse ainda que o governo ainda n&atilde;o sabia o n&uacute;mero exacto de combatentes que se juntara &agrave;s fac&ccedil;&otilde;es beligerantes durante o conflito.<\/p>\n<p>Arthur Boutellis, analista de pol&iacute;tica s&eacute;nior junto do Instituto Internacional da Paz, afirmou que as mil&iacute;cias pro-Gbagbo iriam aumentar consideravelmente o n&uacute;mero de pessoas que tinham de ser desarmadas. &quot;Neste momento, dados os n&uacute;meros existentes, estamos a falar de potencialmente 100.000 pessoas,&quot; disse. &quot;N&atilde;o sabemos exactamente quantos s&atilde;o, mas os n&uacute;meros s&atilde;o elevad&iacute;ssimos.&quot;<\/p>\n<p>Donwahi reconheceu que diversas quest&otilde;es cruciais ainda tinham de ser resolvidas antes de se iniciar o processo de desarmamento. Uma &eacute; determinar quem &eacute; que precisamente ser&aacute; eleg&iacute;vel para participar nos programas de forma&ccedil;&atilde;o profissional que, segundo ele, iriam ser o ponto fulcral da componente de reintegra&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Descrevendo quem poderia n&atilde;o ser eleg&iacute;vel, Donwahi afirmou: &quot;Algumas pessoas que aparecem para ser desarmadas dizem que pertencem a um grupo independente de combatentes. Mas sabemos que n&atilde;o existiam combatentes independentes aqui. Havia uma clara cadeia de comando.&quot;<\/p>\n<p>Mas essa an&aacute;lise n&atilde;o se enquadra na maioria dos relatos de viol&ecirc;ncia. Al&eacute;m das cadeias paralelas de comando dentro das FNCI, o conflito na Costa do Marfim tamb&eacute;m contava com mercen&aacute;rios estrangeiros e v&aacute;rios outros grupos de mil&iacute;cias. Al&eacute;m disso, os dozos, ca&ccedil;adores profissionais que h&aacute; muito assumiram pap&eacute;is informais no sector da seguran&ccedil;a, participavam activamente nos combates e ret&ecirc;m uma forte presen&ccedil;a em grande parte do pa&iacute;s, segundo observadores como o Human Rights Watch.<\/p>\n<p>Embora estes grupos provavelmente n&atilde;o fa&ccedil;am parte do processo de desarmamento, Boutellis avan&ccedil;ou que podiam funcionar como potenciais &quot;desmancha-prazeres&quot;, desencorajando outros combatentes de entregarem as armas.<\/p>\n<p>Um organismo governamental independente criado para desarmar civis, a Comiss&atilde;o Nacional para a Luta Contra a Prolifera&ccedil;&atilde;o de Armas Ligeiras e de Pequeno Calibre, calcula que existam perto de tr&ecirc;s milh&otilde;es de armas ainda em circula&ccedil;&atilde;o. A popula&ccedil;&atilde;o da Costa do Marfim &eacute; aproximadamente de 20 milh&otilde;es de pessoas.<\/p>\n<p>Mais de um ano depois do conflito ter terminado, a Costa do Marfim continua a estar muito polarizada. Os esfor&ccedil;os para retomar o di&aacute;logo pol&iacute;tico entre o governo e a Frente Popular da Costa do Marfim, partido favor&aacute;vel a Gbagbo, n&atilde;o chegaram a lado nenhum. As divis&otilde;es exacerbaram-se devido ao processo judicial que muitas pssoas consideram parcial.<\/p>\n<p>Mais de 100 seguidores de Gbagbo foram detidos por estarem ligados a crimes e a viol&ecirc;ncia p&oacute;s-eleitoral, enquanto que nenhum dos aliados de Ouattara foi preso ou investigado de forma cred&iacute;vel, de acordo com a informa&ccedil;&atilde;o prestada pelo Minist&eacute;rio P&uacute;blico.<\/p>\n<p>Estes factores, combinados com os problemas de seguran&ccedil;a que continuam a existir, tornariam &quot;pouco realista&quot; que o processo de desarmamento, desmobiliza&ccedil;&atilde;o e reintegra&ccedil;&atilde;o se centrasse na recolha de armas desde o in&iacute;cio, afirmou Boutellis, visto que muitos combatentes olham para as suas armas como uma esp&eacute;cie de &quot;ap&oacute;lice de seguro.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Temos de come&ccedil;ar com os programas de reintegra&ccedil;&atilde;o que podem levar a um ambiente melhor, que poder&aacute; conduzir depois &agrave; recolha de armas,&quot; referiu.