{"id":10940,"date":"2012-11-12T04:24:34","date_gmt":"2012-11-12T04:24:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=10940"},"modified":"2012-11-12T04:24:34","modified_gmt":"2012-11-12T04:24:34","slug":"repblica-democrtica-do-congo-reabilitao-de-antigas-crianas-soldado-que-gostavam-de-matar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/repblica-democrtica-do-congo-reabilitao-de-antigas-crianas-soldado-que-gostavam-de-matar\/","title":{"rendered":"Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo: Reabilita&ccedil;&atilde;o de Antigas Crian&ccedil;as-Soldado que &quot;Gostavam&quot; de Matar"},"content":{"rendered":"<p>Bukavu, Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Con, 12\/11\/2012 &ndash; A vida de Murhula* mudou para sempre quando tinha nove anos de idade. Foi o ano em que aprendeu a matar, a torturar e a violar. <\/p>\n<p>Foi o ano em que as mil&iacute;cias entraram na sua escola numa pequena aldeia perto de Bukavu, no Sul do Kivu, na Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo (RDC), e o obrigaram, juntamente com outras crian&ccedil;as, a acompanh&aacute;-las para os campos na floresta onde foram treinados a tornarem-se soldados. &quot;Aconteceram muitas coisas sobre as quais n&atilde;o consigo falar. Foi muito desumanizador,&quot; recorda Murhula, agora com 25 anos. Durante nove anos lutou contra grupos militares diferentes: primeiro a Coliga&ccedil;&atilde;o Congolesa para a Democracia, depois o Mudundo, os Mai-Mai e finalmente o Ex&eacute;rcito Nacional Congol&ecirc;s. <!--more--> Perto de 30.000 crian&ccedil;as da RDC, mais de um ter&ccedil;o raparigas, foram treinadas a ser crian&ccedil;as-soldado para ajudar a luta numa guerra pelo poder tribal e pol&iacute;tico, assim como pelos recursos naturais, guerra essa em que quatro milh&otilde;es de pessoas morreram at&eacute; hoje. <\/p>\n<p>A RDC ratificou uma s&eacute;rie de tratados internacionais para proteger os direitos das crian&ccedil;as. Em 2001, esta na&ccedil;&atilde;o da &Aacute;frica Central assinou a Resolu&ccedil;&atilde;o 1341 do Conselho de Seguran&ccedil;a das Na&ccedil;&otilde;es Unidas, que exige o fim do recrutamento das crian&ccedil;as-soldado e a sua desmobiliza&ccedil;&atilde;o e reabilita&ccedil;&atilde;o. Mas, segundo a Amnestia Internacional, o governo congol&ecirc;s pouco tem feito para implementar estes acordos.<\/p>\n<p>Depois das elei&ccedil;&otilde;es democr&aacute;ticas na RDC em 2006, e especialmente depois do acordo de paz de Goma em 2008, que trouxe alguma paz ao leste da RDC, as organiza&ccedil;&otilde;es de ajuda internacional, como o Fundo das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Inf&acirc;ncia, a Caritas, ag&ecirc;ncia de ajuda humanit&aacute;ria cat&oacute;lica, e outras organiza&ccedil;&otilde;es decidiram ajudar a desmobiliza&ccedil;&atilde;o das crian&ccedil;as-soldado. (O pa&iacute;s vai regressar &agrave;s urnas no dia 28 de Novembro para a sua segunda elei&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica desde a independ&ecirc;ncia).<\/p>\n<p>Mas o apoio psicol&oacute;gico a milhares de jovens traumatizados e submetidos a lavagens cerebrais que necessitam de ajuda para regressar a uma vida normal n&atilde;o faz parte da desmobiliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A RDC tem agora uma gera&ccedil;&atilde;o de crian&ccedil;as e jovens adultos que n&atilde;o se lembram de uma vida sem viol&ecirc;ncia. Traumatizados por acontecimentos que nem os adultos nem as crian&ccedil;as deviam testemunhar, as antigas crian&ccedil;as-soldado transformaram-se em agressores temidos, ladr&otilde;es e drogados que t&ecirc;m dificuldade em voltar a fazer parte da sociedade. At&eacute; os pais se recusam a aceitar estas crian&ccedil;as de volta ao conv&iacute;vio da fam&iacute;lia porque, como demonstra o exemplo de Murhula, h&aacute; sinistras verdades escondidas no passado de muitas antigas crian&ccedil;as-soldado. <\/p>\n<p>Completamente submetido a uma lavagem cerebral pela ideologia r&iacute;gida e hier&aacute;rquica das mil&iacute;cias, o rapaz come&ccedil;ou a gostar de infligir a dor, justificando os seus actos como &quot;normais em tempo de guerra.&quot;<\/p>\n<p>&quot;Gostei de ser soldado. N&atilde;o sei quantas pessoas matei. De qualquer forma, s&oacute; estava a seguir ordens,&quot; disse num tom de desafio.<\/p>\n<p>&Eacute; uma contradi&ccedil;&atilde;o surpreendente ter de enfrentar esta realidade &#8211; a maior parte das crian&ccedil;as-soldado s&atilde;o v&iacute;timas traumatizadas e agressores violentos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>A forma como o perfil deste conflito se desenrola nos seus esp&iacute;ritos e como precisa de ser abordado est&aacute; agora a ser investigado por Tobias Hecker e Katharin Hermenau, psic&oacute;logos da Universidade de Konstanz. Actualmente trabalham com soldados num centro de reabilita&ccedil;&atilde;o em Goma, a capital regional do Norte do Kivu, no leste da RDC.