{"id":10926,"date":"2012-11-02T03:13:46","date_gmt":"2012-11-02T03:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10926"},"modified":"2012-11-02T03:13:46","modified_gmt":"2012-11-02T03:13:46","slug":"poligamia-mentiras-e-disparidade-do-gnero-no-senegal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/poligamia-mentiras-e-disparidade-do-gnero-no-senegal\/","title":{"rendered":"Poligamia, Mentiras e Disparidade do G&eacute;nero no Senegal"},"content":{"rendered":"<p>DAKAR, 02\/11\/2012 &ndash; Fatou (40), Awa (32) e Aissatou Gaye (24) est&atilde;o sentadas com uma atitude meditativa no ch&atilde;o ladrilhado no exterior da sua casa matrimonial em Keur Massar, cidade dormit&oacute;rio nos arredores da capital senegalesa, Dakar. <!--more--> &quot;Estas s&atilde;o as minhas tr&ecirc;s mulheres e brevemente vou ter uma quarta de acordo com a lei isl&acirc;mica,&quot; gaba-se Ousmane Gaye (50), um homem de neg&oacute;cios com interesses comerciais nesta na&ccedil;&atilde;o da &Aacute;frica Ocidental e tamb&eacute;m no vizinho Mali e na G&acirc;mbia.<\/p>\n<p>&quot;Como podem ver, elas gostam umas das outras e vivem em harmonia e paz como tr&ecirc;s irm&atilde;s,&quot; afirmou. Mas a paz e a harmonia t&ecirc;m um significado estranho no vocabul&aacute;rio de Ousmane Gaye. <\/p>\n<p>&quot;Na noite passada, Fatou e Awa espancaram Aissatou repetidamente e insultaram-na,&quot; disse uma fonte da fam&iacute;lia &agrave; IPS sob condi&ccedil;&atilde;o de anonimato. <\/p>\n<p>&quot;Acusaram-na de ter enfeiti&ccedil;ado o marido e de o fazer am&aacute;-la muito. De facto, quando o senhor entrou, preparava-se para as censurar. Falando honestamente, desde que Ousmane trouxe Aissatou para casa h&aacute; tr&ecirc;s anos, o seu lar n&atilde;o conhece a paz e o sossego. <\/p>\n<p>As mulheres est&atilde;o proibidas de falar com estranhos, incluindo vizinhos, activistas de direitos das mulheres ou conselheiros matrimoniais, sobre problemas matrimoniais. Tamb&eacute;m n&atilde;o podem protestar desnecessariamente desde que tenham &quot;tudo&quot;, o que inclui alimentos, roupas e sexo.<\/p>\n<p>A actividade sexual na casa deste pol&iacute;gamo consiste em Ousmane Gaye passar duas noites por semana com cada mulher. O domingo &eacute; dia de descanso ou o dia &quot;quando n&atilde;o h&aacute; sexo&quot; para o homem, que procura constantemente medicamentos tradicionais para satisfazer as tr&ecirc;s esposas. <\/p>\n<p>&quot;Este &eacute; o modo de vida no Senegal,&quot; afirmou Adama Kouyate, propriet&aacute;rio de um cibercaf&eacute; no bairro de classe m&eacute;dia de Golf Sud. H&aacute; dois anos, Kouyate &quot;herdou&quot; a mulher e os seis filhos do seu falecido irm&atilde;o. Acabou de ter um filho com a mulher do falecido irm&atilde;o, aumentando o n&uacute;mero de crian&ccedil;as sob a sua responsabilidade o para 14. <\/p>\n<p>&quot;Isto nada tem a haver com o Isl&atilde;o, mas &eacute; a nossa cultura e um dia um dos meus irm&atilde;os tamb&eacute;m vai herdar a minha mulher e os meus filhos depois de eu ter morrido. E nenhuma mulher tem o direito de se opor a este estado de coisas porque ser&aacute; amaldi&ccedil;oada para o resto da vida,&quot; disse ele em Wolof , a l&iacute;ngua mais falada em Dakar. <\/p>\n<p>Animata*, uma mulher de Dakar que d&aacute; aconselhamento e orienta&ccedil;&atilde;o secretamente a mulheres casadas, afirma: &quot;A poligamia &eacute; uma forma de escravatura moderna, acreditem em mim, n&atilde;o &eacute; t&atilde;o f&aacute;cil como parece. As mulheres envolvidas neste tipo de casamento n&atilde;o t&ecirc;m voz e n&atilde;o t&ecirc;m nenhum canal qa ue possam recorrer para se queixar.&quot;<\/p>\n<p>Rokhaya*, licenciada universit&aacute;ria de 23 anos que no in&iacute;cio deste ano foi obrigada a casar com um homem rico de 48 anos, concorda: &quot;A poligamia &eacute; um inferno e um monte de mentiras.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Olhem para mim, sou jovem e deveria estar a fazer coisas que a maior parte das raparigas com a minha idade faz. Tinha sonhos e aspira&ccedil;&otilde;es de ser propriet&aacute;ria de uma pequena companhia e de viajar pelo continente. Tudo isso parou devido a este casamento artificial.