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso mais trabalho para desenvolver programas de reintegra&ccedil;&atilde;o, especialmente quando se fala de forma&ccedil;&atilde;o profissional, disse Donwahi. &quot;N&atilde;o vamos criar empregos por magia,&quot; acrescentou. &quot;&Eacute; importante fazer corresponder as oportunidades de emprego com as compet&ecirc;ncias dos combatentes desmobilizados.&quot;<\/p>\n<p>Quando indagado sobre as &aacute;reas a que o governo poderia dar prioridade, Donwahi mencionou a agricultura e o trabalho mec&acirc;nico como exemplos.<\/p>\n<p>Mesmo se os restantes passos forem bem implementados, o processo de desarmamento continua a estar repleto de perigo, disse Boutellis. &quot;V&atilde;o surgir problemas, e penso que alguns destes ataques est&atilde;o ligados ao facto dos combatentes n&atilde;o saberem onde v&atilde;o parar,&quot; declarou, referindo-se aos ataques contra as posi&ccedil;&otilde;es militares emn Agosto. &quot;Algumas pessoas t&ecirc;m receio de ficar exclu&iacute;das. Algumas pessoas t&ecirc;m receio de n&atilde;o conseguirem aquilo que querem.&quot; <\/p>\n<p>Isto aplica-se a Mohamed Bakayoko, combatente de 20 anos que, tal como Kone, se juntou ao ex&eacute;rcito nacional durante a batalha de Abidjan e continua a n&atilde;o estar inscrito.<\/p>\n<p>Bakayoko contou &agrave; IPS que gostava da estabilidade do ex&eacute;rcito &#8211; e, embora n&atilde;o tenha um sal&aacute;rio neste momento, tem abrigo e refei&ccedil;&otilde;es regulares, o que n&atilde;o &eacute; pouco num pa&iacute;s onde o desemprego entre os jovens se situava nos 57 por cento em 2010, de acordo com o Banco Mundial. Bakayoko deseja ser plenamente integrado no ex&eacute;rcito para poder sustentar a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>&quot;Pessoalmente, quero ser soldado visto que a minha fam&iacute;lia depende de mim,&quot; afirmou. &quot;N&atilde;o penso em mais nada.&quot; <\/p>\n<p>No entanto, acreditava que muitos dos soldados que n&atilde;o estavam inscritos n&atilde;o tinham realmente apetite para fazer o servi&ccedil;o militar e estariam receptivos a participar num programa de DDR bem gerido. <\/p>\n<p>&quot;A maior parte est&aacute; &agrave; espera do programa de DDR,&quot; disse dos seus companheiros. &quot;Durante os recentes ataques, a maioria&#8230; n&atilde;o queria lutar, por isso regressou &agrave;s aldeias.&quot;<\/p>\n<p>A solu&ccedil;&atilde;o, disse Kone, seria convencer combatentes como ele que podem ter um futuro vi&aacute;vel fora do ex&eacute;rcito, o que quer dizer que lhes devem ser fornecidas compet&ecirc;ncias para al&eacute;m das que actualmente possuem. <\/p>\n<p>&quot;A &uacute;nica coisa que aprendi desde o in&iacute;cio do conflito &eacute; usar uma arma,&quot; afirmou. &quot;Por isso, n&atilde;o quero entregar a minha arma agora.&quot;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ABIDJAN, 02\/11\/2012 &ndash; Com as suas botas pretas e farda verde &#8211; incluindo bra&ccedil;adeiras ostentando o nome do ex&eacute;rcito nacional, as For&ccedil;as Republicanas da Costa do Marfim &#8211; Ousmane Kone parecia realmente um soldado enquanto guardava uma companhia de distribui&ccedil;&atilde;o de electricidade e &aacute;gua numa ter&ccedil;a-feira &agrave; tarde em Abidjan. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/convencer-os-rebeldes-na-costa-do-marfim-a-entregarem-as-armas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":414,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10925","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/414"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10925"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10925\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}