<\/p>\n<p>&quot;Cheg&aacute;mos &agrave; conclus&atilde;o que aqueles que se divertiram com a viol&ecirc;ncia sofrem menos perturba&ccedil;&otilde;es p&oacute;s-traum&aacute;ticas mas &eacute; mais dif&iacute;cil reintegr&aacute;-los na sociedade porque est&atilde;o preparados a tornarem-se violentos mais uma vez,&quot; relatou Hermenau.<\/p>\n<p>Com base em mais de 200 entrevistas, os investigadores constataram que um n&uacute;mero surpreendemente baixo de antigas crian&ccedil;as-soldado &#8211; 25 por cento &#8211; tinham a s&iacute;ndrome de stress p&oacute;s-traum&aacute;tica. Isto significa que tr&ecirc;s em cada quatro continuam a ligar a viol&ecirc;ncia a emo&ccedil;&otilde;es positivas. <\/p>\n<p>&quot;Vemos muito orgulho, sentimentos de vingan&ccedil;a e poder. Muitos falam da vontade de matar,&quot; afirmou Hermenau.<\/p>\n<p>O resultado da investiga&ccedil;&atilde;o sublinha como &eacute; problem&aacute;tico reintegrar as crian&ccedil;as-soldado na sociedade. <\/p>\n<p>Uma organiza&ccedil;&atilde;o que tem esta dif&iacute;cil tarefa &eacute; o Centro para a Aprendizagem Artesanal e Profissional (CAPA) em Bukavu, a capital provincial do Sul de Kivu, localizada a 100 quil&oacute;metros a sul de Goma. Esta organiza&ccedil;&atilde;o sem fins lucrativos ensina &agrave;s antigas crian&ccedil;as-soldado uma s&eacute;rie de of&iacute;cios, incluindo aplica&ccedil;&atilde;o de tijolos, carpintaria, trabalhos em couro e estofos.<\/p>\n<p>O director da CAPA, Vital Mukuza, n&atilde;o tem ilus&otilde;es sobre a reabilita&ccedil;&atilde;o das antigas crian&ccedil;as-soldado.<\/p>\n<p>&quot;&Eacute; muito dif&iacute;cil. S&atilde;o agressivos, irrit&aacute;veis e propensos &agrave; viol&ecirc;ncia e vandalismo, representando uma amea&ccedil;a constante aos outros.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o respeitam as normas ou a autoridade e est&atilde;o habituados a apoderarem-se de tudo o que querem,&quot; acrescentou. &quot;A adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; vida normal demora v&aacute;rios meses.&quot;<\/p>\n<p>&Eacute; aqui que Murhula est&aacute; a tentar iniciar uma nova vida, aprendendo a construir guitarras. <\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos dois anos, dedicou-se a aprender esta nova profiss&atilde;o, com a esperan&ccedil;a de poder abrir uma pequena loja um dia, talvez constituir uma fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>&quot;N&atilde;o quero pensar mais no passado,&quot; disse.<\/p>\n<p>Mas a maioria das 30.000 crian&ccedil;as-soldado n&atilde;o tem acesso a uma rede de apoio psicol&oacute;gico, social e econ&oacute;mico. Depois de desmobilizados, t&ecirc;m de sobreviver por si pr&oacute;prios e muitas vezes vivem isolados e em pobreza. <\/p>\n<p>Mulume*, de 22 anos, que foi recrutado &agrave; for&ccedil;a pelos Mai-Mai quando tinha 17 anos, est&aacute; agora desempregado e admitido que se sente perdido. Embora tenha sido autorizado a regressar &agrave; sua aldeia natal de Kahungu, a 65 quil&oacute;metros a norte de Bukavu, sente muita desconfian&ccedil;a &agrave; sua volta. <\/p>\n<p>Quando lhe perguntam se v&ecirc; um futuro para ele, abana a cabe&ccedil;a e diz &quot;n&atilde;o&quot;.<\/p>\n<p>&quot;Tenho simplesmente de aceitar o meu destino,&quot; afirmou.<\/p>\n<p>*Os apelidos foram omitidos para proteger a identidade das pessoas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bukavu, Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Con, 12\/11\/2012 &ndash; A vida de Murhula* mudou para sempre quando tinha nove anos de idade. Foi o ano em que aprendeu a matar, a torturar e a violar. <\/p>\n<p>Foi o ano em que as mil&iacute;cias entraram na sua escola numa pequena aldeia perto de Bukavu, no Sul do Kivu, na Rep&uacute;blica Democr&aacute;tica do Congo (RDC), e o obrigaram, juntamente com outras crian&ccedil;as, a acompanh&aacute;-las para os campos na floresta onde foram treinados a tornarem-se soldados. &quot;Aconteceram muitas coisas sobre as quais n&atilde;o consigo falar. Foi muito desumanizador,&quot; recorda Murhula, agora com 25 anos. Durante nove anos lutou contra grupos militares diferentes: primeiro a Coliga&ccedil;&atilde;o Congolesa para a Democracia, depois o Mudundo, os Mai-Mai e finalmente o Ex&eacute;rcito Nacional Congol&ecirc;s. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2012\/11\/africa\/repblica-democrtica-do-congo-reabilitao-de-antigas-crianas-soldado-que-gostavam-de-matar\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":117,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-10940","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10940","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/117"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10940"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10940\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10940"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10940"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10940"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}