&quot; <\/p>\n<p>&quot;Estou presa e sinto que estou a ficar louca porque este homem rico e analfabeto n&atilde;o me deixa realizar os meus sonhos,&quot; disse a chorar. <\/p>\n<p>Daya* afirma que quer continuar a estudar mas tem medo que o marido n&atilde;o o permita. Deixou de ir &agrave; escola na s&eacute;tima classe aos 15 anos, quando foi entregue em casamento a um primo, um cl&eacute;rigo mu&ccedil;ulmano. Agora tem 30 anos e sete filhos.<\/p>\n<p>Aminata, uma divorciada que esteve envolvida num casamento pol&iacute;gamo durante 18 anos, afirma que a poligamia viola o princ&iacute;pio da igualdade, promove a disparidade do g&eacute;nero e compromete o progresso das mulheres na sociedade. &quot;E est&aacute; a ficar pior no Senegal,&quot; aponta.<\/p>\n<p>&quot;Em virtualmente todos os sectores da vida aqui no Senegal &#8211; quanto a quest&otilde;es de heran&ccedil;a, envolvimento em neg&oacute;cios e acesso &agrave; terra e &agrave; educa&ccedil;&atilde;o &#8211; as mulheres est&atilde;o a ficar para tr&aacute;s, apesar da nossa constitui&ccedil;&atilde;o assegurar a igualdade entre os homens e as mulheres. <\/p>\n<p>De acordo com o &Iacute;ndice Global da Desigualdade do G&eacute;nero produzido pelo F&oacute;rum Econ&oacute;mico Mundial desde 2006, o Senegal ocupa o 102&deg; lugar de um total de 134 pa&iacute;ses. O &iacute;ndice mede a posi&ccedil;&atilde;o das mulheres relativamente aos homens nas &aacute;reas de participa&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e oportunidade, n&iacute;vel educativo, capacita&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, sa&uacute;de e sobreviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>E o pa&iacute;s encontra-se na 108&ordf; posi&ccedil;&atilde;o de um total de 155 pa&iacute;ses quanto ao &Iacute;ndice de Desenvolvimento Ajustado ao G&eacute;nero, inclu&iacute;do no Relat&oacute;rio de Desenvolvimento Humano produzido pelo Programa das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para o Desenvolvimento. <\/p>\n<p>O relat&oacute;rio da &quot;Avalia&ccedil;&atilde;o do G&eacute;nero USAID-Senegal de 2010&quot; (http:\/\/senegal.usaid.gov\/sites\/default\/files\/2010%20USAID%20Senegal%20Gender%20Assessment.pdf), publicado em Abril de 2012, aponta igualmente para a continua&ccedil;&atilde;o de disparidades do g&eacute;nero em muitas &aacute;reas neste pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&quot;Refere-se com regularidade que a implementa&ccedil;&atilde;o das diversas leis nacionais e internacionais referentes &agrave; igualdade do g&eacute;nero e aos direitos das mulheres &eacute; fraca e que o governo n&atilde;o tem um plano adequado para cumprir as suas pol&iacute;ticas,&quot; diz o relat&oacute;rio da USAID.<\/p>\n<p>Segundo o relat&oacute;rio, 39 por cento das raparigas no Senegal com idades compreendidas entre os 20 e os 24 anos j&aacute; estavam casadas aos 18 anos, estando o pa&iacute;s no 27&deg; lugar de um total de 68 pa&iacute;ses inquiridos quanto &agrave; quest&atilde;o do casamento das raparigas antes dos 18 anos. <\/p>\n<p>A maioria dos jovens do sexo masculino entrevistados na Place de l&#39;Independance, no centro da cidade de Dakar, afirmam que escolher&atilde;o a poligamia quando estiverem prontos para o casamento.<\/p>\n<p>Lamine Camara, de 22 anos e estudante na Universidade de Cheik Anta Diop, em Dakar, afirma que prefere ser pol&iacute;gamo e &quot;assumir oficialmente todas as minhas rela&ccedil;&otilde;es em vez de ter uma s&eacute;rie de namoradas e arriscar-me a contrair doen&ccedil;as como a SIDA.&quot; <\/p>\n<p>Issa Diop, condutor de cami&otilde;es pol&iacute;gamo de 28 anos, afirma que os jovens como ele tornam-se pol&iacute;gamos por op&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; como a moda, n&oacute;s seguimos a tend&ecirc;ncia. Al&eacute;m disso, o n&uacute;mero de mulheres ultrapassa o dos homens no Senegal. A poligamia ajuda muito. Quase todos os homens na minha zona, jovens ou pobres, s&atilde;o agora pol&iacute;gamos. E depois?&quot;<\/p>\n<p>Um pouco mais de metade da popula&ccedil;&atilde;o do Senegal de 12.9 milh&otilde;es s&atilde;o mulheres. Na faixa et&aacute;ria entre os 15 e 64 anos h&aacute; 3.6 milh&otilde;es de mulheres por compara&ccedil;&atilde;o aos 3.2 milh&otilde;es de homens, de acordo com o perfil demogr&aacute;fico do pa&iacute;s em 2012.<\/p>\n<p>&quot;A pr&aacute;tica, que no passado era muito comum nas &aacute;reas rurais, chegou &agrave;s zonas urbanas em propor&ccedil;&otilde;es alarmantes. E o abuso est&aacute; a aumentar, em grande parte em Dakar, onde os pol&iacute;gamos est&atilde;o a tornar-se cada vez mais novos,&quot; relatou Fanta Niang, assistente social e activista do g&eacute;nero na cidade de Thies, a terceira maior do Senegal. <\/p>\n<p>&quot;Que eu saiba, n&atilde;o h&aacute; estat&iacute;sticas oficiais sobre os casamentos pol&iacute;gamos no Senegal. Costumava dizer-se que um em cada quatro casamentos nas &aacute;reas urbanas e um em cada tr&ecirc;s casamentos nas &aacute;reas rurais era pol&iacute;gamo, mas estes n&uacute;meros t&ecirc;m defici&ecirc;ncias visto que desvalorizam a gravidade da situa&ccedil;&atilde;o,&quot; afirmou Niang.<\/p>\n<p>Acrescenta que, infelizmente, a maioria das esposas em casamentos pol&iacute;gamos s&atilde;o anafabetas e desconhecem os direitos das mulheres e o direito &agrave; igualdade. <\/p>\n<p>A Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Educa&ccedil;&atilde;o, a Ci&ecirc;ncia e a Cultura revelou em 2010 que aproximadamente uma em cada seis mulheres no Senegal (61 por cento) tem falta de conhecimentos b&aacute;sicos de alfabetiza&ccedil;&atilde;o. Metade da popula&ccedil;&atilde;o adulta do Senegal &eacute; analfabeta, de acordo com o Fundo das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Inf&acirc;ncia. <\/p>\n<p>A lei da paridade do g&eacute;nero do Senegal de Maio de 2010, adoptada pelo governo de Abdoulaye Wade apesar de cr&iacute;ticas de tradicionalistas e de mu&ccedil;ulmanos adeptos da linha dura, abriu o caminho para 64 mulheres terem assento no parlamento com o recentemente eleito governo de Macky Sall. A lei exige que os partidos pol&iacute;ticos assegurem que metade dos seus candidatos nas elei&ccedil;&otilde;es locais e nacionais sejam mulheres. <\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o tem havido progresso em termos da emancipa&ccedil;&atilde;o das mulheres no Senegal e a poligamia continua a desempenhar um papel relevante a este respeito,&quot; afirmou Niang. &quot;A capacita&ccedil;&atilde;o das mulheres deve come&ccedil;ar pelas bases e n&atilde;o no topo. Estas 64 deputadas s&atilde;o s&oacute; a ponta do iceberg. E o que se faz com os 61 por cento que n&atilde;o sabem ler nem escrever?&quot; <\/p>\n<p>&quot;Interagimos com estas mulheres diariamente e vemos coisas que v&ocirc;ces nem querem ouvir. &Eacute; por isso que digo que n&atilde;o h&aacute; progresso.&quot; <\/p>\n<p>Alguns defendem que a poligamia constitui uma amea&ccedil;a aos princ&iacute;pios constitucionais do Senegal quanto &agrave; igualdade do g&eacute;nero e &agrave; Estrat&eacute;gia Nacional para a Igualdade e Equidade do G&eacute;nero, que foi desenvolvida em 2005.<\/p>\n<p>Moussa Kalombo, analista do g&eacute;nero e perito em quest&otilde;es religiosas, disse &agrave; IPS que a poligamia viola os princ&iacute;pios constitucionais da igualdade do g&eacute;nero em todos os pa&iacute;ses. <\/p>\n<p>*Nomes alterados para proteger a identidade dos entrevistados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>DAKAR, 02\/11\/2012 &ndash; Fatou (40), Awa (32) e Aissatou Gaye (24) est&atilde;o sentadas com uma atitude meditativa no ch&atilde;o ladrilhado no exterior da sua casa matrimonial em Keur Massar, cidade dormit&oacute;rio nos arredores da capital senegalesa, Dakar. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/poligamia-mentiras-e-disparidade-do-gnero-no-senegal\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1313,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10926","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10926","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1313"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10926"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10926\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10926"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10926"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10926"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}